terça-feira, novembro 06, 2007

volver


















Aproveitámos o feriado para passear e regressar à terra/cidade que cruzou os nossos destinos: Madrid. Após dois anos de ausência, achámos que esta era a altura perfeita para nos metermos novamente no carro e percorrer os mais de 600 kms que separam as duas capitais. Foi algo sem grande premeditação, foi uma espécie de desejo, uma vontade de partir. 'Vamos até Madrid? Vamos,' e fomos.
Arrancámos sem hostal marcado, depois de um telefonema onde nos informaram que afinal, a reserva feita há mais de uma semana, tinha ficado sem efeito por causa de um eventual engano no livro de registo. Não me preocupou. 'Partimos à aventura', pensei, sem remorsos e como se fossemos dois adolescentes... e assim foi. Tudo muito simples, porque para complicado já basta o dia-a-dia. Aproveitámos as magníficas paisagens serenas do Alentejo e maravilhámo-nos com a imensidão e qualidade do asfalto espanhol sem uma única portagem no horizonte. Parámos as vezes que achámos necessárias, munimo-nos de cds que queríamos ouvir e fomos, calmamente e enquanto as horas da viagem nos permitiram, recordando episódios antigos de quando o C. ia lá ver-me todos os 15 dias, ou da cafetaria Zahara em plena Gran Via, local onde nos conhecemos.
O motivo da nossa viagem não foi apenas romântico ou até, nostálgico. Confesso que a intenção foi mesmo cultural. O motivo? Ver a exposição da pintora Paula Rego presente no Museu Rainha Sofia. E confesso que se as expectativas eram grandes, foram enormemente superadas. Venho fascinada com o que vi. Como se aquilo que estava ali, diante de mim, numa simples tela, me fosse tão intrínsecamente familiar. Como se 600 kms fossem realmente uma distância pequena perante aquele grandioso momento.
Tirando o ponto alto da nossa viagem, que foi ver 50 anos de obra da pintora, Madrid não surtiu os encantos de outrora. Não sei se é por já conhecer a cidade bem demais, por já não me trazer nada de novo, ou simplesmente por não estar preparada para a quantidade louca de pessoas na rua, senti-me quase claustrofóbica, como se já não pertencesse ali. Talvez tenha sido mesmo uma fase da minha vida, aquela em que lá vivi e onde tudo era novo e mágico. Talvez tenha sido uma fase que passou e não volta mais. Não sei o que foi, mas sinto que nem eu nem ele sentimos o mesmo. Perante a pergunta: 'Então, foi bom voltar?', a resposta traduzia-se quase sempre num 'sim' pouco convincente.
É bom voltar sem dúvida, reviver aquelas cores, o frio que se entranha na pele e nos greta as mãos e os labios, a multidão de rostos completamente desconhecidos, a aspereza de uma língua que é tão familiar quanto estranha, o café de gosto aguado e queimado, as tapas de queijos e presunto que comíamos com sôfrega gula, as cañas e os copos de sangria que bebíamos e brindávamos a nós, ao futuro, ou simplesmente por serem duas da manhã e as ruas estarem tão cheias como às duas da tarde...
Por tudo isso foi bom voltar, mas foi ainda melhor regressar a casa ao fim de quatro dias.

terça-feira, outubro 30, 2007

one step closer to 30

29


Ou como quem diz, mais perto dos 'intas' e longe dos 'intes'.
Fico sempre melancólica, sentimental e vulnerável no meu dia de anos. Não consigo evitar, mexe comigo, destabiliza-me. Geralmente faço sempre uma análise da minha vida e acho que é por isso que fico assim, com a confiança abalada, com as estruturas bambas. Prometo sempre a mim mesma que este ano não me vou deixar vencer, que serei superior a tudo isso, que vou andar de sorriso nos lábios, alegre e feliz da vida, mas nunca consigo.
Acho que é por ver, cada vez mais, que os meus objectivos estão cada vez mais longe de serem alcançados e de não conseguir atingir aquela serenidade e sabedoria que dizem, os outros, conseguir-se com a idade. Odeio-os a todos por apregoarem essas balelas aos quatro ventos, fazendo toda a gente acreditar nelas. Não consigo ser serena e feliz com a idade, nem sentir-me cada vez melhor comigo mesma. Aliás, sinto que o tempo passa por mim a uma velocidade estonteante e eu sinto-me cada vez mais pequena, mas medíocre, menos eu.
Acho que serei sempre uma eterna insatisfeita.

segunda-feira, outubro 29, 2007

entranhado

Hoje foi dia de biópsia no Hospital Curry Cabral. Apesar de não estar nervosa, estava ansiosa e não consegui dormir correctamente durante a noite. Acordei às quatro e pouco da manhã, depois às cinco, novamente às seis, até que saltei da cama eram sete horas, não valia a pena insistir no sono que não existia. Tomei um banho rápido, vesti-me, tomei o pequeno-almoço e fui andando para o hospital. Já sei que apanho sempre trânsito de manhã no túnel das Olaias e na Avenida de Berna, por isso, mais valia pôr-me a caminho quanto antes. Hoje correu tudo muito bem. Fui simpaticamente atendida pela mesma rapariga que há duas semanas atrás não quis ajudar um colega e se recusou a pegar no meu processo. Mais, fiquei a saber que faz anos na mesma semana que eu e que somos da mesma idade. Meteu conversa comigo sobre isso. Sorri-lhe educadamente. Esperei uma eternidade na sala de espera, pelo menos assim pareceu. Fui chamada por um intercomunicador onde mal se percebia o meu nome. Subi ao primeiro andar e entrei no consultório marcado, o 18. Reconheci a cara da médica que há duas semanas atrás quase se recusou a atender-me. Hoje quis conversar comigo, perguntar-me coisas sobre a minha infância, qual o aspecto que a pele tinha quando era pequena, quais as zonas mais problemáticas, etc.. Respondi-lhe sempre com a sensação de que ela não percebia nada daquilo que me perguntava, coisa que me irrita solenemente. Mandaram-me despir, queriam ver-me novamente. Assim fiz. Entretanto chegou a médica que iria analisar a biópsia. Decidiram escolher a zona da dobra do joelho para fazerem a extracção. Ao saber isso fiquei apreensiva. É uma zona de difícil acesso, sensível e delicada para levar pontos e cicatrizar, além de me prender os movimentos motores. Lá me levaram para uma outra sala onde me pediram para vestir uma bata e me deixaram descalça. Pedi umas pantufas de plástico, algo para meter nos pés. (odeio hospitais públicos, odeio, odeio, odeio…) A estagiária que seguia a médica para todo o lado lá tirou umas quantas pantufas de plástico que estavam enroladas sobre si mesmas na prateleira de um velho armário e deu-me um par para as mãos. Sempre me senti mais protegida, mesmo no plástico os meus pés reconheceram um conforto que não identificavam nas lajes de pedra geladas. A sala onde me deitei tinha uma maca antiga e uma enfermeira carrancuda com cara de poucos amigos que me olhava de soslaio. Decidiram que seria mesmo na dobra do joelho que me iriam fazer a biópsia, deram-me anestesia para aliviar a dor mas não foi suficiente… sentia a agulha a entrar-me na pele e as mãos das médicas e das enfermeiras a fazerem pressão na perna enquanto a mesma dáva esticões. Reforçaram a dose e finalmente lá me picaram, deixando-me um buraco com cerca de 5 mm na curvatura da perna. Coseu-me, mas teve dificuldade em dar-me os pontos devido à zona em que me furou. Ataram-me a perna com ligaduras e disseram-me que hoje não poderia estar de pé nem fazer grandes esforços, queriam mesmo mandar-me para casa, eu é que não deixei e disse que tinha de ir trabalhar. Saí do hospital com a data de 3 de Dezembro como o dia em que saberei afinal, que tipo de ictiose é a minha e a partir daí, voltar à minha luta, desta vez mais forte e confiante de que desta vez é que é.
E eu acredito que será.

quarta-feira, outubro 24, 2007

vícios

Ando viciada numa série de coisas ultimamente, nas mais diversas áreas e interesses. Algumas delas já falei aqui, outras, revelo-as agora em primeira mão. Achei que estava na hora de as mostrar. Sabendo os meus vícios também sabem mais de mim.
Blogues:
Ana de Amsterdam - O nome engana, mas há semelhança da música de Chico Buarque, também esta Ana se revela em cada palavra. No seu blogue - que é simplesmente excelente - a autora é dona de uma lógica que invejo e de uma escrita que me faz sentir pequenina e tacanha em tudo o que digo, como digo. Ainda eu às vezes, penso que um dia - nesta minha pequena cabeça -poderei ser escritora... É simplesmente ridículo, tonto, vulgar...
Guardem-no nos favoritos. Visitem-no até à exaustão, leiam-no atentamente. Merece a pena.
Post secret - Um blogue que visito regularmente desde os tempos em que tinha o livejournal. Fascina-me o lado frágil e secreto do ser humano. A forma como as nossas vidas não têm os contornos que desejamos, mas aqueles que fazemos deles. Às vezes assusta pela forma como a loucura residente em cada um de nós é revelada, mas ela existe, e é por isso mesmo que gosto de o visitar. Porque é feito por pessoas como eu e tu, porque mostra-me que afinal, apesar de tudo, a minha cabeça ainda está no lugar, mas segredos todos nós temos.
Música:
Samba Meu, Maria Rita - Já falei dele aqui é certo, mas não consigo ouvir outra coisa ultimamente. No carro, em casa, no ipod, no trabalho. As notas animadas e ritmadas dos sambas brasileiros, alegres e melodiosas, de português suave e doce, entram no meu ouvido com um encanto e alegrias quase desproporcionais à minha situação actual. Acho que no fundo, gosto de acreditar que em cada música, uma nova esperança vem ao meu encontro. Mais do que tudo, preciso disso.
Séries:
Brothers & Sisters - Dá na Fox (não sei em que dia da semana, mas geralmente consigo vê-la sempre) e na TV2 às sextas-feiras à noite. Sempre gostei de histórias familiares. Penso muitas vezes que se escrevesse um livro (lá estou eu) seria sobre histórias familiares. Gosto da forma incoerente em que as famílias vivem. Aquela maneira de amar tonta, alternada tantas vezes pela ira, pela culpa, pelos segredos, pela forma como todos se perdoam e vivem. Tenho histórias fantásticas na minha família, histórias que também mereciam ser reveladas, lidas, vistas, ouvidas. Qualquer dia falo sobre elas aqui. Até lá, fica apenas o apontamento de que gosto da série e gosto ainda mais da Sally Field. Grande senhora.
Anatomia de Grey - Descobri o vício tarde, mas ficou entranhadíssimo. Tenho um amigo meu que diz que a Anatomia de Grey não é uma série, é uma novela, daí gostarmos dela. Não deixa de ter razão. Esta 'novela' sobre a vida e o dia-a-dia de um grupo atraente de médicos num grande hospital não preza pela imaginação - a fórmula já existe há muito tempo, mas é sempre sinónimo de sucesso - mas como tantas outras séries sobre grupos de médicos atraentes, esta possui um lado humano que me agrada e cativa, diferente de todas as outras. Gosto da forma como as personagens femininas são um dos principais motores de toda a história. Como se revelam em cada episódio. Gosto da dureza e frieza da Cristina, da doçura da Izzie, ou da forma justa e implacável da Miranda Bailey. Gosto da série porque as mostra vulneráveis. Mesmo sendo médicas, mesmo sendo atraentes, mesmo trabalhando num grande hospital.
É a série que neste momento anima os meus serões e nunca perco um episódio. Bendita Fox Life à borla. Foi a melhor coisinha que a TV Cabo pôde fazer.
Vícios largados
Tabaco - Há seis dias que não toco num cigarro. Acabaram-se os cravanços por parte da minha chefe. Confesso que ontem me deu um gozo descomunal, perante um intransigente: 'Mafalda, dá-me um cigarro', dizer-lhe de forma calma e serena e bem na cara a frase: 'Deixei de fumar'. Foi como se o vício tivesse compensado.

desabafo

Cada vez me desiludo mais com as pessoas. Aliás, está a tornar-se tão frequente que não sei como é que ainda me surpreendo.

quinta-feira, outubro 18, 2007

transparência II

Hoje tentei estar o mais calma possível e não pensar muito nos acontecimentos do dia de ontem. Mesmo depois de ter acordado a meio da noite, assustada com um sonho, em que caminhava sobre lajes de papel, por cima de uma catarata de água enorme e muito forte, quando as mesmas cederam e eu caí no abismo, levada pela enxurrada. Se me recordar do sonho, ainda consigo visualizar o momento em que caía, o pânico que senti ao aperceber-me que não tinha chão por baixo dos pés. Acordei sobressaltada e demorei algum tempo até voltar a adormecer. Hoje lembrei-me disto várias vezes. Realmente os sonhos têm um simbolismo curioso e não duvido nem por um segundo, de que este é muito revelador da forma como me sinto face aos acontecimentos dos últimos dias.
Houve muita gente no trabalho que me perguntou 'então, foste ao médico, como correu?' e eu nunca dei parte fraca, nem nunca me desmanchei com qualquer tipo de pormenores. Sorria e apenas dizia 'oh, foi num instante, nem devia ter tirado o dia', não dando mais oportunidade a perguntas. E pronto, arrumava o assunto. No entanto, como estava preocupada por causa do resultado da biópsia que fiz o mês passado ao cólo do útero, andei o dia todo a tentar contactar a minha ginecologista, mas sem sucesso. Pegava no telemóvel, saía do meu lugar sorrateiramente e vinha sentar-me cá para fora, para as escadas de emergência, onde ninguém me ouvisse. Após várias tentativas frustradas, lá consegui falar com a médica que me realizou o exame - também ginecologista - onde consegui esclarecer certas coisas que me andavam a pôr macaquinhos no sótão. Também consegui que ela me ajudasse a alterar a data do tratamento já para o próximo mês, logo a seguir à minha próxima menstruação - o que me permite fazer o laser mais cedo do que eu pensava e começar a curar isto de uma vez - sem esta ajuda, só tinha vaga a 20 de Dezembro. Após isto fiquei mais calma e tranquila. Antes passei pelo assustada e pelo preocupada q.b., mas agora é como se algo dentro de mim me dissesse com toda a certeza: 'tudo se vai resolver, acredita' e eu como sempre fui de seguir os meus instintos, irei acreditar neste com mais força do que em todos os outros.
Na realidade, após o dia de ontem, que foi uma espécie de montanha russa de emoções, hoje estive serena. Fiz por estar bem e evitei andar cabisbaixa, triste ou de lágrima fácil. Não sei se será normal este meu comportamento à luz da psicologia, mas resultou, o que pode explicar das duas uma: que ou tenho uma fantástica capacidade de lidar com os problemas, ou que sofro do síndroma da bipolaridade - o que, diga-se de passagem, não me estranhava se assim fosse.
Hoje já tranquilizei a minha mãe com as novidades. É que ontem, após lhe ter comunicado tudo o que tinha acontecido, ficou tão afectada que pegou no carro e fez mais de 40 quilómetros para ir visitar a irmã e lhe despejar tudo o que tinha acabado de lhe contar. Fiquei enervadíssima quando mo disse. Fartei-me de lhe dizer que essas coisas não se dizem, que ela não tinha nada de ir a correr abrir a boca, que é um assunto privado e intímo que só a mim me diz respeito e que não gosto que a família fique a saber destas coisas... mas, tal como já o disse tantas vezes, a minha mãe anda a passar por uma fase emocional instável e a reacção às minhas críticas, foi a de se fazer de vítima e gritar comigo. Não é que eu não saiba que ela o fez sem maldade, porque estava preocupada, porque precisou de alguém com quem desabafar, que recorreu a um familiar próximo para o fazer, mas quando se trata da minha vida pessoal, dos meus problemas, de assuntos que só a mim me dizem respeito, fico passadíssima quando sei que terceiros andaram a falar deles, a comentá-los, sem saberem em concreto do que se trata, a exacerbarem o síndroma da 'coitadinha' que tanta urticária me provoca. Seja a minha mãe, seja quem for.
Mas pronto, já me passou. Amanhã irei tentar novamente falar com a minha médica ginecologista com a qual não consegui falar hoje e tentar saber a opinião dela, assim como aguardo o parecer de um outro médico, a quem pedi ajuda através de uma amiga. Quantas mais opiniões tiver, mais informada e esclarecida fico sobre o assunto - além de ver a gravidade ou não da questão.
De resto o dia foi calmo. A minha chefe finalmente regressou de lua-de-mel. Vem felicíssima, com um sorriso de orelha a orelha e um brilho forte nos olhos. Nunca a tinha visto assim. Realmente o casamento fez maravilhas...

quarta-feira, outubro 17, 2007

transparência

O tão aguardado dia da consulta chegou, mas não surtiu o efeito esperado, se é que esperava algum efeito. Depois do final do dia de ontem, o princípio do dia de hoje deixou-me insegura e vulnerável, com todas as emoções à flor da pele. Sentia-me emocional, incapaz. Cheguei ao hospital às 9h30 e assustei-me com o mar de gente que tinha acordado mais cedo do que eu e aguardava naquela sala de espera velha e angustiante. Fui atendida por um rapaz simpático que de repente, pediu ajuda à colega do lado, e acabou por ser rebaixado à frente de toda a gente. Tinha ar de cabra, não gostei do aspecto dela. Não o ajudou. Ele abanou a cabeça e desabafou entre dentes, depois olhou-me nos olhos à procura de uma expressão de solidariedade, deu-me um sorriso de conforto e pediu-me desculpa. Era simpático ele. Nem o nome lhe soube.
Aparentemente os serviços do hospital enganaram-se ao marcar a minha consulta e atribuiram-me o médico errado. Depois de uma enorme confusão, onde queriam aterar a data da consulta e adiá-la para daqui a duas semanas - a qual eu recusei - e nem mesmo após muita insistência minha em lhes fazer reconhecer que o erro tinha sido deles e demonstrar o transtorno que me causavam - esperei mais de 3 meses pela consulta, tive de faltar ao trabalho, etc. - fui atendida por um médico que sofria do síndroma da altivez e arrogância clínica, que me subjugou assim que entrei no seu gabinete. Relativizou tudo o que disse, riu-se quando lhe falei no nome da médica que me reencaminhou para aquele hospital e mandou-me despir, quase confiante de que aquilo que eu tinha não passava de uma simples 'pele seca'. Respondi-lhe ásperamente. Sempre. Consigo ser muito dura quando quero. Demais até.
Ironizei quase com satisfação quando lhe disse que 'tenho mais do que uma simples pele seca' e ele, ainda não convicto das minhas palavras, continuou: 'dispa-se, dispa-se, já vamos ver isso'.
E viu. E calou.
Nesse momento quase que lhe consegui dissecar a expressão de surpresa no rosto, a forma como lhe foi difícil reagir e articular o discurso. Disse repetidas vezes para si próprio: 'isto não é ictiose vulgar, a menina não tem ictiose vulgar' e saiu disparado da sala, alarmado, não sem antes me dizer para eu não sair dali, enquanto ele corria a chamar os restantes médicos da ala de dermatologia. E vieram todos, como uma grande comitiva, olhar para mim semi-nua, em cima de uma maca, tal e qual uma cobaia.
Este tipo de situação já me ocorreu um par de vezes. Normalmente, quando sinto que alguém me olha fixamente, ou com expressão de ponto de interrogação, sei o que lhes atravessa a alma naquele instante. Geralmente não os censuro. O desconhecido sempre fascinou o seu humano. Eu própria sofro do mesmo male. Mas, para demonstrar de que sei perfeitamente o que lhe vai dentro das cabecinhas, naquele preciso instante, fixo bem a pessoa, encaro-a de frente e, tal como os leões, não sou eu a primeira a desviar o olhar. A outra pessoa acaba por fazê-lo, constrangida, intimidada. Isto acontece-me por vezes nas situações mais banais - na praia, no verão quando ando mais destapada, ou quando alguém começa a olhar bem para mim e a ver que afinal, as minhas mãos, ou os meus cotovelos, não são bem iguais aos seus. Mas os médicos conseguem ser bem mais cruéis. Fazem-no friamente, como se fossemos um trapo, ou melhor, um boneco articulado e conseguem tirar qualquer tipo de dignidade que consigamos manter naquele instante.
Uma vez, no Hospital de Santa Maria fui mostrada quase como objecto de análise e de estudo (retiro o 'quase', porque foi mesmo isso que se tratou), a uma turma de estagiárias que me olhavam com olhos de piedade e de comiseração. Lembro-me que me mandaram despir e que de repente, sem eu saber, entraram cerca de 30 raparigas de batas brancas e cadernos na mão, que tiravam notas e segredavam entre si à medida que eu, uma jovem mais nova do que elas, era mostrada de frente e de costas por uma médica que falava articuladamente mas sem qualquer tipo de afectividade no discurso. Nesse dia chorei desalmadamente. Lembro-me que me enfiei no metro e chorei. Chorei muito. O caminho todo. Saí do metro e chorei. Entrei em casa e chorei. Lembro-me de o meu pai saber do episódio e de dizer que vinha a Lisboa e lhes partia a boca toda. Lembro-me de me sentir protegida por ele.
Desde esse dia que tenho pânico de grandes e velhos hospitais públicos. Desde esse dia que sempre procurei ajuda nos privados. Hoje, naquele velho e grande hospital público que é o Curry Cabral, vista por todos aqueles médicos, em cuecas e sutiã, deitada em cima daquela maca, lembrei-me desse dia. E tal como há dez anos atrás, chorei muito. Muito mesmo. Mas mantive sempre a carapaça dura e, se há dez anos eu não consegui pronunciar uma palavra em minha defesa, actualmente as coisas não são assim. Mas mesmo dando uma de durona, quando me vejo livre daquele ambiente que me oprime, geralmente desabo.
Marcaram-me duas biópsias para o dia 29 de Outubro, tudo porque afinal, a doença que me acompanha há quase 29 anos e que sempre pensei tratar-se de ictiose vulgar, ao que parece é uma variante de Ictiose mais gravosa - Ictiose Hiperqueratose Epidermolítica - provavelmente ligada ao cromossoma X, o do sexo feminino, o que também poderá explicar o facto de eu e a minha mãe a termos. Se a biópsia comprovar este diagnóstico que me foi avançado hoje, talvez, mas mesmo só talvez e entrando no campo das probabilidades, poderei repetir o teste genético. Mas ainda é tudo muito novo e recente para falar sobre o assunto.
À tarde encontrei-me com uma amiga, pedi-lhe ajuda, liguei-lhe a dizer que precisava de desabafar e ela veio logo, disponível para me ouvir como o faz há longos anos. Falámos durante horas, ouvi conselhos, descomprimi, relaxei, para em seguida, enfiar-me no cabeleireiro e ter direito a um verdadeiro tratamento integral: pintei, fiz nuances, cortei e no fim estava linda e maravilhosa.
É realmente fantástico o poder que uma ida ao cabeleireiro faz à alma.
adenda: Hoje o dia também foi marcado pela avaria do nosso frigorífico. Realmente uma desgraça nunca vem só.

terça-feira, outubro 16, 2007

reveses

Aqui no trabalho, todos recebemos nesta última semana, telemóveis novos. Após tanto tempo de espera, finalmente, mas mesmo finalmente, decidiram-se a dar novos aparelhos às pessoas. A boa notícia animou as hostes. Toda a gente se entreteve com o novo brinquedo e ficou feliz por finalmente o departamento financeiro ter aberto os cordões à bolsa. É que havia verdadeiros telemóveis ‘pré-históricos’. Eu, por exemplo, que apenas tive direito a cartão na altura, andava com um velho aparelho meu, que vê agora chegar a tão esperada reforma.
O problema relacionado com os novos telemóveis veio depois, ou melhor dizendo, decorre actualmente. Como os toques que vinham de origem eram escassos e quase todos monocórdicos, a malta desatou toda a fazer dowloads do site da operadora e o resultado é que agora existem três ou quatro pessoas com a música da Vanessa da Mata e do Ben Harper (a mesma que tenho no meu blogue) a tocar a cada instante. Confesso que já estou enjoada da música e cada vez que a Vanessa da Mata canta o refrão ‘é demais, é pesado, não há paz’, penso que a letra não podia ser mais apropriada para o martírio auditivo que se vive por aqui. Depois há outros que têm a Rihanna e o seu ‘Umbrella’ (que eu acho simplesmente intragável), ou tão somente, o Jorge Palma com o seu ‘Encosta-te a mim’ (e eu que gostava tanto da música)…
É o que faz estar num espaço fechado com pessoas com gostos musicais idênticos ou tão dispersos. Ter uma música no telemóvel até é giro – eu própria tenho uma – mas o meu telemóvel não toca a cada cinco minutos, perturbando as restantes pessoas e fazendo com que uma música que até se gostava, passe de bestial a besta.
Entretanto ainda não tinha dito aqui, mas devido à minha participação em alguns concursos literários, no próximo Sábado irei até Redondo, no Alentejo. O motivo? Participar na cerimónia de entrega de prémios do concurso literário que a Câmara Municipal do Redondo promoveu há uns meses atrás e ao qual eu concorri. Foi apenas um texto simples de 4 páginas, onde o tema do concurso era ‘O blogue enquanto espaço de escrita e reflexão’. Eu achei que dada a minha experiência no assunto, podia escrever algo que até fizesse sentido e vai daí, meti mãos à obra. Afinal, já não é de agora que escrevo nestes espaços cibernéticos. Não alimento qualquer tipo de esperanças de ganhar nada, mas quero ir apenas pelo prazer de ir e de sentir que participei em algo, que concretizei. O convite chegou a semana passada e foi colocado em cima do aparador da sala para que não me esqueça. Haverá apenas três premiados, sendo que todos os restantes participantes receberão um diploma. É isso que estou mentalizada que irei receber, mas claro que trazer um diploma de participação e um cheque para casa, era muito mais giro…
Hoje sonhei com o Dr. Mário do Porto, provavelmente por ansiedade, motivada pela consulta de amanhã. Já pedi ao C. para me levar bem cedinho com ele quando for para o trabalho e deixar-me à porta do hospital, assim evito levar o carro e ter de estar sempre preocupada com o parquímetro e as multas da Emel na zona. Também já avisei na agência que irei tirar o dia. Apesar de não querer criar muitas expectativas em relação à consulta ou o que daí poderá advir, não consigo deixar de pensar que esta é a última hipótese que me resta nesta minha saga pessoal contra a ictiose. Talvez por isso, tenha sonhado com o Dr. Mário - com quem já não falo há meses. É como se a imagem dele me tivesse aparecido em sonho para me relembrar que esta é mesmo a minha última chance. Se assim for, o mais provável é que nunca mais volte a vê-lo fisicamente e a única forma, seja mesmo só sob a forma de sonho.
Ainda falando em médicos e afins, acabei de chegar a casa e tinha uma carta da Cuf com o resultado da biópsia ao útero que fiz no mês passado. Quando a li, fiquei assustadíssima. Não que perceba muito de linguagem médica, mas aquilo que conseguia discernir, não me augurava nada de bom. Fui instintivamente pesquisar na net as palavras do resultado e tudo o que me aparecia remetia para cenários negros. Comecei a ficar cheia de suores e nervosa com medo de que tivesse algo grave. Liguei para a minha médica ginecologista e, logo por azar, ela hoje nao dáva consulta. Não desisti e liguei para o hospital onde falei da situação a quem me atendeu a chamada, disse que necessitava de falar com um médico, alguém que me dissesse em concreto o que aquelas palavras significavam. Lá me passaram para o departamento de ginecologia. Fui atendida por uma senhora simpática, onde após a leitura do resultado citológico, me disse: 'não é cancro, mas tem de se tratar' e eu lá me acalmei. Confesso que ainda não consigo voltar a mim, respirar de forma calma ou compassada. O meu coração disparou a cem à hora quando comecei a ver que tudo aquilo que ambiciono, poderia esfumar-se assim, sem ter nada a ver com o motivo pelo qual ando a mover montanhas e o mundo há tanto tempo. Senti-me impotente, fraca mesmo. Sei que não irei tranquilizar até conseguir fazer o tratamento que me espera - um laser Co2 do cólo do útero - mesmo já tendo feito duas criocongelações infrutíferas. Só quero que o tratamento seja feito em breve, muito breve.
Sinto que não conseguirei descansar direito enquanto não o fizer.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Samba Meu




















Estou apaixonadíssima pelo último albúm da Maria Rita, 'Samba Meu'. Depois de um último trabalho mais melancólico e intimista, Maria Rita regressa cheia de sensualidade, segurança, humor e muita feminilidade. À beira de completar 30 anos, a filha de Elis Regina revela-se uma mulher madura.
E para começar bem o dia, nada como ouvir o mesmo, numa segunda-feira bem cedinho a caminho do trabalho, para ficar logo bem disposta.

domingo, outubro 14, 2007

relax, take it easy...


















Finalmente o tão desejado fim-de-semana chegou e eu vinguei-me dormindo cada minuto que pude. No sábado o corpo fraquejou, deu sinais de início de gripe e eu enfrasquei-me logo em medicação, não fossem os virús ganharem esta batalha. Fiquei grogue a maior parte do dia, dormindo o sono dos justos e recuperando de uma semana mal dormida e muito cansativa. Só saímos à noite, qual vampiros, para jantar e ir ao cinema (programa que já não fazíamos há algum tempo). A escolha recaíu sobre o Nood, o restaurante da moda de Lisboa, que alterna entre comida vietnamita, japonesa e tailandesa. Gostei, mas achei-o muito barulhento, além de a comida não me ter convencido. Não troco o chefe japonês do Assuka pelo Nood, por mais gira e cosmopolita que a decoração do mesmo seja. Achei graça à parceria que têm com a Nike e à BD em tamanho gigante que existe nas paredes, gostei da rapidez do serviço e da forma prática com que tudo é feito, do grafismo do logo e das ementas, mas achei que já não me enquadrava no target de idades vigentes, cuja média não devia de ultrapassar os vinte anos. Jantámos num instante - acho mesmo que demorámos menos tempo a jantar do que a conseguir entrar no parque de estacionamento do Chiado ao pé do largo do Carmo - e em seguida decidimos experimentar o café 'Saint Germain' mesmo ao lado do Nood, que nos chamou a atenção pelo seu bom aspecto (porque os olhos também comem, não é verdade?...)
O café era da Lavazza - marca que o C. simplesmente adora - e, para além do aspecto 'clean' proporcionado pelos arcos em pedra e pelas fotografias gigantes a preto e branco que se encontram nas paredes, o 'Saint Germain' revelou-se um espaço bastante agradável para um café no Chiado... mas claro que não bate o meu preferido e insubstituível 'Vertigo' uns metros mais à frente. Como já era quase meia noite decidimos ir andando até ao El Corte Inglés e ver que filmes havia em exibição. Quando lá chegámos nada nos despertava a atenção. Escolhemos um filme leve ao acaso e fomos os dois pouco convencidos até à respectiva sala, mas afinal até nos rimos e deu para descomprimir.
Hoje dormi outra vez até tardíssimo. Soube maravilhosamente bem para ser franca. Adoro acordar sem o peso das horas e preparar uma refeição de fim-de-semana. Geralmente optamos sempre pelos grelhados, ponho a mesa (coisa rara, já que temos muita tendência para comer no tabuleiro e sentados no sofá, devido à nossa disparidade de horários) e por momentos, parecemos um casal 'normal', num Domingo 'normal'. Nunca é, porque o C. geralmente vai sempre trabalhar e hoje não foi excepção.
Ainda não tinha mencionado aqui, mas o seguro recusou-se a comparticipar a minha operação às varizes. Nem um cêntimo dão para ajuda. Alegam que 'a doença já é anterior à data de realização da apólice' e que por esse motivo, não a irão comparticipar. Passei-me. Tenho dois seguros e nenhum deles comparticipa a operação. Eu já sei como funcionam as seguradoras, mas é ultrajante a forma como tratam as pessoas quando realmente precisamos delas. Pago eu quase 50 euros por mês para ter direito a seguro privado e quando preciso dele, o mesmo faz-me um par de manguitos. Por causa disso, desmarquei a operação. Neste momento não me posso dar ao luxo de pagar mais de 5000 euros do meu bolso, pelo que terei de esperar até estar melhor de finanças para o fazer. A minha mãe disse-me para tentar ir pela caixa. Irei fazê-lo, mas já sei que terei de esperar uns 3 anos - no mínimo - até conseguir ser operada...
Não me interpretem mal, mas no que toca a estas coisas, cada vez tenho mais vergonha de ser portuguesa...
Mas nem tudo são más notícias. Descobri a semana passada, que já estou oficialmente 'efectiva' na empresa! (finally!) O que deixa muito satisfeita porque apesar de todas as minhas queixas, cumpriram com tudo o que me prometeram: "um ano de contrato e depois passas aos quadros". E assim foi. Apesar de hoje em dia o 'estar efectiva' já não corresponder à mesma segurança de há uns anos atrás, confesso que fiquei bastante feliz com a notícia, é sinal de que estão satisfeitos com o meu trabalho. Na realidade, estas últimas três semanas em que a minha chefe esteve de férias, pude mostrar realmente aquilo que sou capaz de fazer, sem 'intermediários' pelo meio... e acho que fui bem sucedida. Claro que os castings e o lufa-lufa de norte a sul do país também ajudou...
Esta semana que começa estou ansiosa pelo dia de quarta-feira. A tão aguardada consulta de dermatologia no Curry Cabral está a chegar. Veremos que novidades, esperanças ou frustrações a mesma me reserva.
Torçam por mim. *

quarta-feira, outubro 10, 2007

around and around

Fazer castings é uma coisa horrorosa. Primeiro porque não tenho muita paciência e tenho de ser agradável, simpática e ajudar as meninas que estão sempre todas muito nervosas e impacientes. Segundo porque por mais que me divirta com a equipa, são sempre dias muito esgotantes e trabalhosos. Fazer castings até pode soar a engraçado - quem nunca se riu com os castings dos Ídolos que ponha o dedo no ar - mas estar um dia inteiro a fazer perguntas a meninas e meninos, a vê-los desfilar e a falar para a câmara, chega a ser monótono. Algumas, com a mania que são espertas e que têm imensa piada/graça, querem ver que classificação lhes dou na ficha que preencho e nessa altura confesso, só me apetece bater-lhes. Mas lá me muno de tolerância de santa, respiro fundo e apesar de tentar pô-las na ordem, esboço o meu melhor sorriso e faço uma qualquer graçola para as descomprimir. Durante a manhã, enquanto ainda estou fresca e viçosa a coisa corre bem, mas à tarde, quando o peso das horas já começa a fazer mossa e já passaram por mim mais de 600 pessoas, é de bradar aos ceús. No entanto, volto a respirar fundo e toda a técnica do marketing do sorriso regressa ao início, vezes e vezes sem conta, qual pescadinha de rabo na boca. Tem sido assim nos últimos dias de norte a sul do país, felizmente o final está próximo.
Ontem ainda consegui ir à agência. Deu para terminar uma proposta, ter uma reunião de manhã - onde fiquei plantada uma hora à espera da pessoa com a qual me ia reunir -, fazer contactos e contar as peripécias dos últimos dias aos colegas. Pelo meio ainda consegui falar no messenger com a Diane e perguntar como vai a gravidez. Ela estava grávida de gémeos e perdeu um dos embriões, mas o outro felizmente, salvou-se. Disse-me que agora está tudo bem, mas que tem pena de não ir mais vezes ao médico para ficar mais descansada. Disse-me também que se sente sempre constrangida quando fala da sua gravidez comigo, que sente culpa por estar grávida e eu não, que sabe que o facto de ter conseguido engravidar e ter um filho saudável (ao contrário de mim) me provoca dor. Disse-lhe que não tem de se sentir culpada de nada, porque na realidade, o facto de não conseguir fazer qualquer tipo de tratamentos para ter um filho saudável é um problema meu, não dela e como tal, não tem de se sentir lesada por isso. No fundo compreendo perfeitamente que ela se sinta responsável e que assuma parte da 'culpa', porque afinal, foi através dela que tive conhecimento dos tratamentos e do teste genético... mas o facto de ele ter dado negativo não é culpa dela, nem minha... é tão somente um grande azar como tantos outros que acontecem na minha vida.
Claro que me magoa não poder ter o mesmo tipo de felicidade, ou pelo menos de esperança. Magoa sim, magoa muito. É uma espécie de dor silenciosa que me fez ficar muito revoltada perante tudo e sinto que isso se nota cada vez mais, até em pequenas coisas do meu dia-a-dia, mas que posso fazer? Neste momento, aquela consulta tão distante que marquei há muitos meses atrás, está próxima. É já na próxima semana que irei à consulta no Hospital Curry Cabral e talvez aí, as minhas esperanças se renovem, lentamente, como a água que pinga de uma torneira mal fechada. Nem gosto de criar expectactivas, nem quero sonhar muito com medo de acordar e bater com a cara no chão, mas vou acreditar que há uma nova porta para abrir e ela está próxima.
Já aqui disse várias vezes que a minha vida é feita de esperas. É verdade. Mais do que nunca rejo-me por datas, etapas, pequenas conquistas e muitas derrotas. Tem sido um ano duro, muito duro. Tão duro como nunca imaginei que ele se tornasse, porque acreditei piamente que 2007 ia ser um ano bom, muito bom, um ano de concretização. Não foi. Não está a ser.
Resta-me apenas acreditar (outra vez) que para o ano é que é. E assim sucessivamente até algo acontecer. De momento ando a contar os dias para a operação (1ª etapa), mas ando a pensar seriamente adiá-la... é que além do trabalho volumoso e louco das últimas semanas, o valor da mesma é tão elevado, que muito provavelmente não terei dinheiro que me valha para pagá-la, além de o seguro de saúde se andar a tentar esquivar à força toda e de eu estar a ver tudo isto muito mal parado... O C. sugeriu adiarmos para Janeiro, mas se me decidir por isso, terei de repetir todos os exames que já fiz, assim como análises. Não sei o que faça sinceramente. Assim que o seguro se pronunciar, ou adio e desmarco, ou faço-a e se tudo for avante, falta uma semana e meia para ir 'à faca'.
Nem me atrevo a falar destas coisas com a minha mãe, porque emotiva e 'sensível' como anda (para não utilizar um adjectivo mais forte e depreciativo), o mais provável é entrarmos em rota de colisão uma com a outra e acabarmos chateadas. O meu pai insiste em ligar-me a dizer para eu não me esquecer de ir 'escolher um colchão para a cama nova', (a tal que comprámos no Ikea...) mas por mais que lhe explique que tenho andado numa roda viva entre Faro/Porto e Lisboa, e que não tenho tempo nem para me coçar quanto mais para ir ver de colchões, ele só diz que eu tenho de tratar disso até dia 22 de Outubro, data da operação. E é se quero ir lá para casa e ter onde me deitar...
P.S.- E o frio quando chega? estou farta deste Outono quente e morno.

domingo, outubro 07, 2007

2

Dois anos é um sopro, um vento leve, uma brisa que toca suavemente na pele, é uma gargalhada profunda e sentida que conforta a alma, é um sorriso bonito e aberto, é um abraço apertado, um suspiro profundo, um arrepio de frio, um calor que percorre e aquece. Dois anos é um tempo curto, ditado pelo calendário e pelas memórias das gentes. Foram dois curtos anos, um piscar de olhos.
O tempo de dizer 'amo-te'.
Parabéns a nós*




fuga



















Eu cheguei na sexta-feira à noite, cansada e mal humorada, depois de um dia de feriado a trabalhar e de na véspera, termos tido a aventura de uma vida a caminho do Algarve (ficámos empanadas com o carro, tivemos de chamar a assistência em viagem, fomos de táxi de Grândola até Faro, apanhámos uma operação stop pelo caminho e chegámos ao Hotel à uma da manhã mais mortas que vivas...). Perante os acontecimentos dos últimos dias, a minha vontade de fazer as malas e partir novamente para um destino que apesar de perto, exigia a dormida fora de casa, deixáva-me ainda com mais vontade de não sair do meu canto, mas fui contrariada e regressei feliz. O que é sempre bom sinal.
O C. preparou-me uma surpresa bem pertinho Lisboa, o que acabou por ser positivo, porque não tive de fazer outra grande viagem e bastava apenas passar a ponte. Ficámos no novíssimo Hotel Meliã Aldeia dos Capuchos, na Costa da Caparica e à noite jantámos no Borda D´Agua na praia da Morena. Foi calminho, mas foi romântico. Hoje passeámos até Sesimbra, com um dia de Sol de Outono fantástico e regressámos a Lisboa ao final da tarde, cansados, mas satisfeitos por afinal, tudo ter acabado bem - depois do desespero que foi conseguir arranjar um hotel onde passar o fds!
Neste momento, ainda nem recuperei dos dias intensos de trabalho e já estou prestes a fazer novamente as malas para amanhã, rumar às sete da matina, até ao Porto e por lá passar a noite, regressando a Lisboa apenas na Terça.
Seja como for e contrariando todas as nossas expectativas, este fim-de-semana a dois permitiu-nos estar juntos e celebrar uma data, que apesar de ser só uma data, nos é bastante especial. No final o C. surpreendeu-me com um postal que ele próprio fez com uma foto nossa e uma mensagem muito querida e sentida. A acompanhá-las vinha também um presente que me tocou bem cá no fundo do coração: os poemas completos de Miguel Torga. (e me fez despejar um verdadeiro mar de lágrimas, descarregando a tensão das últimas semanas.)
Foi bom. Sinto-me cheia.
'Foram dois anos que passaram a correr, mas os próximos 60 serão ainda melhores'.
Que seja feita a tua vontade*

quinta-feira, outubro 04, 2007

workaholic



















Estas últimas semanas têm sido de loucos e o trabalho tem sido tanto, mas tanto, que não tenho tido tempo sequer de actualizar o blogue. Duas semanas depois de ter vindo do Algarve em trabalho, eis que regresso, também em trabalho. Segunda-feira, dia em que faço dois anos de casada, eis que vou (também em trabalho) para o Porto e por lá devo ficar o dia e a noite toda, regressando a Lisboa às tantas da manhã…
Sinto que nestas últimas semanas o desempenho do meu trabalho tem sido apreciado, coisa que me deixa muito satisfeita, mas por outro lado, também sinto que a minha pessoal tem sido mais que negligenciada. O ano passado, primeiro ano de casada, tive o dia todo a trabalhar e este ano não será diferente. Eu já sei que esta altura é sempre muito complicada em termos de trabalho e geralmente, o dia do meu casamento, coincide sempre com um projecto que realizamos todos os anos e que envolve a nossa participação directa nos locais onde o mesmo se realiza. O ano passado estava em Lisboa, mas este ano estarei no Porto e ao contrário dos meus colegas que irão gozar um fds de 3 dias, eu terei apenas os habituais dois, já que também estarei a trabalhar no feriado…
O ter ido trabalhar durante um fds inteiro há duas semanas atrás, fez-me ganhar por parte da nossa directora, um cheque prenda de uma loja de nome conhecido. Não está mal. Gostei do gesto, apesar de ainda não ter tido sequer tempo para ir escolher um trapinho qualquer (e por este andar não o terei tão cedo).
Depois ainda há a minha operação, que é já daqui a cerca de 3 semanas. Já me ofereci para durante o tempo que estiver de baixa, trabalhar em casa. Levo o meu portátil para casa dos meus pais e uma placa de internet daqui do trabalho e meto o tempo livre a render. Sei que se quisesse não necessitava de o fazer, mas pronto, escrever nunca me custou, por isso posso sempre dar uma ajuda com os textos que são necessários despachar. O fds passado os meus pais vieram a Lisboa. Motivo? Ir ao Ikea escolher coisas para mobilar a casa nova. Mas não podiam ter escolhido pior dia: chovia a potes e era início do mês. Resultado? Centenas de pessoas tiveram a mesmíssima ideia e a ida ao Ikea transformou-se num pesadelo sem limites. Passámos cinco horas enfiados na loja, para escolher uma cama, cómoda, mesas de cabeceira, comprar meia dúzia de ‘bibelôts’, um espelho gigante para o hall de entrada e pouco mais. Ainda fiquei incubida da tarefa de comprar um colchão ao meu gosto, oferta do meu pai, para a minha cama nova. Acontece que eu não tenho tido tempo nem para me coçar quanto mais para ver de colchões e por este andar, chega a data da operação e eu durmo em cima do estrado…
Passaram-se muitas coisas nestas duas últimas semanas, a maior parte delas banais e sem importância, mas dignas de serem faladas e desabafadas aqui neste meu canto, mas não tenho tido oportunidade.
Espero apenas que este fds, quando regressar do Algarve, o meu marido me prepare uma surpresa maravilhosa, como ele diz que vai preparar, para pudermos relaxar os dois e comemorar antecipadamente o nosso segundo aniversário de casamento.
É que depois de termos pensado num fds romântico no Alentejo, no Algarve, em Sevilha e por último em Madrid, a sucessão de acontecimentos e reviravoltas por causa do meu trabalho, levou-nos a ficar por Lisboa, num fds de apenas dois dias…
Resta saber onde.




segunda-feira, setembro 24, 2007

as fotos...


E pronto.... estas foram algumas das imagens que consegui.
Claro que há mais, mas estas servem para aguçar a vossa curiosidade.




domingo, setembro 23, 2007

i´m still here

Não tenho dado notícias porque o cansaço e o stress têm sido mais que muitos, mas também porque no trabalho não temos tido net, problema que já dura há mais de uma semana. Nem o messenger conseguimos abrir, ou sequer, o portal do google. Há um problema qualquer com a troca de servidores e ao que parece, ninguém consegue dar uma explicação lógica e aceitável para o facto de uma agência de comunicação não ter internet - uma ferramenta base imprescindível para o nosso trabalho! Não adianta reclamarmos, barafustarmos e mostrarmos o nosso desagrado. Já ninguém nos ouve e as pessoas começam a perder aos poucos, a paciência. Confesso que me tem sido bastante difícil estar um dia todo sem net, não poder ver emails, o blogue, ler jornais online, ou tão somente, fazer o clipping diário. Sinceramente, não sei com o que é que as pessoas se entretiam antigamente para passar os tempos mortos no trabalho, pois eu sinto-me como se estivesse na Idade Média!
A situação está longe de estar terminada, por isso amanhã, segunda-feira e início de mais uma semana de trabalho, espera-me muito provavelmente outro dia igualmente 'motivante' do ponto de vista cibernético. Aguardemos.
Àparte disso, estive alguns dias no Algarve em trabalho. O motivo: inauguração oficial do hotel Hilton em Vilamoura. A festa foi ontem, mas antes disso ocorrer, foi destacada uma mega equipa na agência para ir lá para baixo nos dias que antecederam a gala e onde eu estava incluída. Ficámos todos instalados nos apartamentos do hotel. O meu, ou melhor, o das meninas, era um gigante T4, com uma sala enormeeeee, cozinha, 4 suites com casa de banho privada e uma varanda igualmente grande com chaise longs com vista para a piscina. Dividimo-nos duas a duas pelos quartos de camas confortáveis e fofas. Eu fiquei com a F., a minha companheira inseparável nestas andanças e a pessoa com quem tenho no trabalho, mais empatia. Apesar do enorme stress que foram estes últimos dias, com muitas discussões e nervos à mistura, o evento correu às mil maravilhas e ontem, acabámos a noite bastante divertidos e a equipa lá descomprimiu ao som dos Bonney M e 'Disco Fever' after hours, entre copos de champanhe na mão e muita risota. Na verdade, as coisas que se passaram foram tantas que não poderia falar sobre elas em apenas um post, mas em vários e correndo o risco de ser cansativa. Tive pena de me ter esquecido da máquina fotográfica em casa, porque na realidade, tinha tirado fotos maravilhosas e registado muitos momentos, mas é o que faz ter de arrumar malas à pressão. Mas houve quem tirasse, por isso, pode ser que nos próximos dias vos mostre algumas por aqui.
Dormi pouco, muito pouco. Uma média de 4 horas por noite, isto porque havia sempre uma qualquer festa (mais não fosse no nosso apartamento, ao mais puro estilo 'pijama party') ou ficássemos na conversa até às 4h30 da manhã...
Hoje cheguei a Lisboa à hora do almoço, o C. foi ter comigo à agência e almoçámos pela Expo, enquanto eu o punha ao corrente de todas as cusquisses e novidades, ainda um pouco excitada pela animação da noite anterior. Quando cheguei a casa dormi a tarde toda e só acordei já noite, completamente K.O. do cansaço acumulado dos últimos dias. Amanhã toca de levantar cedo e ir trabalhar, não há cá folgas para ninguém. Por isso deduzo que esta vá ser uma loonngggaaaa semana...

segunda-feira, setembro 17, 2007

revisão geral



















Hoje fiz o que andava à adiar há muito tempo: ir ao médico das varizes e marcar finalmente a operação. E voilá, a data já existe e eu estou assustadíssima: dia 22 de Outubro darei entrada na CUF Descobertas e se tudo correr bem, terei alta no dia seguinte. Nem é a operação propriamente dita que me assusta, mas sim o pós-operatório. É que como nunca fui operada, nunca levei pontos, nem nunca me ataram as pernas - ou qualquer outra parte do corpo com adesivos - estou em pânico, porque não sei como é que a minha pele irá reagir. Uma certeza eu tenho: bem não será de certeza, mas é um mal necessário. A verdade é que não posso adiar mais este assunto, porque corro sérios riscos de desenvolver um problema de saúde sério e grave, como por exemplo, uma trombose. E depois do Verão, esta parece ser a melhor altura para fazer a operação, mesmo que em termos de trabalho não seja propriamente a mais calma. Aliás, estava com medo que as reacções por aqui não fossem boas, mas aparentemente foram recebidas com calma e sem stresses. Coisa que me surpreendeu pela positiva.
Outra coisa que me preocupa é o facto de não saber ‘a priori’ se o seguro do trabalho cobre a operação. É que o meu pessoal da Medis, eu sei que não cobre e se o da Multicare for pelo mesmo caminho, então terei de desembolsar do meu próprio bolso cerca de 4.500€!!! (o valor aproximado da operação) O que a acontecer, me deixará depenadíssima por muitos e longos anos… E pronto, o panorama é este. Dia 22 de Outubro e a uma semanita de fazer 29 anos, vou à faca pela primeira vez na vida. No próprio dia entrarei por volta do meio-dia e serei operada às 16h00. Vou levar epidural (qual grávida) e terei de estar em jejum absoluto (inclusive água) a partir das dez da manhã (não sei como, mas pronto).
Ainda não sei como irei fazer e onde irei ficar: se vou para casa dos meus pais para as Caldas, se vou para a Ericeira, se fico por Lisboa. Tenho vários problemas logísticos relacionados com este assunto: se ficar em Lisboa, tenho de subir escadas para chegar a casa e tenho de subir mais escadas para ir da cozinha ao quarto, o que enfaixada das duas pernas não é nada conveniente. Por outro lado, na minha casa tenho net e TV Cabo, o que me permite estar em constante contacto com a agência e trabalhar a partir de casa – o que vai acontecer certamente. Apesar de o ficar em minha casa ser a opção que mais me agrada, tenho um grande inconveniente, não tenho onde deitar ninguém. Se por acaso a minha mãe viesse para Lisboa para me ajudar, não teria onde deitá-la. Este fds descobrimos que o sofá-cama da sala está partido. As molas da cama deram de si e se tiver que pagar a operação, não teremos dinheiro tão cedo para comprar outro…
Por outro lado se for para a Ericeira tenho todas as comodidades: elevador, casa plana, mas sem net e sem TV Cabo! Ora se eu ficar 3 semanas de baixa, a ideia de ficar em casa restringida a apenas 4 canais, é de dar em louca. Além disso, o mais provável é a minha sogra ainda querer vir cuidar de mim e depois, além de enfaixada das pernas, tenho-a a chatear-me a cabeça, panorama que não me agrada nem um pouco. Depois há a hipótese Caldas… que também me agrada, teria o colinho e a atenção da mãe e várias mordomias, mas há uns quantos ‘senões’: os meus pais ainda não se mudaram para a casa nova e duvido, pelo andar dos acontecimentos, que isso aconteça até à data marcada. Depois, ainda não escolhi a mobília do meu quarto, o que significa que não tenho cama e por último não tenho net em casa deles. Poderei sempre tentar pedir uma placa aqui no trabalho, mas não sei se haverá uma disponível para eu monopolizar durante 2 a 3 semanas...
Hoje quando falar com a minha mãe já sei que a mesma vai entrar em pânico, não será mais do que sinto actualmente. Tenho mês meio para me mentalizar e organizar. Vamos ver.

domingo, setembro 16, 2007

tonalidades



















Hoje, como o tempo me sobrou, decidi pegar nas coisas que há muito tempo se encontram esquecidas, fechadas, em caixas amontoadas e dar-lhes forma. Saiu outro colar, em tonalidades púrpuras para fazer parelha com as cores da próxima estação. Tem ligeiras diferenças dos habituais, como a fita em cetim a servir de fecho sob a forma de laçada. Está disponível e podem vê-lo aqui e adquiri-lo por mail: casinha_de_botoes@yahoo.com.
Gosto de ter tempo só para mim, como hoje. É estranho para uma filha única habituar-se a estar sempre acompanhada. Não sou eremita, mas os meus momentos de solidão são-me fundamentais. Necessários.
A semana passada foi dura emocionalmente. Numa consulta de ginecologia fiquei a saber que a minha ferida do cólo do útero ainda não cicatrizou. Depois de dois tratamentos de 'crio...qualquer coisa', que me doeram o suficiente para me fazer derramar várias lágrimas na marquesa, o veredicto final não é animador. Terei de fazer algo mais forte e eficaz. Confesso que a notícia me arrasou. A ginecologista passou-me a receita de um exame e mandou-me para a CUF Descobertas. Já não dependia dela disse-me, e eu saí do consultório com o peito apertado de dor e com a cara contorcida de esforço para não chorar. A meio da semana passei pelo hospital depois do trabalho para marcar o exame. Decidi que não valia a pena sentir-me triste, que acontece e que tenho de tratar de tudo e ficar boa quanto antes. Mas mesmo que eu me tentasse mentalizar repetidamente com este tipo de pensamentos, a data que queriam marcar para a consulta arrasou-me: 16 de Novembro! 'Novembro?' disse eu perante o ar impávido e sereno da recepcionista! 'Nem a meio de Setembro estamos e eu só vou poder fazer um exame daqui a 2 meses e meio, num hospital privado??' Os meus comentários devem ter sido de tal forma reactivos, que a rapariga achou por bem encaixar-me num 'extra', num dia em que aparentemente as marcações já estavam lotadas. Agradeci encarecidamente e até um pouco arrependida da minha atitude inconformada mas eficaz. De 16 de Novembro passei para 27 de Setembro, uma melhoria significativa, convenhamos.
Entretanto, o meu blogue sobre a Ictiose - que pouco vai sendo actualizado é certo - começou a dar os primeiros frutos. Recebi um mail de uma rapariga, que o viu e que decidiu entrar em contacto comigo. Trata-se da primeira pessoa portuguesa portadora da doença que me escreve. E o mais curioso de tudo, é que é de Oeiras, aqui tão pertinho. Tem 34 anos e possui Ictiose Lamelar, um tipo bem mais gravoso do que o meu. Apesar de ainda me sentir um pouco desconfortável a falar com alguém que me é perfeitamente desconhecido sobre algo que me é tão intímo, lá me fui libertando. É que não só me é estranho falar com ela sobre isto, como me é estranho falar sobre isto com alguém que também o tem e que fala a mesma língua que eu. Apesar de tudo não deixa de ser produtivo e benéfico, pois fiquei a saber que afinal existem mais 'ictiosos' portugueses do que alguma vez sonhei, pois ela conhece uns quantos. Não duvido que daqui a uns meses esteja a escrever um qualquer post sobre um hipotético encontro.
O 'Casinha' fez dois anos de vida ontem - dia 15 de Setembro - e ao contrário do ano passado eu nem assinalei a data... Sinceramente, em dois anos de existência deste blogue, ele mudou tanto quanto eu. Começou por ter uma finalidade: mostrar e vender as minhas criações e acabou por tornar-se uma espécie de diário virtual privado, onde me exponho demasiado. Tenho noção disso e confesso que só não o terminei de vez, quando estava decidida a fazê-lo, porque tenho um certo carinho por ele. Não me agrada que saibam tanto de mim, principalmente quando isso só serve para alimentar a curiosidade alheia de quem me conhece mas pouco me fala. Mas pronto, que se lixe.

A escrita é o meu alimento diário e o meu universo. Cada vez mais.

sexta-feira, setembro 14, 2007

vida 'tutti-frutti'


















Esta semana tive mais uma pega ‘daquelas’ com a minha chefe. Ultimamente começa a ser comum e eu não vislumbro nada de bom nesse sentido. Parece-me que já vi esta história algures e que estou a viver os mesmos acontecimentos. O que vale é que da mesma forma que começa, acaba, e eu faço questão de não me mostrar rancorosa. Digo o que tenho a dizer e pronto, saiu, já está dito, foi um ar que se me deu. Depois tento acalmar interiormente e seguir com o trabalho, falando com ela como se nada tivesse passado ou com um tom conspurcado na voz que demonstre algum tipo de amargura ou ressentimento. É o melhor. (acho eu). Ela faz igual. Geralmente no dia seguinte, ou até passado poucas horas sobre o incidente, acalma, fala-me bem, mostra-se preocupada em atender às minhas necessidades. Não sei se é estratégia ou simplesmente peso na consciencia, mas gosto. Aliás, deveria ser sempre assim, tudo fluíria muito melhor, em todos os sentidos. Infelizmente, acho que ela se esquece facilmente, porque o estado de ‘graça’ dura pouco. Também noto que ela tem tendência a tratar-me pior quando a minha outra colega de equipa não se encontra presente. Porquê? Não faço ideia, mas provavelmente deve sentir que comigo, pode demonstrar mais o seu poder de superior, uma espécie de insegurança disfarçada sob a forma de chefia, onde é necessário atormentar os mais fracos, os mais novos, ou os que estão na empresa há menos tempo para se sentir bem consigo própria. Tal como já disse anteriormente, já vi este filme e não acabou bem. O que vale é que aprendi a lidar com este tipo de pessoas, a adoptar outra postura, mas ando demasiado contida há demasiado tempo e de vez a minha ‘personalidade-nuclear’ rebenta e nem avisa, é logo ‘bum’. E destruo tudo à minha volta. Uma característica escorpiana é certo, mas radical in extremis.
Claro que tento ao máximo que isso não aconteça, mas dou por mim tipo bomba-relógio à espera de ser detonada. Felizmente tenho aprendido a controlar-me, muito em parte graças aos ensinamentos do ‘The Secret’. Pode parecer uma perfeita imbecilidade, mas se eu fizer um esforço para acreditar ou pôr em prática os ensinamentos do livro e do dvd, e se com isso conseguir andar mais bem disposta e feliz, então porque não? Uma amiga emprestou-me o dvd e a verdade é que já o vi umas 3 vezes. Numa delas o C. viu comigo. Ficou impressionadíssimo! Tanto, que decidimos comprar um placar de cortiça e encher com imagens de tudo aquilo que queremos atrair e ter na nossa vida. Ele não fez as coisas por menos. Foi ao Aki e trouxe o maior placar de cortiça que lá havia, uma espécie de ‘A3’, gigantesco. Quando o vi chegar com aquilo a casa fartei-me logo de praguejar! (arruinando por completo as boas energias que me restavam!) ‘Onde é que vamos pôr isto?, ‘Não havia nada mais pequeno?’, ‘Para que é que precisas de um placar tão grande? Metade disso chegava!’ Resposta dele, depois de resmunguices de parte a parte: ‘Eu quero muitas coisas!’ Ok, acho que com este argumento ele arruinou os meus. É esta a diferença entre nós. Ele pensa em grande, eu limito-me a pedir o básico. Espírito pequenino? Talvez, mas eu não necessito de ter o Ferrari Vermelho na garagem ou a aparelhagem da Bang & Olufsen para me sentir realizada, mas a publicação de um livrito enchia-me as medidas, confesso!
Talvez para seguir este meu ‘pseudo-sonho/desejo’, hoje tenha enviado para outra editora a sinopse de uma obra que escrevi.
Agora é aguardar que o universo me dê aquilo que eu peço. Senão mando todas estas teorias à fava.
Tirando estas experiências que ocorreram durante a semana, ontem quando cheguei a casa, tinha literalmente, uma montanha de coisas à porta. Tanto, que foi necessário fazer uma espécie de salto em altura para conseguir entrar, perante a curiosidade felina que me olhava meio ensonada. Os meus sogros desta vez excederam-se e trouxeram quase a quinta atrás, mas deixaram-me coisas que eu adoro, como 'fisalis' (as bolinhas alaranjadas da imagem que possuem um sabor que alterna entre o ácido e o agridoce), figos moscatel e maracujás. A verdade é que já há algum tempo que não passavam por aqui e deixaram um carregamento de comida que durará para os próximos meses... Acho que daqui a nada faço outra mouse :)
Ontem ainda decidi ir jantar com o pessoal do costume à Bica. O G. tinha acabado de chegar de Madrid e como já sendo hábito, os amigos juntam-se numa espécie de 'comité de boas vindas' para o receber. Combinámos no largo de Camões às 21h00 e depois seguiríamos caminho para o 'Toma Lá Dá Cá', o restaurante combinado. Chegámos ao largo passava das 21h30, porque neste grupo a pontualidade é coisa que não consta nos dicionários da maior parte das pessoas e como já sei o que a casa gasta, decidi sair apenas à hora marcada (21h00, portanto) e ainda deixar o carro estacionado no Cais do Sodré e ir a pé. Pelo caminho encontrei-me com o R. e a H. e juntos subimos a rua do Alecrim até ao Chiado, onde para nosso espanto, já havia quem estivesse à nossa espera. Ninguém se chateou, aliás, tudo riu! O 'Toma lá...' estava a abarrotar de gente, por isso decidimos ir até à rua da Luz Soriano, já a caminho do bairro, jantar num restaurante que agora não me lembro do nome, mas que nós volta e meia fazemos lá jantaradas. Tínhamos mesa disponível, acabámos por ficar. Com tudo isto já passava das dez horas e nós sem jantar. Por ali ficámos até à meia noite. Eu comi bacalhau à lagareiro que estava péssimo e bebi um copo de vinho verde 'muralhas' que me deixou logo toda alegre (sou tão fraquinha com a bebida que até faz confusão!) Dali seguimos para o Bicaense, que ainda se encontrava a meio gás. Como o jantar me caiu mal decidi beber um ginger ale e esperar que as tonturas me passassem. A noite estava agradável e estáva-se bem na rua. À chegada encontrámos família da R., nomeadamente uns tios e uns primos, de alegre copo na mão também no Bicaense. A última vez que os vi foi no casamento dela, onde o mesmo tio que agora tinha à minha frente, divertido e sóbrio, me fazia andar uns meses para trás e recordar o strip e a descomunal bebedeira com que nos brindou nesse dia...
A ideia era ficarmos pela Bica até à uma da manhã, hora em que a padaria do bairro abriria e nós - umas verdadeiras lambonas - decidiríamos ir até lá, subindo toda a rua da Rosa a salivar por um Croissant de chocolate ou uma bola de Berlim. Decidimos ficar mais um pouco e esperar que o C. saísse do trabalho e viesse ter connosco. Chegou perto das duas da manhã, altura em que eu e as meninas do grupo dávamos um pézinho de dança ao mais puro estilo Mowtown. Ainda fomos aos bolos, mas continuava com o estômago tão embrulhado que nem comi nada, por esta altura começava a ficar cansada e cheia de sono. Passava das 3h30 da manhã quando caí à cama e adormeci em segundos.
Acordei hoje, com um barulho forte e seco de algo a cair... era o quadro do Van Gogh, aquele que trouxemos de Amesterdão nas nossas últimas férias (nem há um mês) e cuja moldura comprámos no Ikea... o Gaspar fez questão de o mandar ao chão e parti-lo. Em menos de uma semana é a terceira coisa que parte/estraga, se contarmos com o facto de me ter roído - literalmente - uma cesta da Area que tinha na sala e onde guardava as minhas lãs, rasgado a cholcha da cama em três sítios onde agora existem 3 enormes buracos e de ter mandado o quadro ao chão, partindo-o...

Será que o 'The Secret' tem fórmula para lidar com animais loucos e completamente disfuncionais? É porque se tem, eu preciso!

quinta-feira, setembro 13, 2007

a casa da minha avó


















A casa da minha avó sempre foi o ponto de centralidade de toda a família. Desde que ela morreu, há onze anos, que continua ali, intacta mas frágil, como um marco de tempos idos, que nos habituámos a ter por perto. Antigamente, em Setembro – mês por excelência de encontro e reunião familiar – que a pequena casa onde a minha mãe nasceu e onde os seus cinco irmãos foram criados, se enchia de gente, filhos, netos, primos, genros, cunhados e cunhadas, tornando-se demasiado apertada e pequena para uma família demasiado grande.
Quando entramos, somos invadidos pelo cheiro a mofo, pelos tectos baixos, pelo quarto interior, sem luz e com o velho candeeiro a petróleo sob a mesa de cabeceira, pelo chão que range a cada passo, pelas fotos, muitas fotos, que permanecem nas mesmas prateleiras, pontos acumuladores de pó ancestral que deixam vislumbrar embaciadas imagens nossas, de infância vivida. Sempre gostei de entrar na casa da avó e ficar ali, a olhar para um enorme quadro de talha dourada cheio de fotos a preto e branco, onde via caras conhecidas, casamentos de tios que não presenciei, de bebés que já só conheci adultos. Depois perguntava: ‘Quem é este senhor mãe?’ ‘Era um tio de Sintra’, respondia-me ela, e eu ficava ali, a digerir a surpresa de tamanha novidade, incrédula por só agora saber que os laços familiares tinham chegado às imediações de Lisboa. Habituei-me desde muito nova a ter a presença da família mais directa e chegada por perto. Apesar de filha única, este convívio familiar foi importante para a minha formação. As minhas primas eram as minhas companheiras inseparáveis, talvez isso explique o facto de, hoje em dia, ser madrinha da filha de uma delas.
Quando éramos miúdas e em Domingo de festa, a avó sentáva-nos na mesa redonda da entrada para almoçarmos juntas o tradicional cozido à portuguesa e ali ficávamos, em grande algazarra, enquanto os adultos comiam na mesa rectangular da cozinha com o tampo forrado a plástico, onde se sentavam umas quinze pessoas. A casa era pequena, mas transbordava de amor. Não importava mais nada, havia calor, comida e alegria e isso enchia as nossas pequenas almas.
A avó era devota. Muito. Por isso, em dia de procissão e Domingo de missa, a toalha de crochêt branco e imaculado que se colocava sob o altar da igreja, era dela. Ainda hoje lá permanece como sinal da sua presença e dedicação. Depois seguia-se a procissão, onde na sala da eucaristia da igreja, nos vestíamos de branco com asas de anjo e nos sentíamos vaidosas pela indumentária. Ainda hoje gosto de rever as fotos desses tempos. Tenho uma favorita, aquela em que estamos as quatro primas, pequenas e vestidas de branco, encostadas a um velho Ford em frente à garagem da minha tia Madalena.
A porta da sua casa estava sempre aberta adornada pela velha árvore de flores lilazes que lhe embeleza o rosto e lhe dá um ar romântico. Não havia nada que despertasse o interesse alheio para roubar o que quer que seja. Era casa de gente pobre, cujos maiores tesouros eram as imagens de santos no quarto e o fio de ouro que lhe acompanhava o decote com a imagem de Jesus crucificado. A cortina branca esvoaçante, a chave do lado de fora, eram sinais de presença. Entráva-se por aí adentro e gritáva-se ‘ó da casa’, sem medos nem vergonhas, habituádos que estamos àquela sensação de pertença.
Em dias de festa como agora, em que a avó já lá não está, em que as primas estão crescidas, casadas, com filhos, em que os tios que nos habituámos a ter desde sempre se separaram, seguiram outras vidas, outros rumos, a porta da velhinha casa continua a estar aberta, com a mesma cortina branca esvoaçante, invocando os momentos de outros tempos.
A diferença é que já lá ninguém entra.

terça-feira, setembro 11, 2007

raizes



















Aqui, regresso às origens do mais puro do meu ser. Rodeada pela família, em redor da mesa farta, das gargalhadas sonoras, da piada fácil e do burburinho das conversas, do estalar ruidoso dos foguetes que ecoam por todo o arraial, das luzes coloridas que enfeitam os arcos de murta, pela brisa fria que sempre corre nas primeiras noites de Setembro. Aqui, onde a minha mãe nasceu, naquela casa velha cujo tempo parece não passar, cuja estrutura incerta ainda assenta sólida sobre uma parede caiada de branco. Aqui, onde revejo as gentes e os velhos que me viram menina e agora me vêem casada. Aqui, onde comer pevides e tremoços sentada na barraca dos festeiros, entre copos e farturas, ainda tem o mesmo sabor quente e confortante de outros tempos. Aqui, onde a procissão continua a ser a meio da tarde de Domingo e a fazer parar o trânsito. Aqui, onde a família, apesar de cada vez mais dispersa e cada vez menos, continua a querer marcar presença. Aqui, onde as mantas se colocam à janela para deixar passar nossa Senhora da Ajuda e se reza de terço na mão. Aqui, onde tantas vezes vesti os mesmos fatos brancos e coloquei as asas de anjo que me faziam sorrir. Aqui, onde agora me encontro e onde olho para trás, agradecendo por ter tamanhas memórias.
Voltar à terra é, hoje em dia, um misto de sentimentos. Mas sabe sempre bem voltar, mesmo quando aqueles que sempre nos habituámos a ver, já lá não estejam.
Mais aqui.

sexta-feira, setembro 07, 2007

Rosa Brava



Ontem, sentada no sofá da sala, cuja estrutura velha e gasta já acusa o peso do corpo, de comando na mão e pés em cima da pequena mesa de wengé de formato rectangular, fazia zapping por aborrecimento perante o marasmo televisivo. Foi quando a vi, a ela, de feição rosadas pelo vento gelado da serra, de sorriso maroto e puro, de uma ingenuidade infantil quase imprópria para uma menina de 16 anos. Era a Rosa. A pastora que foi dada a conhecer ao país em Janeiro deste ano e que imediatamente tocou no fundo dos nossos corações. A Rosa queria ir à escola, mas vivia presa a uma serra que tinha tanto de belo quanto de solidão. A Rosa aspirava pelo mundo, o mesmo que lhe chegava em retalhos e que ela insistia em colar para não lhe perder o rasto. E era vê-la em cima do alto do palheiro, de telemóvel em punho, buscando uma rede que nunca lhe trazia respostas, nem chamadas, mas que apenas a fazia suspirar, de sorriso - sempre o sorriso - que alguém se lembrasse dela. Na vastidão das serras a perder de vista, Rosa, de corpo desenvolto, jeans e blusão de ganga pela cintura, parecia uma adolescente como qualquer outra, de vida fácil e despreocupada, que encontra nos Morangos com Açúcar a fantasia da vida que não tem. A realidade de Rosa é outra. Do cimo da serra e rodeada pelas cabras e ovelhas, Rosa olha a beleza em redor com um sentimento de clausura, quase indiferente. Anseia pela liberdade que se esconde além, atrás dos montes e vales que a prendem e aprisionam. Em Gouveia é que está a liberdade e os rapazes que Rosa tanto deseja. Casar é um sonho e aprender uma vontade. Profunda.
A mãe de Rosa, de lenço na cabeça e rosto enrugado pelo tempo, mostra no discurso a dureza da vida que sempre viveu. ‘A Rosa é precisa. A Rosa daqui não sai.’ E Rosa ri-se, resignada com a sua sorte, escondida atrás da porta. Nem as técnicas da segurança social lhe tiram o sorriso do rosto, nem quando ouve a sua mãe dizer alto e bom som, ‘ela que se desemerde’. A Rosa tem apenas 16 anos. A Rosa sonha, diáriamente, do alto da serra, rodeada por orvalhos matinais, neblinas geladas e terrenos acidentados. A Rosa tem apenas 16 anos e passou a ser a minha heroína.
Esta reportagem maravilhosa de Pedro Coelho merece ser revista e revista e revista. Eu emociono-me sempre e já a vi três vezes. A Rosa é brava, como no poema de Ary dos Santos, mas aquela vivência, aquela realidade, eu encontro-a nos livros de Miguel Torga. A Rosa entra nos Contos da Montanha. Eu já a conhecia.

quinta-feira, setembro 06, 2007

repentinos desejos


Hoje, assolapada por um intenso e repentino desejo consumista – como muitas vezes me sucede – decido enfiar-me, na minha hora de almoço, na HM do Vasco da Gama. Isto porque, a festa na aldeia da minha mãe é já este fim-de-semana e eu, que tenho esta educação algo provinciana de ‘estrear roupa nova em dias alumiados’, que me foi incutida pela minha mãe, achei que não se perdia nada ir ver o que há de novo nas lojas e dar asas ao desejo, apesar de ter o armário lá de casa cheio de roupa de todas as cores, modelos e feitios.
Vejo duas blusinhas que me despertam a atenção, vou experimentá-las aos provadores, agradam-me vestidas e pronto, está decidido: ‘É isto! Eureca!’ Agarro-as de seguida com ar vitorioso e dirijo-me para a caixa antes que a consciência acorde e me volte a chamar à razão. Até aqui tudo bem, a rapariga da caixa, atenciosa, diz-me o total e eu saco do cartão multibanco que menos uso e onde vou amealhando alguns trocos. (já que ia cometer um devaneio, ao menos que não me pese no orçamento mensal. Devaneios destes são permitidos, ainda que só de vez em quando.)
O problema foi lembrar-me do código. É que como cartão de ‘poupança pessoal’ que é, e que raramente utilizo, o código esvaneceu-se da memória, ocupada que está com tantos outros códigos (o pin do telemóvel pessoal, o pin do telemóvel do trabalho, o código dos outros cartões multibanco, o código da porta do prédio, o código para aceder à página do banco pela internet, as passwords do computador, and so on…) Resultado? Marquei os números, invertendo a ordem dos mesmos, convencida que estava que ‘agora é que é’ e nada. Sempre erro. Ao fim de três tentativas fiquei com o cartão bloqueado. Como fico sempre muito envergonhada com estas situações, porque já não é a primeira vez que me esqueço do dito código, saco logo de outro cartão, não vá a menina da loja e todas as pessoas que estavam atrás de mim, pensar que das duas uma: ou gamei o cartão a alguém, ou estou sem dinheiro na conta.
E pronto, agora que estou com o cartão definitivamente bloqueado só me resta ir ao banco e pedir novo código – que terei novamente de fixar para mal dos meus pecados.
É o que faz ter impulsos consumistas repentinos. Não só nos arruinam a carteira, como ainda mostram que a nossa memória se recusa a compactuar com eles.

quarta-feira, setembro 05, 2007

no peito dos desafinados também bate um coração



















Eu nem tenho andado triste. Mas hoje, assim de repente, fui invadida pelos sons da Melancolia, que abriu as portas e se instalou bem no meio do peito. Provocou-me um aperto profundo, a Angústia, sua prima, veio atrás. A Melancolia é minha amiga, mas às vezes, só às vezes, consegue ser uma amiga ingrata, daquelas que magoam. Profundamente.
Hoje, a Melancolia apareceu sem avisar, e eu não gosto de visitas surpresas. Chegou e acomodou-se, como se o meu peito fosse a sua casa e o meu coração o seu sofá. Reclamou a si os meus pensamentos, bebeu as minhas lágrimas para matar a sede e deixou-se ficar, exausta, a dormitar no meu ombro. Não gosto de sentimentos abusados, que entram sem pedir licença, que reclamam para si aquilo que eu quero manter. A Melancolia hoje foi Ingrata. Outra amiga com a qual faz parelha.
Tenho demasiados sentimentos no meu peito e um sofá demasiado pequeno para os receber.

segunda-feira, setembro 03, 2007

summertime


















Foi um fds de convívio intenso. Começou logo na sexta-feira, com o R. e a H. a virem ter a nossa casa para um pequeno tête-a-tete, quando já passava da meia-noite, hora em que a H. saiu do trabalho. Apesar de tarde, não me importei. Tinha o dia seguinte para dormir e apetecia-me conviver, além disso, como estava em casa e não tinha de sair do ninho, melhor ainda. Decidida a receber bem os meus convivas, meti mãos à obra e preparei um bolinho de iogurte quentinho e delicioso, além de uma mousse de maracujá. A minha sogra enviou-me uma série de maracujás que eu decidi aproveitar para uma receita que saquei da net. Ficou deliciosa e ‘voou’ nessa mesma noite numa questão de horas! Tenho de repetir.
No sábado, acordámos tarde! Há já muito tempo que não dormia até à uma!! Foi um tirar a barriga de misérias! Depois, como o tempo estava bom e pedia praia, decidimos ir ter com amigos à Costa, os mesmos que tinham estado na nossa casa na noite anterior. O pior foi mesmo chegar lá! O trânsito infernal que se fazia sentir, fez-nos demorar duas horas para chegar à praia do Rei. Chateados e aborrecidos com a proeza caótica que foi chegar ao destino, gozámos a praia apenas por uma breve hora e meia. Às seis e meia tínhamos de regressar a Lisboa, porque tínhamos um jantar combinado em Caneças, em casa de outros amigos. Mais hora e meia dentro do carro para chegar a casa, tomar um duche rápido, mudar de roupa e em menos de meia hora, estávamos novamente de saída.
O jantar em casa da M. e do P. foi calmo e relaxado. Pude matar saudades da minha ‘Cabecinha’ e finalmente oferecer-lhe, as recordações que trouxe para ela de Amesterdão: uns bombons de café numa caixa vintage e um chá ‘Earl Grey holandês’, porque sei que ela gosta! Chegámos a casa passava da uma da manhã e ainda vegetámos um pouco a ver televisão. No Domingo, novo dia, nova manhã a dormir e ala para a praia assim que acordámos. Novamente para a praia do Rei, na Costa, com os amigos, mas desta vez fomos mais cedo que no dia anterior e não apanhámos trânsito. Estava bom tempo, mas havia uma brisa fria que no dia anterior não se fez notar. No bar Hula-Hula, havia churrasco gratuíto, à noite, como ‘fecho do Verão’ e ficámos todos para jantar. Só no nosso grupo, éramos cerca de 10 pessoas, todos esfomeados! Febras, entremeadas, salada, arroz, massa com frango, o repasto foi vasto, mas desapareceu numa questão de segundos. Regressámos a casa passavam das nove e meia da noite, de barriga e alma cheia. Pudemos assistir a um pôr-do-sol fantástico e o dia teve sabor a férias. Hoje não apetecia nada vir trabalhar, mas teve de ser. O trânsito em Lisboa ainda não está caótico, o que me faz suspeitar que continua a haver imensa gente de férias.
O C. também regressou hoje ao trabalho, apesar de continuar com o dedo ligado. A ferida está a cicatrizar bem, mas dá a sensação de que necessita de mais uns dias antes de se retirar os pontos. Hoje, aqui na agência, muita gente regressou de férias. Vêm todos bronzeados e bem dispostos. Dou-lhes dois dias antes de começarem a praguejar com tudo e com todos, até porque a semana vai ser de muito trabalho.
Eu ganhei uma ‘corzinha’, pouca, mas o suficiente para hoje me sentir com outro astral.

E assim começa a semana.