domingo, janeiro 27, 2008

adeus

A minha máquina digital continua morta e eu continuo com uma gripe 'daquelas', com o corpo dorido, a gargante cheia de dores, entupida em comprimidos... enfim, uma lástima. Passei o fds todo de 'molho', em casa, pois a saída de sexta-feira à noite para comemorar os anos do R. deixou-me assim, péssima! Foi giro, diverti-me muito, ri-me mais ainda, comi maravilhosamente bem num restaurante alentejano, desfrutei do novíssimo e fashion bar 'Manga Rosa' em Almada, mas ia mal agasalhada, e esqueci-me que estamos em Janeiro e que mesmo que os dias já cheirem a Primavera, as noites são frias e estamos no Inverno. Resultado? uma mega gripe, que me parece ainda não ter passado ao segundo e pior grau.
Ainda não tinha contado aqui a continuidade da história Diane. Não percebo o que se passou com ela e fico extremamente triste por ver que este silêncio dela é propositado. A semana passada apanhei-a ligada no messenger. Depois de lhe ter enviado 3 emails a perguntar se estava tudo bem e de não obter uma única resposta, decidi enviar-lhe um sms para o telefone. O silêncio continuou a ser sepulcral e eu fiquei ainda mais baralhada com a atitude dela. Decidi então bloqueá-la no messenger e ver se desta forma, aparecendo eu offline na lista de contactos dela, ela se manteria ligada. E para meu espanto, assim foi. Enquanto que antes a Diane aparecia e rapidamente se colocava offline, a partir do momento em que eu a bloqueei e aparecia como desligada, ela passava horas na net. Tive aí a prova de que ela não queria mesmo falar comigo. De qualquer forma decidi confrontá-la com o assunto e num desses dias, em que ela estava online na net e eu a vê-la, desbloqueei-a e meti conversa com ela. Falei, falei, falei, perguntei se estava tudo bem, porque motivo é que ela não falava comigo, o que eu é que tinha feito para ela me evitar daquela maneira? porque é que ela estava a agir assim? E ela nada. Nem uma única vez me respondeu. E agora pergunto-me eu, porquê? se nem eu sei a resposta!!! A última vez que falámos estava tudo bem! lembro-me perfeitamente! Cheguei mesmo a pensar se algo de mau lhe teria acontecido, a pensar se teria perdido o bebé, se estava num momento de reclusão em que não queria falar com ninguém, mas quando vi a foto dela no msg, percebi que não era esse o motivo, pois a barriga dela estava enorme, o que me faz imaginar que estará no 6º ou 7º mês de gestação.
Perante o silêncio dela, decidi despedir-me. Não vou andar atrás de uma pessoa que se fez passar por amiga, mas que afinal se revelou uma desilusão, principalmente quando deixa de me falar sem me dar uma justificação. Porra, eu recebia-a em minha casa! Andei a passeá-la por Lisboa durante dois dias, pagámos-lhe jantares, entrou no meu espaço mais privado e agora, só porque conseguiu engravidar, deixa de me falar? Sinto-me profundamente magoada. A sério que fico. Até porque, o comportamento 'incómodo' em relação a esse assunto, partiu sempre dela, nunca de mim! Quantas vezes lhe disse que estava feliz por ela e que queria saber mais coisas da gravidez dela, viver com ela esse momento?! Mas afinal constato que as minhas suspeitas estavam certas, que ela apenas se socorreu da minha pessoa enquanto isso não acontecia, que eu fui apenas e só uma amizade de 'encosta o ombro e chora as tuas mágoas' enquanto ela passava pelos tratamentos e lidava com as respostas negativas, porque a partir do momento em que isso deixou de acontecer, ela desprezou-me, como o faz e como continua a fazer. E isso, magoou-me profundamente. Por isso, nas mensagens que lhe deixei no msg aproveitei para me despedir e desejar boa sorte, para ela, para o Tom e para a bebé que vem a caminho e que eu nem sei quando é suposto nascer.
Dizem que perdoar e querer bem ao próximo, é a maior prova de maturidade e de crescimento pessoal enquanto ser humano. Eu não desejo mal à Diane, mas sinto-me profundamente magoada e triste. Porque sei que se fosse ao contrário, nunca lhe faria algo semelhante. Nunca deixaria de lhe falar sem um motivo, sem lhe dar uma simples explicação. Esse tipo de coisas é o pior que me podem fazer, mas volta e meia, acontece-me. Confesso que tento relativizar as coisas e pensar que a entrada da Diane na minha vida teve um propósito - tento desesperadamente encontrar uma explicação mais racional - de que a presença dela serviu para que eu própria encontrasse o meu caminho, seguisse o meu rumo, e isso já aconteceu. Ela seguiu o dela, eu sigo o meu, separadas, a muitos quilómetros de distância. Com a interrogação a perseguir-me de se ela alguma vez foi realmente minha amiga...

sábado, janeiro 26, 2008

perda

A minha máquina digital morreu. Assim, sem pré-aviso, e sem chegar a ter, sequer, dois anos de idade. Ontem, quando me preparava para fotografar momentos felizes, entre amigos, deparei-me com um ecrã negro - mesmo quando ligada - queera trespassado a meio com um traço, cuja continuidade se traduzia em riscas e cores tutti-fruti que não auguravam nada de bom.
Sinto-me perdida sem a minha máquina fotográfica. É como se me tivessem levado parte de mim.

domingo, janeiro 20, 2008

retalhos de um fds e dos idos anos 90...

Outro fds que passou demasiado rápido... principalmente quando sexta-feira estive a trabalhar até às 22h30, num evento da marca. Cheguei a casa estafadíssima, com o polegar cortado e enrolado num penso já empapado em sangue, e os pés inchados e em forma de 'batata' - por causa dos sapatos de salto que me complementavam a indumentária - desejosa por um fds que tardava em chegar. O C. teve a delicadeza de encomendar uma pizza para eu ter o que comer quando chegasse a casa, mas confesso que vinha tão cansada e desejosa pela minha cama, que até o apetite perdi. Esparramei-me no sofá, bufando de cansaço e apregoando a minha sorte, aspirando por um descanso merecido que tardava em chegar, ou uma vida idílica de paz e sossego que não possuo. Começava o meu desejado descanso de dois dias.
Dois dias em que não tenho de conviver com as pessoas com quem trabalho, em que não tenho de aturar neuras, nóias, fobias, faltas de formação, ou sequer, ser simpática ou educada com quem não o merece. Dois dias em que abrando o ritmo e me deixo invadir pelo doce sabor da preguiça e da letargia. (como ando necessitada de férias, é só o que eu penso...)
No sábado decidimos aproveitar o sol quase primaveril que se fazia sentir e ir até à beira-rio. Adoramos comprar o jornal e ficar numa esplanada a beber o primeiro café do dia, comendo tostas mistas e sumos de laranja. É um ritual que nos dá imenso prazer.Vagueámos por Lisboa, entretidos entre coisas que tínhamos para fazer até à hora do jantar, altura em que decidimos experimentar o New Wok no Chiado. Um espaço de cozinha de fusão, com apontamentos de comida japonesa, tailandesa e vietnamita, num espaço minimalista mas confortável, ao som de Moby (pelo menos foi o que tocou enquanto lá estivemos). Há quem o compare com o Nood, mas eu, muito sinceramente, acho que não tem comparação possível. O Nood é barulhento, demasiado amplo, demasiado exposto, sentamo-nos no meio de outras pessoas com uma sensação de desconforto, de 'desculpe por estar a incomodá-lo', só queremos é sair dali, comer o mais rápido possível e desaparecer daquele ruído de fundo que transporta dezenas de conversas, de risos, de música, ou desviar o olhar das paredes de cimento e dos ténis expostos. Ansiamos por paz visual e auditiva e isso, eu acho que conseguimos no 'New Wok'. Um ambiente sereno, mais pequeno e acolhedor, uma montra que nos mostra a rua cálida àquela hora da noite, a beleza do Chiado escondida por entre prédios abandonados. Os raviolis ou (gyoza) são excelentes - atrevo-me a dizer que melhores mesmo que os do Assuka - com uma massa super tenra e fofa e as espetadas de camarão com molho de mel também não ficaram atrás. Experimentámos ainda os noodles e o chá verde. Foi bom, foi rápido, voltaremos certamente.
A melhor experiência do dia, foi sem dúvida, nas compras - aproveitando ainda o resto da temporada de saldos enquanto ela dura - onde, numa loja, quando ia pagar uma mala que decidi comprar, a vendedora - uma miúda nos seus 'quase vintes', muito gira, alta, magra como uma gazela e de longos cabelos escuros - me diz em tom extasiado: 'Ai a sua carteira é tão gira! Eu queria uma igual mas já não consegui comprar! E que bem estimada está!' Ao vê-la tão efusiva, decidi meter conversa, sorrir-lhe e desabafar uma insegurança feminina, dando a entender que adorava a mala que ia comprar, mas que tinha receio quanto à cor, pois não tinha muita roupa que condizesse com a dita. Ela sorriu-me, tranquilizou-me - dizendo que ia comprar uma também para si - e falou dos avanços de temporada que tinham acabado de chegar à loja. 'Este ano é tudo grande, demasiado grande, até os anéis. Eu não sou capaz de andar com uma coisa destas.' E, dito isto, sacou de um enorme anel azul marinho que estava num expositor e colocou-o em cima do balcão. Ao ver aquele objecto saltou-me imediatamente à memória a minha juventude, em que usei anéis exactamente como aquele, que agora via em cima do balcão. Aquele anel não me era estranho, tive um assim, em transparente, outro de cores, havia-os para todos os gostos, formas e tamanhos. Lembro-me de ter um em forma de laço. Sorri-lhe, aproveitando aquela cumplicidade feminina - enquanto o C. permanecia calado, a observar toda aquela cena de histerismo feminino perante acessórios, que o deixa sempre severamente intrigado - e desabafei: 'Estes aneís já foram grande moda nos anos noventa! Houve uma altura em que toda a gente tinha pelo menos um. Havia destes anéis em todas as cores e assim, igualmente grandes.' Pronto, com este meu comentário, estraguei tudo. A rapariga, outrora tão simpática, tão prestável, tão sorridente, fechou-se. Olhou-me de uma forma estranha e apenas emitiu um: 'Ai foi?' Como se os 'anos 90' fossem uma coisa que aconteceu há muito tempo, há muitos anos, era ela ainda uma criança...
E com este comentário, paguei a mala e fui embora, enquanto ela arrumava o grande anel de acrílico azul, dizendo, 'Sabe como é, este mundo da moda é sempre um revivalismo' e o C. me dizia:'Bela maneira de te chamar velha'.
Não me ofendeu nadinha, antes pelo contrário, achei piada dizer com um saber de experiência feito, sem ser ofensivo ou provocador, dar uma de 'guru' da moda que já viu muita coisa.
Afinal, dez anos, são uma vida. (para muitos)

quinta-feira, janeiro 17, 2008

conto VII

Ele dera-lhe o canivete para a mão como quem entrega um brinquedo. ‘Toma, é para ti’ - dissera-lhe - e ela contemplou aquele objecto metálico, pequeno e aguçado com espanto e ignorância. Não sabia muito bem o que aquilo significava nem o que fazer com ele. Chegou mesmo a sentir-se indignada, como se fosse um despropósito tal oferta. ‘O que faço com um canivete?’, pensou para com os seus botões. O pai, que estava ao seu lado e tinha presenciado a cena, explicara-lhe que era um canivete ‘suíço’, enfatizando esta última parte, como se tal informação fosse uma mais valia, como se isso contribuísse para aumentar a importância da oferta e da atenção que era suposto ela lhe dar.
Guardou-o, fechando-o na palma da mão pequena, remetendo-o para o fundo do bolso do casaco, cheia de dúvidas e indagações sem resposta. Sorriu para não parecer tão incomodada com a situação, ou ingrata. Receber um canivete ia contra tudo o que lhe tinham ensinado, ‘Não se brinca com instrumentos cortantes’, ‘Não mexas em facas’, ‘Não passes os dedos pelas lâminas’, ‘Olha que te cortas e faz sangue’ e por isso, todos aqueles cenários, embora imaginários, lhe pareciam demasiado horríficos, demasiado perigosos, demasiado tentadores para serem sequer, desafiados. E agora, assim do nada, ser ele a dar-lhe um canivete, que ainda para mais tinha, não só uma, mas várias lâminas, algumas finas, aguçadas como escarpas, outra em forma de espiral que ela desconhecia para o que servia, uma tesoura, uma lima e um abre-caricas, deixou-a severamente intrigada. Para que servia tudo isso se, supostamente, lhe era proibido brincar com ele? Não compreendia como o poderia incluir nos seus cozinhados fictícios com tachinhos de plástico e panelas de alumínio, que transportavam inofensivamente, pedras, terra, água e até, legumes e vegetais que ela sorrapiava à socapa da cozinha da mãe, como preciosidades únicas para preparados que roçavam a genialidade. No entanto, o pai nada dissera e até, consentira o gesto, partilhando uma cumplicidade que se espera óbvia, mas que ela não conseguia perceber na sua totalidade. Pensou por breves momentos, se seria um daqueles rituais de iniciação que ela já tinha lido no Atlas lá de casa e que sabia existirem em algumas tribos do Pacífico e da África Equatorial. Estaria ela preparada para semelhante prova? Qual seria a próxima etapa? E porquê um canivete? Porquê? Quando na realidade ela preferia que ele lhe tivesse oferecido uma boneca, onde ela pudesse fazer longos e prolongados penteados, ou até, um relógio de pulso e a pilhas, daqueles como tinha visto recentemente na irmã da Paula, que emitiam sons estridentes e que ela punha propositadamente a tocar deixando-a lívida de inveja. Mas um canivete? Para que lhe servia um canivete? Se ainda tivesse nascido rapaz, talvez achasse alguma graça à oferta, conseguindo imaginar as demonstrações audazes de poder que um canivete – ainda para mais suíço – conferia, mas assim, menina, coquete e semi-feminina, não conseguia entender o motivo.
Do bolso do casaco, colocou o canivete na gaveta da sapateira da entrada, um móvel de mogno escuro, pesado, maciço, que tinha como função ser o fiel depositário de tudo aquilo que, à primeira vista, não fosse substancialmente importante. Achou que seria o lugar mais adequado a um objecto que, no seu entender, não podia augurar coisa boa. Mesmo que tivesse o consentimento e a aprovação do pai, ela não queria tê-lo por perto, nem incluí-lo nas suas brincadeiras, mesmo quando andava que nem um cavalo bravo pelos bosques durante horas a fio. Colocou-o ali e esqueceu-se dele. Não perdeu mais tempo a pensar no assunto. Não queria entender o porquê de um canivete - embora no fundo se questionasse - mas por agora, naquele instante, só lhe apetecia abandoná-lo, livrar-se do perigo que ele lhe transmitia, das lâminas cortantes e duplas, do medo que sentia ao sabê-lo ali, tão perto da carne. O canivete ficou esquecido, refundido na gaveta do móvel da entrada que continuava impenetrável à passagem do tempo, ao ritmo das horas e das emoções que abalavam e percorriam a casa, desamparado entre os demais objectos igualmente inúteis e dispensáveis às necessidades vigentes. Passaram-se dias, meses e anos, que trouxeram consigo as mudanças físicas próprias da idade, mas também da evolução natural das coisas. Tinha chegado a hora de partir para algo melhor, de abandonar aquele lar que durante anos a acolhera, sendo necessário todo o trabalho de empacotar, seleccionar, escolher, arrumar, levar, fechar. Por entre o pó dos livros que retirava das estantes, ou da roupa que se acumulava em quantidades dignas de loja em época de saldos em cima da cama, lembrou-se do móvel da entrada, da tralha e bugigangas que durante anos ali colocara como um eterno guardião do templo. Apetecia-lhe vê-las, mexê-las, recordá-las, torná-las visíveis aos olhos e claras à mente. Correu a abrir a velha gaveta que se encontrava agora emperrada, dificultando a tarefa de chegar ao objectivo pretendido. Foi então que o viu, ao canivete, esquecido e embrulhado entre fios que passaram de moda, lenços com desenhos de cavalos que a mãe nunca mais se atreveu a pôr ao pescoço, ou porta-chaves enferrujados que jaziam como um espólio adormecido. Foi então que percebeu no mais intímo do seu ser e sorriu, dizendo baixinho, ‘Obrigado avô’.

terça-feira, janeiro 15, 2008

love is a losing game

Não tenho actualizado o meu blogue com muita frequência, porque na realidade, ando sem vontade de o fazer. Às vezes tenho destes momentos. Em que prefiro guardar para mim tudo aquilo que me preocupa do que colocá-las aqui, como se o simples facto de as mencionar fosse uma espécie de infortúnio que pode desencadear a maior reacção de azar em cadeia. Como se o simples facto de partilhá-las com terceiros as tornasse vulneráveis. Como já referi o início do ano começou logo cheio de novidades, com a ida ao centro de genética clínica para nova recolha de sangue/extracção de ADN. Pagámos bastante por um simples frasquinho de sangue. Nele vão parte das nossas magras economias e grande parte das minhas esperanças. Deposito nele todas as frustrações, mágoas, tristezas, renovações de esperanças, confianças e alegrias pelo qual lutei neste último ano, mas que sei serem tão vãs e pouco palpáveis, quanto os sonhos e objectivos que idealizo. Mesmo havendo uma pontinha do meu peito, lá num cantinho refundido, que me diz que tudo vai correr bem, percorre-me um medo terrível, maior que eu mesma, de que afinal, tudo corra mal outra vez e de já não ter muitas forças para me voltar a erguer ou sequer, acreditar. Toda a gente me diz que não vale a pena sofer por antecipação mas eu não consigo fazer esse exercício de personalidade. Bem tento, mas sofro mais em ‘tentar não ser assim’, do que efectivamente, em sê-lo.
Outra coisa que também tem contribuído para uma certa inquietação é o comportamento da Diane. A verdade é que a Diane desde que descobriu que está grávida se afastou. E por mais que eu tente que isso não aconteça, noto que ela quer que assim seja, como se a minha presença a incomodasse, ou, como se a minha presença ou passagem pela vida dela, apenas fosse isso mesmo: uma passagem. Confesso que este comportamento dela me entristece profundamente. Mas cheguei à conclusão de que não vale continuar a procurar respostas a uma pessoa que não as quer dar. A última vez que falei com ela foi antes do Natal. Na altura, já não falávamos há uns bons tempos e eu notei que ela me evitava. Quando finalmente a ‘apanhei’ no messenger sem que ela se colocasse offline, confrontei-a com o assunto. Disse-lhe que notava que ela me andava a evitar e que isso me deixava magoada. Perguntei-lhe inclusive se tinha feito ou dito algo que a tivesse chateado. Disse-me que não, mas que não andava a saber lidar com o facto de estar grávida e de eu não estar, e que evitava falar nesse assunto para, segundo ela, me poupar a ‘tristeza’. (o que eu odeio que as pessoas me subestimem…) Na altura disse-lhe que para mim, era mais dificil saber que ela me evitava e não partilhava nada comigo da sua gravidez – que eu tinha acompanhado o quanto ela tinha batalhado para conseguir esse objectivo – do que colocar-me de parte agora, que efectivamente, o tinha conseguido alcançar. Na altura disse-lhe mesmo que sentia que apenas tinha servido para ser ‘companheira de mágoas’ e agora, que ela tinha conseguido aquilo que desejava há longos anos, eu tinha deixado de fazer sentido na vida dela. Ela disse-me que não, de maneira nenhuma, mas afinal, depois dessa conversa, constato que é mesmo disso que se trata. A verdade é que já enviei 3 emails à Diane, um deles contando-lhe o resultado da minha biópsia à pele e do novo diagnóstico, de ictiose bulhosa, tal como ela e que isso significava novo teste genético, novas esperanças e novas possibilidades no meu caso… mas ela, nada… também lhe enviei um email a desejar Feliz Natal, outro a perguntar se ela estava bem… e ela nada… já tentei meter conversa com ela no messenger, mesmo que offline – porque noto que ela todos os dias se liga e imediatamente se coloca offline – e ela nada… por isso, desisto. Desisto de tentar chamar a atenção dela, de lhe demonstrar que a amizade dela é-me importante, de que me preocupo, de que quero continuar a tê-la presente na minha vida. Sinto-me muito farta de dar sempre mais de mim aos outros do que os outros me dão a mim, como se tivesse de andar a mendigar atenções, ou a demonstrar a todos e a rodos, o quão gosto deles, o quanto me preocupo. Geralmente quando dou um voto de confiança às pessoas, espero que elas retribuam. Já nem digo na mesma medida, pois tenho consciência de que tenho tendência a ser bastante absorvente, mas quando me desiludem, sinto-me tão atraiçoada e retraio-me de tal forma, que me é muito difícil voltar a ser a mesma. Nisso sou muito escorpiana não posso negar. Eu dou tudo, mas assim como dou, também tiro. Até já pensei se estaria a fazer juízos de valor errados em relação à rapariga – o que me faz sentir uns certos remorsos de consciência confesso – mas, tal como diz uma amiga minha, o que quer que seja que se esteja a passar, não é motivo (acho eu), para ela me ignorar desta forma. Principalmente quando se trata de uma pessoa que não trabalha e passa o dia em casa…
Por isso, sinto-me profundamente triste com esta atitude dela e prometi a mim mesma que não enviarei mais nenhum email, nem direi mais nada enquanto não obtiver um sinal. Nem que para isso tenha de a bloquear no messenger – coisa que já fiz – só para ter a certeza de que quando ela me quiser falar, me envia um mail. Mais não seja em resposta aos vários que ela vai acumulando na sua caixa postal e que esperam por um ‘reply’.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

back to black

O meu recente e último vício é ouvir Amy Winehouse até à exaustão. O cd desta miúda de 24 anos, com um corpo cheio de tatuagens de mau gosto e a roçar a anorexia, com nuca cheia de postiços que desafiam as leis da gravidade, voz rouca e poderosa a fazer lembrar as grandes divas da soul, é simplesmente genial. Não me ocorre mais nenhuma outra palavra para descrever. E desde que o C. mo ofereceu que não oiço outra coisa. Desenvolvi aquilo que uma amiga minha descreveu como uma ‘Amy Winehousite aguda’, porque oiço a rapariga no trabalho, no ipod, no carro, em casa, vejo o dvd do concerto em Londres e faço buscas na net e no You Tube. A verdade é que as vozes negras me fascinam. Mas a miúda é branca. E a sua atitude em palco e perante a vida, está mais perto do estilo punk e drug addict dos anos 90, do que propriamente das divas da Motown dos anos 50. No entanto, é lá que ela vai ‘beber’ a inspiração das músicas que se revelam neste segundo álbum. Amy tem aquela característica do ‘dont´give a shit’, mas com talento maior que a própria vida. Uma voz forte e demasiado poderosa para se ficar indiferente, mesmo que em palco vejamos uma Amy que mal se aguenta em pé, com um discurso desarticulado em que predomina a palavra ‘fuck’, ou de olhar completamente vidrado. Às grandes estrelas tudo é permitido? Bom, eu não partilho totalmente dessa opinião, mas confesso que ela me atrai tanto quanto me repugna. Aquela voz de bagaço misturada com um ar de decadência total, fascina-me. Invejo talentos naturais. Invejo mesmo e não tenho qualquer pudor em afirmá-lo. Se fosse música queria escrever e cantar assim. Queria aquela voz imparável, cheia de requebres, que lhe sai com tanta naturalidade como a bebida que ela ingere em tragos generosos e que parece ser a única coisa que a liga a este ou outro mundo.
A continuar assim, está a meio caminho de se tornar imortal, mesmo que seja pelos piores motivos.
Mas eu continuo que nem uma viciada a ouvi-la.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

my new orange couch



















Este fds não saí de casa. Depois de ter tirado o dia de sexta de folga para ir tirar sangue ao centro genético da parte da manhã – onde paguei 1120 euros – só pela realização do estudo e envio para Antuérpia, (buáááááá) e de à tarde, ter ido a uma entrevista, o Sábado e o Domingo foram para a mais pura ronha. Ainda saímos na sexta à noite, para ir ao cinema ver o segundo filme ‘O tesouro – o livro dos segredos’, mas o restante fim-de-semana, foi passado no mais puro conforto do lar. Tudo porque recebemos o nosso novíssimo sofá cor de laranja com chaise long – aquele que já aqui tinha falado, do Ikea – e portanto, passámos boa parte do Sábado a desmontá-lo dos caixotes onde vinha e a montá-lo no novo espaço. O problema começou quando retirámos o estrado da chaise long do caixote e reparámos que o tecido que forrava a mesma, estava rasgado e que, para além disso, faltava uma das molas. Tal incidente levou-nos logo a ligar para o serviço de apoio a clientes da loja a reclamar da situação. Tínhamos acabado de pagar o transporte para nos virem entregar o sofá a casa e assim que o desempacotámos, ele apresentava defeito. Ao telefone disseram-nos que a entrega de substituição de um novo estrado ficaria restringida a um novo dia, mas que se quisessemos ir à loja, seria efectuada na hora. Lá foi o C. no meu carro para o Ikea, com os bancos rebatidos e debaixo de chuva, para chegar lá e constatar que afinal, o sofá, assim como o respectivo estrado, estavam esgotadíssimos, pelo que só nos resta aguardar que nos comuniquem quando é que terão novos estrados. Veremos como é que esta história se desenvolverá. Pelo sim pelo não, tirámos fotos do estado da coisa, para provar a nossa reclamação.
No entanto e como não há data prevista à vista de quando teremos novo estrado, montámos o sofá com aquele que tínhamos. O resultado é uma sala com uma percepção completamente diferente da anterior, devido à ligeira distribuição das coisas. O espaço de sofá é gigantesco – comparado com o que tínhamos – e os gatos adoram – quem os quer ver agora é a apanhar banhos de sol vindos directamente da janela. Acabaram-se por isso as ‘discussões’ territoriais pelo maior quinhão de sofá, já que no novo, ficamos tão distantes um do outro e com um espaço tão grande no intermédio, que é quase como se estivessemos em ilhas diferentes. À tarde, tive a visita da minha amiga G., que eu já não via há meses, e que apareceu lá em casa de surpresa e ontem, Domingo, dia em que o C. foi trabalhar, refastelei-me no dito sofá laranja, rodeada pelo Gaspar e pela Magali e vi assim, de uma vez só, cerca de dez episódios seguidos da primeira temporada dos Sete Palmos de Terra – série que só agora comecei a ver - e que me fez apaixonar logo pelo conceito.
Agora resta-me aguardar notícias – porque a vida é feita de expectativas, de renovações e de esperanças - e neste momento sinto-me como se estivesse com formigueiro nos pés - mas nos entretantos, lá me vou alegrando com o universo em meu redor.

ps- A 'mancha' preta na segunda foto, é mesmo a minha gata 'tartaruga', de seu nome Magali. Tão linda, de olhos cor de coruja, que já elegeu aquele, como o seu novíssimo sítio preferido.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

I'm a Superwoman...




...sou, eu sei que sou... e a prova disso, é ir, amanhã, logo bem cedinho, fazer nova recolha de ADN para novo estudo genético, tendo desta vez como diagnóstico base a Ictiose Bulhosa. Se não fosse a minha investigação incansável sobre o assunto, a minha acesa troca de emails com médicos estrangeiros, a minha insistência, a minha perseverança, a minha casmurrice, a minha teimosia, nada disto seria possível. O resultado só será conhecido em Março, mas pode ser que desta vez - só para conseguir dar descanso a este meu coração sobressaltado - corra tudo bem.

Desculpem-me a falta de modéstia, mas confesso sentir-me bastante orgulhosa de mim mesma, por ter conseguido alcançar esta etapa tão importante e fundamental de um longo e moroso processo. Nada é garantido é certo, e o resultado genético pode voltar a ser negativo e a mutação não ser encontrada, mas só o facto de ter conseguido provar que sempre me fizeram diagnósticos errados e ter esta nova oportunidade, só me enche de mais coragem para continuar.

Eu canto com a Alicia, porque eu sei que sou uma 'Superwoman. Yes I am.'

terça-feira, janeiro 01, 2008

de 2007


















2007 não foi um ano fácil, pelos muitos episódios que já aqui relatei e pelas desilusões a que fui posta à prova. Talvez, por isso, não espere demasiado de 2008, apenas o suficiente para me sentir bem e feliz. Não nego que tenho planos e sonhos e desejos para 2008, mas a euforia que me invadiu o ano passado por esta altura não existe. Existe apenas e só, uma confiança meio parva, meio tonta, quase naïf, feita de ingenuidade e esperanças vãs, que ainda me fazem acreditar que no final, e como diz a minha amiga M., 'corre sempre tudo bem'.




quinta-feira, dezembro 27, 2007

nepalês - jantar de Natal

Para aliviar um pouco a pressão natalícia e porque os amigos, os verdadeiros, são como se fossem família, decidimos juntarmo-nos ontem, no rescaldo da festa, para um jantar convívio seguido de troca de prendas e amigo secreto. O local escolhido foi um nepalês que costumamos frequentar pelo menos uma vez por ano – o ano passado celebrei lá o meu aniversário – em Alcântara. O ambiente é pequeno mas acolhedor, o senhor nepalês (julgo eu que seja nepalês) que nos serve, é sempre bastante simpático e extremamente prestável e a mesa que nos calha, é quase sempre a mesma, por ser precisamente a mais comprida e aquela que fica próximo do balcão e de passagem para as casas de banho lá do sítio. Geralmente deliciamo-nos todos com as chamuças e o cheese nan que pedimos nas entradas. Para mim, é mesmo o melhor do jantar, se bem que o batido de manga também não estava nada mal. Já o R. é fã dos cigarros indiano/nepaleses com que nos brindam no final da refeição – perante recusa de todos, que simplesmente os abominam – a mim então dão-me uma azia que nem a digestão faço direito. Já ele, contente e satisfeito, aproveita para comprar logo dois ‘packs’, a um euro cada, que lhe duram uma eternidade. O restaurante abarrotava de gente, o que me faz deduzir, que todos devem ter tido a mesma ideia que nós e procurado algo exótico que fizesse esquecer as calorias e fritos dos últimos dias. (a minha cara é bem mostra disso, com borbulhas gigantes a quererem mostrar toda a sua força e pujança!) Falámos sobre o Natal e o Ano Novo, com algumas sugestões que não me agradaram, pelo que, suponho que, ou ficarei por casa, ou adquiri gostos demasiado requintados (e burgueses) que já não acompanham os demais. Também há a hipótese de estar demasiado cansada para grandes festanças – acho que é mesmo mais isso…
Recebi um livro de máximas, para ler com calma e reflectir sobre uma série de coisas, já eu, dei ao meu amigo secreto, um conjunto de chávenas do Gato Preto, lindíssimas, com efeitos de art-deco, numa caixa preta com arabescos brancos, que me foram baratíssimas. Confesso que até eu gostava de ter umas para mim. Cheguei a casa passava da meia noite, cansada, com sono e desesperada por não encontrar lugar onde estacionar no bairro! (mas será que ninguém foi de férias nesta altura?) Hoje, ainda dei um pulinho ao shopping para ver se as lojas do costume já estavam de saldos, mas além de isso ainda não ter acontecido, tive o azar de, em todas as lojas que entrava, despertar os alarmes, fazendo com que fosse o centro dos olhares de toda a gente e corando de vergonha. Afinal, descobri que a razão de semelhante engano era um cachecol que ‘roubei’ ao C. hoje de manhã, e que pelos vistos, ainda deve ter um código de barras qualquer activado, apesar de já não ser novo. Resignada com a minha sorte, desisti da saga de ‘lamber lojas à hora do almoço’ e fui, juntamente com uma colega, tomar café à esplanada da rua e apanhar um pouco de sol. Ao menos ali, não tinha de abrir a mala para provar a minha inocência, nem disfarçar o rubor que me subia pelo rosto.
Máxima do dia: Roubar o que quer que seja - mesmo que do marido - dá sempre mal resultado.





quarta-feira, dezembro 26, 2007

espírito natalício


















O Natal acabou. Felizmente. Confesso que não sou uma pessoa que prima pelo espírito natalício, e perdoem-me os demais, que adoram esta altura do ano. Natal para mim é sempre sinónimo de grandes stresses, grandes fretes – só porque é Natal e tem de ser – de grandes despesas e de grandes canseiras. E este, mais uma vez, não foi excepção, com a agravante que tivemos de repartir a nossa presença por duas casas, duas viagens, e de tentar agradar a gregos e a troianos. Irrita-me tudo no Natal, o espírito consumista, a hipocrisia das pessoas, o ‘pseudo amor familiar’ - quando passam a maior parte do ano a cortar na casaca e a dizer mal uns dos outros - e os nervos que apanho para conseguir coordenar tudo, comprar tudo, fazer tudo…
Este Natal não tive a presença da minha família, apenas a dele, e talvez tenha sido por isso, que tudo me custou ainda mais. Na segunda-feira, quando parti de casa dos meus pais, seguindo direcção à terra, desatei num pranto como há muito tempo não tinha. Não consegui evitar. Ainda tentei pôr os óculos de sol, tentar que o C. não percebesse, mas nada feito. Fui apanhada em flagrante e não houve como disfarçar.
Estive o tempo todo quase sempre calada. Senti que estava ali por uma questão de obrigação familiar mais do que por vontade. Senti-me descontextualizada, saturada, cheia de vontade de regressar à minha casa, ao meu canto, ao meu sofá, à minha cama.
Ontem fizemos a viagem de regresso toda debaixo de uma chuva contínua, forte, grossa como bagos de uva. Chegámos ao final da tarde. Foi pouco o tempo para descansar e refazer das emoções dos últimos dias. Hoje quase ninguém veio trabalhar. A maior parte ficou em casa a empanturrar-se com os restos dos fritos, das fatias paridas, das filhozes, dos cuscurões. Deixei tudo em casa da minha sogra. Não quero resquícios do natal entranhados no corpo. Já chegou enquanto durou.






sexta-feira, dezembro 21, 2007

paranormal

Ontem fui ao teatro. Deram-nos bilhetes aqui na agência e eu aproveitei logo, porque neste momento, são raras as vezes que tenho oportunidade. A peça era ‘Paranormal’ do Joaquim Monchique, onde o mesmo interpreta sozinho, mais de 16 personagens. Foi engraçado, mas confesso que achei o texto demasiado longo e um pouco repetitivo. Eu, que fiquei sentada logo na primeira fila – lugar que devia de ser considerado um privilégio – já não tinha posição que me valesse e muito menos espaço para esticar as pernas. Mas ainda soltei umas boas gargalhadas, mais não fosse pela genialidade da interpretação, pela encarnação dos personagens sem mudança de indumentária e sem qualquer tipo de adereço, pelo monólogo vastíssimo, pela cumplicidade que muitas vezes sentimos perante o actor, ou as vezes em que o mesmo se ri de si próprio. Foi um serão bem passado, apesar do frio que se fazia na rua, do trânsito caótico - que me fez demorar mais de 40 minutos para chegar ao teatro Mundial – e o facto de, ter um senhor de idade sentado atrás de mim, que mandava piadas em voz alta e fazia comentários que o próprio julgava muito engraçados, para toda a plateia ouvir. (estava capaz de o linchar)
O que me leva a dizer que gosto do Monchique. Gosto mesmo.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Contos VI



















Era uma rapariga de ideias fixas. Pequena mas enérgica, nada escapava ao seu raciocínio rápido e certeiro. Durante o dia, corria desenfreadamente, dando liberdade à sua curiosidade quase felina, ao seu jeito natural de explorar o mundo que a rodeava. Gostava de sentir-se liberta, com o vento a bater-lhe na cara, os cabelos desgrenhados, as pernas expostas ao sentir dos elementos que, quase sempre, mostravam as mazelas física de uma natureza demasiado revolta, demasiado intensa. Via-se cristalinamente, como se numa gargalhada, transportasse retalhos fabulosos que, indefinidos, lhe saiam da garganta em forma de raios de luz, leves e soltos, bailando ao som da sua voz infantil. Possuía a doçura típica dos anos feitos da ingenuidade natural, o calor do sorriso exposto no olhar, transporto para o peito, aberto para a beleza dos dias que lhe corriam como o sangue nas veias. Era uma pequena menina feliz, de aspecto franzino mas de grandes e pronunciados olhos, não mais evidentes que a sua boca delicada e delineada, como um esboço de lápis de carvão, com leves toques fumados de ínfima irregularidade. Por detrás deste devaneio de pura beleza, escondia-se um apetite voraz que geralmente passava despercebido aos olhos de terceiros. O sabor do açúcar mascavado preenchia as suas delícias mais profundas, o motivo pelo qual todos os dias e sorrateiramente à noitinha, retirava da última prateleira do armário por cima do fogão, o pequeno e bojudo frasco de vidro onde, aquela areia dourada reluzia como ouro e, em sôfregas colheradas, a consumia à boca cheia, deixando apenas pequenas e furtivas migalhas pendentes sobre a bancada que denunciavam a sua presença. Quase sempre era apanhada. Não no momento, mas após a satisfação da gula, geralmente no dia seguinte, por uma mãe irritada que tentava a todo o custo não tornar a filha numa lontra faminta com apetite de predador. Ela escutava, indiferente, com olhos de pecadora e a língua fechada dentro da boca de porcelana, sentindo ainda os resquícios do açúcar a percorrerem-lhe o corpo.
Mas nada, nem o doce sabor amarelo, a fazia suspirar de tentação como a leve e proibida farinha láctea que a mãe raramente lhe dáva a provar. Esse manjar, requintado, quase profano, estava confinado a ocasiões especiais – que quase sempre – nunca estavam relacionadas com a sua pessoa. Nos breves momentos em que presenciava o cheiro, sentia que perdia o juízo, as forças fraquejavam, inebriada que ficava com semelhante odor, imaginando a riqueza da consistência, a mistura do leite quente com o toque molhado e macio daquela textura rugosa. A última vez que lhe sucedera semelhante episódio, foi quando receberam em sua casa, a visita tia Teresa e esta, acabada de ser mãe havia pouco mais de sete meses, levou consigo uma enorme caixa de farinha láctea que servia de alimento ao seu pequeno rebento chorão. Como o peito havia secado logo cedo, não restava outro remédio à tia Teresa, senão socorrer-se da sagrada farinha para alimentar o Manelinho como uma verdadeira e bem tratada criança merece: cheia de gordos refegos e pregas visíveis a olho nu, que encontravam contraste com a pele da barriga, macia e saliente, tal como um pequeno e estaladiço leitãozinho. A visita da tia Teresa durou dois dias, o espaço de um breve fim-de-semana, que para ela, lhe pareceu uma tortura maquiavélica, quando à hora da refeição, lhe presenteavam canja de galinha com massa e à sua frente, preparavam o repasto daquele minúsculo ser que ainda nem sabia dar valor ao verdadeiro néctar que lhe escorria garganta abaixo. Invejava-o. Queria voltar a ser pequenina para, só assim, poder desfrutar novamente daquele sabor celestial. Nada feito. Nunca, em situação alguma, a sua mãe e a sua tia, a deixaram sequer, aproximar-se do fumegante prato de papa, ou tão pouco, lamber o resto pendente da colher que, diariamente, ficava esquecida na pia e que ela, tentava desesperadamente esconder no bolso do bibe de padrão vichy azul escuro, que a mãe, em tempos, lhe tinha feito com restos de tecido de uma velha toalha.
A sorte pareceu mudar no final desses dois torturantes dias. A tia Teresa, agitada pelos inúmeros sacos e malas do Manelinho que tinha de transportar até à estação, arrumou tudo apressadamente, deixando a famigerada caixa de papa em cima da bancada da cozinha. Ela observava a tia e, entre si, rezava desesperada, para que a pressa se sobrepusesse ao esquecimento, fazendo com que o brilho metálico da embalagem da farinha láctea, acabasse por ficar ofuscado pelas fraldas, biberões e brinquedos do primo nas agitações próprias das partidas não programadas. Assim aconteceu, inundando-a da sensação triunfante que a vida nos revela nos pequenos momentos. Agora, podia calmamente delinear o seu plano e esperar, voltar a sentir, o prazer morno daquela desgustação quase imaginária.
Nos dias que se seguiram à partida da tia, tentou desesperadamente abrir a caixa metálica, que por ser nova e com pouco uso, possuía uma força anti-natura que exigia demasiado esforço do seu corpo lingrinhas e esgalgado. Todos os dias, à noitinha, passava horas a contemplá-la, esquecendo-se por completo do açúcar mascavado e imaginando o seu conteúdo, ou a forma como chuparia os dedos lambuzados, um por um, não desperdiçando nem uma única gota de leite. Tentou desesperadamente abri-la por todas as formas que conhecia. Socorreu-se das mãos, apertou-a, encaixou-a no corpo, debruçou-se sobre ela num verdadeiro esforço motriz, enquanto os seus pequenos e miúdos dedos a comprimiam e o rosto se contorcia numa expressão de dor. Nada feito. Imperceptível e inflexível, a caixa metálica continuava a deter a farinha láctea como um tesouro bem guardado só revelado a alguns merecedores.
Enlouquecida, farta, mas ainda não totalmente resignada, socorreu-se daquilo que de melhor tinha, o verdadeiro motivo de tamanha vontade, daquela gula sôfrega e ansiosa, daquele palpitar que já não conseguia controlar e, num acto de fúria quase animalesca, cravou a sua boca feita de traços vãs de artistas, na embalagem metálica que não acusou semelhante pressão.
Apenas os dentes se partiram, não aguentando a missão que os esperava.

terça-feira, dezembro 18, 2007

É neste tipo de manifestações que eu encontro a vontade para continuar...
'olá querida amiga

se não fosses tu a nossa medicina continuava parada
parabéns pelo teu nobre esforço e imensa coragem
nós estamos sempre aqui e eu apoio-te incondicionalmente
abraços muito amigos
msousa'
O mail do Dr. Mário encheu-me de alegria, tanta, que hoje de manhã quando o li, senti os olhos encherem-se de lágrimas.

Do fim-de-semana


















Com tantas coisas que têm acontecido, esqueci-me de actualizar o post sobre o fim-de-semana em que o C. fez 30 anos. No Sábado o dia estava solarengo mas frio, e por isso, decidimos ir passear até Cascais e experimentar o Sushi Guia que foi uma estreia para ambos. A vista privilegiada de mar, a falésia, a decoração do espaço, ou até mesmo, as árvores centenárias que fazem parte dos jardins da Casa da Guia, tudo me pareceu perfeito, até à altura em que entornei, por duas vezes, molho de soja por toda a minha blusa branca coroando-a de 'medalhas'... A rematar, uma bela taça de gelado de feijão com morangos flambeados, de se comer e chorar por mais.
No dia de aniversário do C. tinha em mente a noite. Parece contraditório, mas a razão tinha um forte motivo: uma pequena festa surpresa com todos os amigos, no bar de jazz as Catacumbas, no Bairro Alto. Andámos a semana toda a matutar 'no que é que havemos de fazer', para depois, à última da hora, conseguirmos arquitectar um plano que o levasse até aquele sítio para ser surpreendido por todos. Não foi difícil devo confessar. A meio da tarde disse com um ar nostágico, 'apetecia-me ir jantar ao Põe-te na Bicha, no Bairro' e ele, rapidamente, fez-me a vontade. Já no restaurante, voltei a fazer outra sugestão: 'Podíamos dar um saltinho ali às Catacumbas e ir tomar um copo, já há tanto tempo que não vamos lá...' e ele, voltou a morder o isco. Foi assim o dia todo. As pessoas ligavam e ele dizia: 'Epá, logo vamos tomar um copo?' e todos, sem excepção, lhe deram nega, conspirando neste plano diabólico que era 'deixá-lo sem companhia no dia de anos'. Confesso que houve uma altura em que tive mesmo pena dele. Estava bastante cabisbaixo, às tantas queixou-se: 'Fogo, ninguém pode' e eu lá tive de fazer o papel da mulher velhaca: 'então, devias ter combinado tudo mais cedo...'
O esforço valeu a pena. Chegámos às Catacumbas e conseguimos surpreendê-lo. Teve direito a bolo com 30 velinhas e tudo. Cantámos os parabéns, rimos bastante e a expressão dele estava mais leve, menos carregada.
Agora, quem o quer ver é agarrado ao novo brinquedo... que eu, feita tonta, lhe fiz questão de oferecer: a playstation portable.
Ele fez 30 é certo, mas continua a comportar-se como um miúdo.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

fim de ano, novos começos?

Estes últimos dias do ano têm sido intensos, física e emocionalmente. Depois da passada quinta-feira ter ido fazer a conização à Cuf Descobertas e de toda a experiência traumatizante que aquela ‘pequena cirurgia’ me causou, hoje foi dia de acordar cedo, muito cedo, e enfiar-me na sala de espera do Hospital Curry Cabral – onde, numa segunda-feira de manhã - não podia ser mais deprimente. Apesar de tudo, encarei as coisas com uma calma quase anti-natura, pelo menos no que toca à minha pessoa, sempre nervosa e demasiado excitada.
A verdade é que não criei qualquer tipo de expectativas. Já estive mais ansiosa em relação a este assunto. (Pronto, reconheço que minto, porque durante a noite acordei um par de vezes e olhei sofregamente para o relógio para me certificar de que não tinha adormecido, ou quantas horas ainda me restavam de sono.)
Hoje, apesar de saber à partida de que iria receber o resultado da biópsia que fiz há uns meses, não me empolguei, não criei ilusões, apenas queria ouvir o que tinham para me dizer. E o que me disseram, é que afinal, a Ictiose que durante os 29 anos sempre pensei ser ‘Vulgar’, é, não mais nem menos, uma forma mais rara da doença: Ictiose Bulhosa de Siemens.
Isto faz com que novas esperanças ocupem o lugar de frustrações antigas. Começa por mais um pedido de realização de teste genético. Até aqui tudo bem. A teoria é realmente uma coisa bonita, o difícil está em torná-la prática. Neste momento possuo duas hipóteses: ou ir pelo meu próprio meio, contactando directamente com uma clínica em Antuérpia e tentando enviar uma amostra do meu ADN por via DHL, - pagando todos os custos inerentes ao estudo do meu próprio bolso - ou, esperar meses por uma consulta num hospital público e no serviço de genética e tentar que me encaminhem no sentido que pretendo. A médica que me acompanhou no serviço do Curry Cabral foi bastante simpática, apesar de eu ter noção, de que ela não sabia quase nada acerca da minha doença e que estava a anos luz do que era possível fazer em termos de tratamentos. Não me revoltei, nem tentei refutar o conhecimento adquirido. Acenei a tudo com um gesto repetitivo de cabeça, concordei com as afirmações feitas, decidida de que de uma forma ou de outra, eu consigo lá chegar pelos meus próprios meios e vontade férrea. O resto, como costumam dizer os americanos, são ‘peanuts’. Seja com for, encaminhou-me para o serviço de genética da Maternidade Alfredo da Costa, a meu pedido. A partir de agora é comigo. No entanto, e porque o lado humano nestas coisas também pesa, e porque finalmente, acho que um médico tem noção de que um futuro filho com esta doença, terá sempre a vida condicionada negativamente, pediu-me que a fosse actualizando. Quer saber como irá evoluir a minha história, a minha condição de ‘mulher que luta por um objectivo seja porque meio for’. Deu-me o seu email pessoal, assim como a carta de recomendação para a MAC e o resultado da biópsia. Guardei tudo como um tesouro na minha enorme mala, entalado entre páginas do livro Equador que só agora me atrevi a ler e o qual não consigo parar. (adoro quando os livros me provocam este efeito.) Saí do hospital calma e sem uma sensação de euforia que geralmente caracteriza as minhas vitórias, com as mãos demasiado geladas para me sentir sequer, confortada na alma. Sei que irá começar uma batalha maior ainda.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

One

Ontem fiz finalmente a conização na Cuf Descobertas. Foi o exame/cirurgia que mais me custou na vida. Confesso que durante o tempo em que lá estive, deitada naquela marquesa, em posição de esforço, me senti miserável e pequena - e eu nem costumo ser piegas com estas coisas - mas ontem doeu a sério. As lágrimas cairam-me pela cara abaixo o tempo todo. Os nervos fizeram com que o meu corpo tremesse repetidamente, contraindo-se e dificultando ainda mais a realização de todo o procedimento – já de si bastante difícil. A médica falou comigo como se eu fosse uma adepta do queixume sem sentido. No final, retiraram-me um pedaço de cólo de útero do tamanho de um berlinde grande. Ela agitou o frasco repetidamente, e em jeito glorioso, disse triunfante: “Está a ver? Ainda foi um bom pedaço de cólo de útero”, como se eu devesse ficar feliz perante aquela notícia. Levantei-me com esforço, sentia a perna esquerda tão dormente que começou a ficar roxa. O sangue quase não circulou durante os cerca de quarenta minutos em que estive naquela posição. Vesti-me com esforço e ainda cambaleante. Ainda estive mais de uma hora na sala de espera após o exame, onde fui atendida por uma recepcionista arrogante e descontrolada perante as inúmeras queixas das pessoas presentes. Consegui andar até ao parque de estacionamento apesar das dores e trazer o carro para casa.
Senti-me sozinha, muito, muito, sozinha.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

contos V


















Os seus olhos cruzaram-se por breves segundos. Foi quanto bastou. Ele entrou e ela, que já se encontrava sentada, reconheceu-o. De imediato.
Sentiu as pernas fraquejarem, as mãos contrairem-se num gesto nervoso, a suaram friamente, embrulhadas uma na outra, presas pelo inesperado do momento. Bruscamente derreteu-se de emoção. O coração acelerado, o peito num reboliço de dia de temporal. Tentou agir naturalmente, mas sentia as faces quentes, o olhar rápido e inseguro. Todo o seu corpo a traía. A expressão manteve-se neutra, quase perplexa. Depois de tanto tempo, tantos anos, ei-lo, ali, bem defronte de si, como se fossem dois estranhos que se cruzam no metro, à saída de um banco, ou num qualquer café. Achou-o gordo e balofo, anafado, mas nem isso a demoveu do turbilhão de memórias que rapidamente lhe assolaram a mente. Tanto tempo a pensar nele, a idealizá-lo, a suspirar perdidamente, a imaginar onde estaria, o que faria, para vê-lo assim, sem pré-aviso, com a sua ligeira barriga saliente e o cabelo em cachos compridos, que lhe pendiam pelos ombros, dando-lhe um ar decadente de anjo barroco.
Uma sensação doce e morna de vitória invadiu-lhe o corpo. Sentiu-se poderosa. Ali estava ela, igual ao que sempre fora, depois de tudo o que sentira por ele, mais forte e segura do que nunca, enquanto que à sua frente residia a fonte do desejo de tempos idos, com o seu ar plácido e os seus pézinhos toscos, a cara papuda e redonda, o olhar mortiço, a expressão apática. Mesmo assim quis regredir no tempo. Perdeu-se no terno passado das recordações, quase sentiu o sabor quente dos beijos e carícias, dos sorrisos abertos de amor intemporais, das promessas feitas de futuro a dois, das palavras tomadas como verdadeiras.
De repente acordou. Sentiu o peso do corpo na cama, o toque frio da pele contra a sua, o bafo quente de um hálito que despertava para mais um dia.
Não era ele que estava ao seu lado.

domingo, dezembro 09, 2007

reviver


















Foi um fds em que senti as lágrimas nos olhos nos mais variados momentos.
No momento em que entrei na casa nova dos meus pais e vi, como tudo tinha um sentido próprio, uma permanência, como se a vida, por muito dura e sofrida, tivesse realmente uma missão destinada a cada um de nós. Vi-a nos olhos chorosos da minha mãe, nas inúmeras vezes em que ela dizia a si própria, como que resignando-se, que tudo parecia um sonho, na forma como repetia ‘pergunto-me se mereço’, na alegria controlada do meu pai enquanto ouvia um dvd dos Queen na sala, depois de ter aprendido a mexer no leitor.
Vi-a no reencontro que tive com a minha professora da segunda e terceira classe, velhinha, com oitenta anos, de bengala na mão mas desenvolta nas palavras, enquanto me agarrava de comoção e de sorriso aberto e franco repetia: ’esta rapariga era muito esperta, era muito esperta’. Aquilo comoveu-me, a sério. Não resisti e soltei lágrimas francas, sinceras, à frente de todos os que me acompanhavam quando me agarrei àquele pequeno corpo. Foi como se tivesse regredido vinte anos e visse uma Dona Aida que chegava à escola numa carrinha Renault 4L, cor de laranja, onde o marido – o Sr. Eduardo – a deixava no cruzamento e um grupo enorme de meninos acorriam a recebê-la. A mesma Dona Aida que escrevia nas fichas de avaliação, que eu era muito boa aluna a português e extremamente aplicada, só tinha um senão: falava demais. A mesma Dona Aida que tinha uma enorme cana de bambu, polida e comprida, que chegava a todos os cantos e carteiras da sala e com a qual me dava muitas vezes, em cima da cabeça, como sinal de reprovação para me calar. (Já nessa altura o defeito da comunicação conspirava contra mim.)
Vi-a nos olhos doridos da minha avó, que me abriu a porta de casa, coxa e mirrada pelo tempo, enquanto me agarrava na mão e sorria de alegria perante a foto que lhe trouxe. Eu, de branco, vestida de noiva, no casamento ao qual ela não pôde assistir, com o cordão de ouro que lhe pertencia em jeito de singela homenagem. O sorriso dela cresceu, os olhos humedeceram-se, a voz falhou. O seu rosto magro e o cabelo claro iluminaram-se, tirou o lenço que trazia no bolso e passou-o de forma rápida pelo rosto enrugado, invocou os santos e os anjos protectores, falou de todas as fotos minhas que existem espalhadas pela casa, inclusive aquela em que tenho como protectora Nossa Senhora de Fátima. O C. assistia a tudo, com um sorriso nos lábios e uma expressão de compreensão no olhar.
Este fim-de-semana senti-me perdida nas memórias e nas emoções. Quis ser pequenina outra vez, sentir que tinha a vida toda pela frente, desejar ardentemente pelo dia de amanhã. Não ter de acordar, nem chorar, nem temer… apenas sorrir. Apenas sorrir.


sexta-feira, dezembro 07, 2007

Contos IV


















Era uma mulher amargurada e ressentida debaixo daquela aparência calma, a pele branca, os olhos muito verdes, quase incisivos. De tez pálida e de feições delicadas, apenas o vinco marcado nos lábios finos e cerrados deixava transparecer o turbilhão de frieza que residia naquele pequeno mas desenvolto corpo. A voz era pausada, a linguagem articulada, quase doce. O cabelo era de um louro cinza, deixando a luz de final de tarde, revelar matizes cor de pérola, que lhe transmitiam uma aura de candura aos olhos de terceiros.
Apenas os lábios a denunciavam. Os lábios finos. Os mesmos lábios que em tempos o tinham beijado. Os mesmos lábios que tanto amor tinham dado, que tantos beijos tinham trocado, estavam agora cerrados, fechados, contraídos numa linha recta, com os cantos pendentes, caídos. E os olhos. Os olhos verdes, salientes, grandes como faróis, que quando o viam se iluminavam. Olhos que sorriam, lábios que viam. Ambos, revelando-se em todo o seu antigo esplendor e glória quando ele chegava. Olhos que se abriam como dois braços que pedem o calor de um abraço. Lábios que se convertiam numa curvatura de alegrias. E o coração dela ilumináva-se. Enchia-se de luz. Por momentos esquecia-se das amarguras, das dores, do frio, do facto de estar isolada numa terra de ninguém, da outra que lho tinha roubado, a ele, que ela tanto amava. Não lhe perdoaria. Nunca. Antes morta. Ela, de tez escura e encardida, com grandes olhos cor de azeitona, de traços banais e simples, alta como um girassol desfolhado, sempre tão prestável, tão desenvolta, tão despachada. E ela ali, com aquele porte clássico, aquela beleza senhorial, aqueles olhos verdes, confinada a um sítio demasiado pequeno e tacanho, destinada à vida de uma simples e banal mulher do campo. Não suportava a ideia de saber que ela lhe tocava. Não suportava vê-los, aos dois, trocando carinhos e carícias, beijando-se como se o mundo inteiro lhes pertencesse. Nessas alturas, os lábios contraiam-se ferozmente, fechavam-se perante a dureza dos pensamentos que lhe varriam a alma e os seus grandes olhos verdes e grandes como faróis, acompanhavam, tornando-se duros, acutilantes. Quase que a conseguia esbafotear. Só com um simples olhar. Por vezes desejava que ela morresse. Só para saber que ele tornava a si, puro e casto, como ela sempre o tivera, tão pequenino, tão indefeso. Suspirava pela tristeza e infelicidade de não poder tornar reais os seus desejos mais profundos. De saber, bem diante dos seus olhos, que afinal era a ela e não a si, que ele mais dáva atenção. E a outra ali, na sua casa, à sua frente, nos braços dele, era mais que um insulto, era uma provocação, uma afronta, um desafio à sua moral, aos seus lábios finos e contraídos, aos seus grandes olhos verdes.
Era uma facada no seu coração de mãe.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

partida



















A R. vai-se embora. Outra vez. Para longe, muito longe. Não sabe se volta. Outra vez. Vai com o coração ao largo e a esperança na alma, que neste momento é a única coisa que lhe serve de consolo.
Não ando preparada para tantos abandonos e reencontros é a conclusão a que chego.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Conto III


















Joana brincava sozinha, rodeada pelas altas e alvas paredes da casa senhorial onde vivia. Tinha as bochechas rosadas, os cabelos louros cor de mel, apanhados em dois enormes carrapitos presos com laços de cetim bem no alto da cabeça, o vestido apertáva-lhe o peito sempre que se mexia. As amas recebiam ordens restritas de que a menina tinha de andar sempre imaculada e vigiavam-na constantemente, não fosse o vestido rasgar-se, ou os bordados ingleses do seu peitilho e baínhas ficarem negros pela sujidade. Não tinha ordens de brincar cá fora, no jardim, sem ser em cima de uma manta quadrada e de tecido ao xadrez onde espalhavam os seus brinquedos que saiam perfeitamente alinhados de uma enorme caixa forrada a linho e com um cheiro adocicado a alfazema e rosmaninho. Joaninha olhava as amas com indiferença. Pensava muitas vezes, secretamente, que um dia rebolaria os seus imaculados vestidos na parte mais lamaçenta do jardim. Aquela junto à pequena fonte com a estátua de Vénus bem ao centro, cheia de verdete e com um dedo da mão em falta, que com olhos de monja, olhava petrificada a envolvência em seu redor.
Idealizava muitas vezes como o faria, qual o momento mais oportuno para conseguir escapulir-se, ela e os seus pesados vestidos, para o meio das poças de água escura, num verdadeiro acto de provocação. Imaginava os salpicos enormes a cairem sobre o tecido branco pérola, os seus laços de cetim amarrotados e irremedíavelmente perdidos, as meias da mais fina renda de Viana rasgadas, as saias puxadas até acima, mostrando os culotes.
Apesar dos seus tenros sete anos, Joana sonhava em contestar as suas amas, em provocar uma verdadeira revolução na ordem restrita e pacata em que o seu mundo se desenrolava. Invejava as filhas dos caseiros, sempre tão soltas e tão libertas, correndo descalças pelo jardim, salpicando os pés na terra húmida e fresca, com os seus cabelos desalinhados, rosadas pelo vento, com os mesmos vestidos dia após dia. Odiáva-as secretamente, enquanto se divertiam penduradas nas árvores, enquanto comiam a fruta tenra que trincavam ferozmente sem os propósitos das meninas educadas, bebendo o sumo fresco que lhes escorria pela boca como se água fosse e limpando os lábios molhados à manga gastas e sujas. Nada as faria parar, todo o mundo era delas e no entanto, ela ali estava, cingida à sua manta quadrada com tecido ao xadrez, sem poder ir além de uns meros centímetros, vigiada por quadro monas de mármore que lhe seguiam os passos. Imaginava o dia em que cairiam todas, tumbando uma por uma, como se um sopro lhes tivesse retirado toda a força de viver e ela, a única que sobreviveria a tamanha proeza, descalçar-se-ia e puxando os vestidos que a oprimiam e apertavam, colocaria o pé fora da manta, sentindo a terra do jardim penetrar-lhe a pele, cheia de textura irregular e no entanto, suave, como uma carícia que chega devagar e que encontra o prazer da tentação proíbida.
Pensou em tudo isto, imaginou cada segundo, cada forma, cada passo que daria, cada salpico, cada nódoa, desejou secretamente, tanto que até o peito lhe doía da emoção, a respiração sustinha-se por breves momentos, sentiu um ligeiro corar por se permitir a tais pensamentos, lentamente acalmou-se e sentiu todo o corpo abrandar, como se tudo não tivesse passado de um louco devaneio impróprio para uma menina de sete anos. Foi então que uma chuva miudinha, irregular e indefinida que apareceu sem pré-aviso, se transformou num aguaceiro forte, compacto, duro como uma pedra, que rapidamente alagou todo o jardim, transformando a terra num repentino ribeiro de lama que alagou a manta de xadrez e a caixa de linho, sujando o vestido de bordado inglês e as meias de renda de Viana da Joaninha. Perante os gritos histéricos das amas, que tentavam apressadamente apanhar todos os brinquedos espalhados para dentro da caixa de cetim, Joaninha, permanecia estática e imovél como a estátua de Vénus. Apenas a denunciava um ligeiro sorriso de satisfação estampado no rosto.
Finalmente sujára-se.


terça-feira, dezembro 04, 2007

bruma

Hoje, o nevoeiro cerrado que consigo ver através da janela onde me encontro sentada a trabalhar, está em sintonia com o nevoeiro que me vai no coração.
Denso, denso. Muito denso.

domingo, dezembro 02, 2007

Tokyo

A discoteca Tokyo (sim, essa mesmo que estão a pensar), tornou-se no meu sítio de Lisboa favorito para ir dançar. Apesar de ficar numa rua muito mal frequentada, de ser praticamente um barracão velho com pouca iluminação e circulação de ar, onde o espaço é diminuto e o calor é muito, a música - muito rock´n roll e 80's - é sem dúvida, excelente, para quem, como nós, gosta de ouvir velhinhos hits dos Nirvana ou Faith no More. O ambiente é revivalista, não pelas pessoas, mas pela música e a maioria de idades, ronda os trinta para cima, o que é bom, pois já não sentimos que 'destoamos' entre a multidão.
Ontem, depois de um longo período de ausência regressámos, acompanhados por um dos nossos casais amigos favoritos, prontos a aproveitar a noite de Sábado ao máximo. A C. e o P. decidiram vir até Lisboa, jantar em nossa casa e aproveitar para cá passar a noite. Depois de um repasto bastante picante de 'chili com carne' - em que eu abusei das malaguetas -, decidimos começar a noite com um cafézinho na Brasileira do Chiado, aproveitando para em seguida dar um saltinho ao Bicaeanse, onde, na rua e de copo na mão, metemos a conversa de longos meses de ausência em dia. Depois, bom, depois foi seguir até ao Cais do Sodré e dançar até os nossos pés aguentarem. Rumámos a casa às quatro da manhã - hora em que o próprio Tokyo fecha, mas ainda ficámos na converseta na sala e em pijama até às cinco e meia. Hoje sinto-me um caco - estas noitadas já não são frequentes e destabilizam-me o organismo. Em suma, estou velha, mas que foi bom, foi.

quinta-feira, novembro 29, 2007

Contos II


















Subindo a ladeira íngreme, Maria deixava antever o tornozelo bem delineado. A cada passo e debaixo daquela saia grande e pesada, o vislumbre da pele branca e alva como marfim, deixava todos os homens que a seguiam ardentes de desejo. Era época da apanha da fruta e Maria, de grandes olhos cor de avelã e cabelo preto como carvão, sabia o impacto que provocava na líbido do sexo oposto. A rapariga era desenvolta, alta como nenhuma outra mulher das redondezas.
Maria assustava pelo seu porte altivo e bem constituído. Tinha apenas 18 anos, mas comparada com as restantes raparigas, já aparentava muitos mais. Talvez por isso, fosse fonte de desejo e de respeito. Na altura da apanha da fruta, lá ia a Maria, de saia pesada a tapar-lhe as formas, de cesta encaixada na anca e amparada pelo braço, deixando a outra mão livre para chegar aos ramos mais altos. E se ajudava a altura. Ninguém lhe batia na apanha da fruta, nem mesmo os homens, que embevecidos pela beleza da jovem, lhe gabavam o tamanho para lhe alimentar o ego. Os mais atrevidos traziam-lhe um pedaço de broa de milho à hora da refeição, perguntavam-lhe se queria um copo de vinho, que ajudava à bucha. Os outros, pequenos e tímidos, afastavam-se dela. Não que a sua beleza lhes fosse indiferente, mas enfezados e tacanhos, sentiam-se diminuídos no seu orgulho masculino por nem aos ombros lhe chegarem. E Maria lá andava, entre as maçãs e as pêras que rebentavam de orgulho e madurez no alto das árvores, a sua saia rodada, pesada e comprida, deixando vislumbrar o tornozelo elegante e a pele clara e intocável. E todos a consumiam com os olhos.
Certo dia, estava a Maria pendurada no escadote, com a cesta de verga encaixada na anca e cheia de maçãs até acima, o corpo debruçado para a frente, o braço esticado ao máximo, quando a escada de madeira na qual permanecia de pé, cedeu. Voaram maçãs pelos ares, caindo e rebolando longos metros pelo pomar, a cesta de verga - que já acusava o passar do tempo - desfez-se em pedaços, apodrecida pelo peso da fruta, ano após ano. A saia da Maria levantou-se até aos joelhos, mostrando as pernas esguias tapadas pelo tecido sufocante. E a Maria caiu redonda no chão, fazendo um ruído forte e seco que despertou todas as atenções.
Todos os homens do pomar acorreram a ajudá-la, mas quando chegaram à beira da alta Maria, já a mesma se tinha levantado e, divertida com o episódio, apanhava as maçãs do pomar, colocando-as na saia que lhe substituía a cesta e se encontrava agora, levantada até aos joelhos.


in a bad mood



















Confesso que hoje estou de mau humor. Sinto-me saturada, farta. Farta de aturar gente sem o mínimo de consideração pelo trabalho feito, pelos outros. Farta de ver abusos de autoridade, do compadrio, da injustiça, de serem sempre os mesmos a darem-se bem e os mesmos a serem prejudicados. Farta de trabalhar e de nunca conseguir fazer aquilo que realmente gosto. Farta de ganhar mal e de andar a contar trocos até ao final do mês. Farta de idealizar, desejar, sonhar e de não conseguir fazer nada que altere o rumo dos acontecimentos. Farta de não poder mudar o destino, o rumo das coisas, de pôr uma luz mais incidente e luminosa sobre mim, para me orientar, mostrar o caminho. Farta de me sentir perdida, incompreendida. Farta de lutar. Farta de remar contra a maré. Farta, muito farta.
Chego a esta altura do ano e sinto sempre uma angústia latente, crescente.
Talvez porque olho para trás e vejo que afinal, as esperanças vãs do início do ano, morreram todas e afinal, este que passou, além de não ter trazido nada de bom, só serviu para me deixar ainda mais revoltada.
Sinto uma raiva e uma revolta muito grande dentro do peito. Sei que não é bom deixar-me invadir por tais sentimentos, mas não ando a conseguir evitá-los. Nunca fui uma pessoa paciente, serena ou calma. A espera desespera-me, deixa-me exasperada. Deixar as coisas nas mãos do destino é o meu pouco e único consolo, onde as mágoas e as angústias encontram leito e dormem acreditando ainda na possibilidade de que afinal, esta história, consiga ter um final feliz.

domingo, novembro 25, 2007

vírus



















Tenho andado com uma gripe ‘daquelas’. Já ando assim há mais de uma semana. Tenho dias em que me sinto melhor, mas logo vêm outros em que parece que vou cuspir os brônquios com uma tosse que não me larga. O fds lá em cima na terra também não ajudou. Apesar de a temperatura exterior até ter estado mais ou menos amena, a casa dos meus sogros estava gelada como um corpo sem vida. Nem parece deles, mas desta vez, não ligaram o aquecimento durante o dia e só o fizeram à noitinha, não dando tempo suficiente da casa aquecer. Andei o dia todo com as extremidades geladas, enrolada no cachecol e com o gorro na cabeça. A noite foi infernal, com uma tosse contínua que começou por volta da uma da manhã e só acalmou às cinco com uma caneca de chá quente com mel, que me aliviou a garganta e o espírito até às oito e meia, altura em que voltei a tossir novamente que nem uma louca e já não consegui voltar a adormecer. Só melhorei quando cheguei a casa no domingo à noite, com o aquecimento central ligado e a lareira acessa. No entanto, hoje, sinto que piorei. Sinto-me fraca, sem forças no corpo, dorida, a cabeça a latejar… se não fosse a quantidade de trabalho que tenho para despachar, ia mas era para casa e enfiáva-me na cama.
Ontem tive uma resposta a algo que já tinha perdido as esperanças de chegar: a resposta do Hospital da Estefânia à carta que escrevi a fazer queixa da médica que me seguia no serviço de genética. Confesso que assim que abri a caixa do correio e vi uma carta do Ministério da Saúde, vi logo do que se tratava, mas fiquei com as pernas a tremer a pensar se não viria para aí um inquérito, ou até mesmo, um processo. Afinal, os meus medos não tinha razão de ser. Basicamente o hospital tomou completamente o partido da sua ‘profissional’, ignorando as minhas queixas ao seu serviço e alegando o meu ‘transtorno emocional’ no que diz respeito a esta matéria. Confesso que a carta me deu vontade de rir. Ao início quando a li pensei: 'Ok, pronto, cumpri o meu papel e o assunto morreu aqui’, mas depois, numa segunda leitura mais atenta, verifiquei que a última frase alegava que se eu quisesse, metiam outro profissional a tratar do meu processo. Foi aí que se fez luz na minha mente. O resultado da minha biópsia será conhecido na próxima segunda-feira, a partir daí e consoante o resultado, escreverei nova carta de resposta e exigirei nova recolha de sangue para repetir o teste de ADN, assim como a entrega do meu processo a novo médico do serviço de genética, porque com esta senhora, não quero mais nada. Pode ser que afinal, a minha carta de queixa até tenha sido benéfica… até porque eu acredito no encadeamento lógico das coisas, nas coincidências, na intervenção do destino, em algo que me permita continuar a agarrar-me, mesmo não tendo nada de palpável.
Digo para mim mesma repetidas vezes: ‘Tens de ter calma. Tudo se resolverá.’
O difícil é convencer-me disso.

castanheiro


















A castanha é um fruto bojudo, roliço. Se fosse uma pessoa, seria considerada gorda, atarracada, anafada. Tem uma casca dura e uma textura grossa, coberta por uma fina pele macia, felpuda, que se entranha dentro das unhas e se parte em lascas quando está mal assada. O seu corpo é farinhento, consistente, doce. Faz-nos inchar como um balão, mas sacia a gula e aquece as mãos. Não é de estranhar pois, que semelhante riqueza esteja bem protegida, dentro do seu casulo coberto de picos e tradicionalmente denominado por 'ouriço'. Havia às centenas na Gestosa, afiados como agulhas, deixados ao desbarato para todos aqueles que se atrevam a quebrar as barreiras do tempo e do isolamento e, movidos pela curiosidade citadina (como nós), se aventurassem a apanhar as que restavam no chão, soltas como despojos, brilhando entre folhas de tons outonais. Naquele pequeno terreno que nem nos pertencia, encobertos pelas folhas de um castanheiro centenário, de tronco sólido e consistente, sentíamos a magia das histórias dos contos de fadas. O bosque encantado da minha infância era ali, com um ribeiro que na Primavera corre cheio de força, mas que na minha estação do ano favorita - o Outono - se encontra seco, coberto de um manto de folhas soltas que ondulam a cada passo, denunciando com um som seco e estaladiço os nossos movimentos. Os ouriços de castanhas encontram-se espalhados pelo chão até onde os nossos olhos conseguem alcançar. Misturam-se com as cores do momento, que quase se confundem com a cor de bronze velho das minhas botas, tão modernas, tão citadinas e tão desadequadas para aquele lugar.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Contos I



















Ela sabia, no mais íntimo do seu ser, que ia conseguir. Era um longo caminho tortuoso, cheio de cascalho, que a fazia derrapar e esfolar os joelhos. Mas ela levantáva-se. Sempre. E prosseguia, com a certeza de que nada nem ninguém a poderia demover do contrário. Um dia, cansada pelo calor e inchaço dos pés, sentou-se na beirinha de uma pedra que lhe pareceu cómoda. Deixou-se ali ficar, dormente pelo sol que lhe cobria o rosto e a tapava, como um cobertor faz a um corpo frio, enquanto tombou lentamente a cabeça para trás e fechou os olhos. Nos seu cabelos, a brisa da serra tocava de fininho, fazendo-os ondular suavemente, como se de fios de ouro se tratassem, espreitando entre o lenço de chita que lhe emoldurava o rosto cansado. As mãos entrelaçadas apertaram-se. Contraiu-as no peito, evitando que toda a sua temperatura evaporasse. Lembrou-se da mãe e da sua voz doce quando a embalava à noitinha. Era tão pequena nessa altura. Mas a voz da mãe aparecia-lhe nítida, cristalina, como se estivesse junto dela naquele instante, a cantar-lhe ao ouvido. Ajeitou o xaile que trazia sobre os ombros. Tinha-o tricotado nos tempos livres, quando a lavoura e os animais o permitiam. Tudo isso consome muito tempo na vida de uma mulher. Expressou um sorriso, calmo e tranquilo. Queria adormecer com aquele conforto na alma. Sabia que não ia sair daquela rocha fria e dura tão cedo. As pernas tinham fraquejado pelo caminho e pediam benesses. O sol ameno que ainda à instantes a embalava, rapidamente deu lugar a uma chuva miudinha que rapidamente se tornou desconfortável. Pareciam bicos de facas que se cravavam na pele, recordando-a a cada gota, do quanto era frágil. No alto daquela serra, sentada naquela rocha, o caminho de cascalho pareceu-lhe muito longo para ser percorrido por uma velha cansada. Pensou desistir, contraiu as mãos mais uma vez, apertou o lenço que trazia na cabeça fazendo com que o mesmo lhe tapasse as orelhas, ajeitou o xaile de lã, obrigou as pernas a obedecer e sem demoras, voltou a pôr-se a caminho.

quinta-feira, novembro 22, 2007

one of best thing´s in life


















Ontem combinámos encontrar-nos ao final do dia para matar saudades. De vez em quando fazemos isso. Actualmente cada vez menos, é certo, porque temos horários distintos, porque uns saem tarde do trabalho, porque outros são freelancers e não têm tempo… mas o local onde o fazemos é o mesmo desde há anos – há onze para ser mais precisa – por isso, basta mandar um sms a dizer: ‘encontro às sete no sítio do costume’, que todos sabem onde ir ter. Fui das primeiras a chegar, aos poucos o grupo foi-se compondo. Como o nosso local de culto é o bar irlandês O´Gillins na rua dos Remolares do Cais do Sodré, é normal de vez em quando, estar cheio de ingleses barulhentos. Ontem, dia de jogo decisivo de apuramento da Inglaterra, estava a abarrotar e para falar tínhamos de estar aos gritos. Desistimos ao fim de hora e meia. Ainda deu tempo para beber um chá de limão e comer uma das deliciosas sandes de atum, mas achámos melhor ir para um sítio mais sossegado. A L. sugeriu irmos até à sua casa nova jantar e nós gostámos da ideia. Quando saímos do bar chovia a potes. Eu que tenho andado adoentada, com gripe e com dores de garganta, era o cenário perfeito para ficar ainda pior. Uma corrida rápida até ao carro e toca de ir até à Penha de França a guiar devagarinho e debaixo de chuva forte. Chegámos todos ao mesmo tempo e assentámos arraiais na sala, ainda semi-nua e cheia de caixotes por todo o lado, a ver o triste resultado do jogo de Portugal. Entretanto improvisámos o jantar com aquilo que havia na cozinha – carne assada e ovos – fizemos arroz branco, uma salada e ainda terminámos com café e bolinhos de manteiga, os cinco, numa mesa para quatro, sentados em caixotes de papelão e cadeiras de plástico do Ikea. Voltámos a ver fotografias de há dez anos atrás. Eu extremamente magra, na praia de Porto Côvo, com um lenço azul escuro na cabeça e um pareo a condizer (já muito coquete e muito fashion victim para a altura), ou a R., com o seu corte de cabelo à Rosa Mota (onde é que ela estava com a cabeça para fazer aquilo?), comigo, dentro da tenda do parque de campismo também de Porto Côvo. A H., na Expo 98, muito mais gorda (aliás, foi a única que emagreceu com a idade), que ontem, ao ver-se naquelas imagens quase que ficava incrédula perante a sua figura e o seu cabelo muito afro, muito volumoso! O R. mais gordo, de pele muito branca, dentro da cachoeira de água natural em Alpalhão, ou eu e a L., em Serra Nevada, onde vi neve pela primeira vez na vida e onde tirámos fotos tal e qual um casal de apaixonados em lua de mel.
Lemos ainda postais que costumávamos escrever quando alguém fazia anos – hábito que infelizmente perdemos. Rimos às gargalhadas com aquilo que dissemos. Rimos, rimos e rimos. Hábito saudável que se deve fazer sempre, principalmente quando estamos com as pessoas que gostamos e com as quais temos tanta história em conjunto para partilhar. E se ontem andei muito revoltada, muito amarga, muito caústica durante o meu dia, à noite relaxei e senti-me leve, bem, feliz.
Precisava de sentir-me assim mais vezes.

PS – É impressão minha ou os meus posts andam a tornar-se lamechas e saudodistas?

sexta-feira, novembro 16, 2007

mais do mesmo...



















Ontem era dia de tratamento ao cólo do útero na Cuf Descobertas. Digo 'era' porque não chegou a acontecer. Realmente eu só não adivinho a sorte grande porque o destino assim não o permite, porque esta minha intuição quase de bruxa nunca falha. Andei o dia todo a prever este desfeixo. Que iria chegar lá e que ela não me ia tratar, não só porque sabia que estava já no meu período fértil, como ela tinha dito imperiosamente, de que se não estivesse no meu oitavo dia 'pós-menstruação' nada feito. E pronto, nada feito mesmo. Ainda me chegou a ver, mas depois virou-se para mim, com as minhas entranhas expostas num ecrã semelhante a um televisor e disse: 'A menina está cheia de corrimento. Não lhe posso fazer o tratamento' e pronto, eu vi logo o que me esperava. Deitada na marquesa e com a cara virada de lado para não ver o fatal 'televisor', a médica insistia para que eu olhasse. Disse-lhe, 'Desculpe, mas prefiro não ver' e pelos vistos, melindrei-a, porque soltou um 'Era apenas para que visse como está por dentro'. Perante este comentário lá virei a cara em direcção ao dito ecrã e como pessoa impressionável que sou, tive uma visão dantesca de mim mesma. O que me fez constatar que nunca teria futuro na medicina...No entanto nem tudo foi mau. Regresso já na próxima menstruação - o que pelas minhas contas não deve tardar mais do que duas semanas e fizeram-me já uma coposcopia para análise. Também não tardo a receber o resultado da biópsia à pele - é já dia 3 de Dezembro. Ontem como estava na Cuf, ainda fiz o choradinho para me tirarem os pontos que me ficaram na dobra do joelho de quando fui ao Curry Cabral. Lá consegui. A enfermeira, uma miúda nova e simpática, reconheceu-me da última vez que lá tinha ido à consulta de ginecologia - quem me vê as pernas nunca se esquece - e tirou-me os pontos sem sequer me cobrar um tostão. No final ainda passei pela farmácia para levantar os medicamentos e 'bisnagas' que terei de fazer nos próximos sete dias...

Se eu me vejo livre deste ano até julgo que é mentira... que venha outro e depressa, para eu ter novas esperanças e mais 12 meses para acreditar que algo dá certo comigo.