segunda-feira, março 24, 2008

alicia keys e a páscoa


Eu já não actualizo este cantinho há algum tempo, eu sei! Estou em falta, mas as novidades têm sido tantas - assim como o cansaço - que a vontade de vir aqui escrever algumas palavras vai ficando adiada. A Páscoa correu bem. Fomos até às Caldas, a casa dos meus pais e por lá ficámos em fim-de-semana prolongado, ontem, Domingo, foi dia de almoço de família com os meus sogros e de reunião familiar. Devido ao mau tempo, à chuva e ao frio, quase nem saí de casa, apenas o fiz no sábado à tarde para ir tomar um café e ver o movimento da cidade, mas mais valia ter ficado em casa, pois fiquei com uma valente gripe e hoje ando aqui, ensopada em lenços de papel, vitamina C e cházinho, cheia de dores de garganta e vontade de me enfiar na cama e ir para casa.
A semana passada fomos até ao concerto da Alicia Keys. Confesso que depois de ter andado algumas semanas em que ainda não tinha o bilhete a desejar tê-lo para ir vê-la, quando o próprio dia chegou, a vontade era pouca ou nenhuma. Mesmo assim, lá fomos, num dia em que a noite estava fria e gelada e o vento andava num corropio danado. Foi bom, mas ter estado tantas horas de pé, matou-me! Eu em cima de uns saltos (nunca mais perco esta mania) e cerca de 4 horas em cima das pernas sem um único descanso. Foi muito bom e ela é realmente fantástica, o som desta vez esteve excelente, e tive lugar de privilegiada, mas confesso que não via a hora de aquilo acabar e de ir para casa... nem esperei pela última música, quando já toda a gente batia palmas e fazia barulho para que a diva regressasse ao palco... meti-me a andar dali para fora, numa ânsia danada de chegar a casa primeiro que todos. Desculpa lá Alicia, fica para a próxima, mas prefiro ouvir as baladas no conforto do lar e do carro, confortavelmente refastelada...
Quanto a fotos, bom, as poucas que não estão desfocadas, deram lugar aos vídeos que fiz e do qual vos deixo estes dois, com uma das minhas músicas preferidas...



segunda-feira, março 17, 2008

weekend pieces

Mais um fds que passou demasiado rápido, a única coisa que realmente me alegra, é o facto de esta semana que começa, ser mais curta. Custou-me bastante a semana passada trabalhar e ser produtiva, principalmente depois de ter estado 4 dias em casa de 'mini-férias', mas lá se passou. Ultimamente tenho-me sentido muito cansada e cheia de sono, por isso, aproveito todos os bocadinhos que tenho para dormir. E que sonos eu durmo! Adormeço numa questão de minutos e durmo profundamente. Depois, acordo passado umas duas horas e fico fresca que nem uma alface. Eu sempre adorei dormir, é a minha terapia, durmo em qualquer lado, não estranho camas e desde que tenha um cobertor e me sinta aninhada e quentinha, estou pronta para 'hibernar'. (ao contrário do C., que nunca dorme sestas e se calha em adormecer, depois passa o resto do dia mal disposto...) Já eu, tenho essa costela 'espanhola' e acho que não há nada como uma boa sesta para depois ser produtiva! eh eh eh
Sou de tal forma adepta do sono, que muitas vezes, durante a semana, se chego a casa por volta das sete da tarde durmo até às oito e depois acordo, cheia de energia e vou fazer o jantar... Mas adiante (que grande dissertação escrevi sobre o sono! acho que tenho de pôr um conteúdo mais interessantes neste blogue...)
Na sexta-feira fomos ao cinema ver o filme 'Este país não é para velhos' dos irmãos Cohen e onde o Javier Barden ganhou o óscar. É giro, eu gostei. É o estilo Cohen, não há dúvidas, mas aquele final, aquele final, não me convenceu! Mas pronto, isto é apenas a minha opinião. Mesmo asim o filme durou umas duas horas e eu já não tinha posição para estar sentada no cinema. Encontrámos anda a minha colega de trabalho, a F. e o namorado, no El Corte Inglés. Iam ver o mesmo filme que nós, por isso, quase que pareceu um double date - e sem combinarmos nada.
No Sábado uma das minhas melhores amigas veio a Lisboa e encontrei-me com ela no Chiado, à tarde, que pululava de gente. Imensas pessoas decidiram aproveitar o sol primaveril do dia para passear por aqueles lados e nós não fomos excessão. Estivemos nos amazéns do Chiado a almoçar e a tomar café. Foi bom vê-la, saber as novidades. A C. é sem dúvida, uma das minhas melhores amigas. Vivemos juntas e partilhámos a mesma casa durante anos, enquanto estudávamos na faculdade. Considero-a como família, a filha dela é sem dúvida, a minha sobrinha mais linda e apesar de as circunstâncias da vida estarem completamente diferentes e alteradas em relação há uns anos atrás, quando estamos juntas, é como se nada tivesse mudado. Acho que é isso que caracteriza uma verdadeira amizade. Não é o tempo que afasta as pessoas, as pessoas é que se afastam umas às outras, pelos mais variados motivos. Eu e ela, apesar de separadas por mais de 100 kms de distância continuamos a falar-nos e a ver-nos, sempre que pudemos. Porque na realidade, vontade não nos falta.
À noite fomos à festa de aniversário da R. que comemorou os seus 30 anos. Foi um convívio informal, na nova casa dela, onde estivemos todos juntos até às 3 da manhã. Escusado será dizer, que hoje, me senti o tempo todo como uma zombie. Já não estou habituada a fazer 'noitadas'.
Hoje, Domingo fomos até à Lourinhã visitar a S. e o F. e ver o bebé deles, que já está de 4 meses e meio! Entretanto ela está de regresso ao trabalho - mais um mesito - e já se sente angustiada. (Pudera, quem é que não ficaria?)
Cheguei a casa eram oito da noite, cansada, esfomeada e cheia de sono (outra vez), depois de uma caneca de leite, duas torradas e uns biscoitos, adormeci no sofá e só acordei há minutos, mas, para não fugir à regra, ainda fui preparar qualquer coisa para levar para o meu almoço amanhã. O C. foi trabalhar o dia todo e eu, quando estou sozinha, não gosto de fazer comer, além de apreciar este tempo 'só para mim'. Achei por bem não terminar o meu fds sem vir à net e escrever algo - apesar de saber que este post não está grande coisa - mas adiante! Deve ser do avançado das horas e dos olhos, que já me traem e pesam, reclamando mais umas horitas do sono dos justos.

quarta-feira, março 12, 2008

ADN


















O resultado do meu teste genético chegou. Após dois meses de espera, as notícias não foram animadoras. Deu negativo. Outra vez. Não conseguiram encontrar nada ao nível do gene estudado que pudesse explicar a origem da mutação que provoca a ictiose bulhosa.
Confesso que quando ouvi o resultado não fiquei surpresa, nem triste, nem desanimada, nem magoada. Porque de certa forma, já sabia que essa probabilidade existia, era real e podia acontecer. Porque de certa forma, já tinha passado por isso o ano passado e depositado tantas esperanças, convicta que estava em um resultado positivo, que desta vez, as minhas aspirações, foram apenas o suficiente para me fazer acreditar, que fiz tudo aquilo que estava ao meu alcance. Quando a técnica de laboratório me disse que o resultado tinha sido negativo, eu escutei com toda a atenção, mas o meu coração acalmou, batia compassadamente e não se sentia oprimido, nem aflito, nem angustiado. Foi como se toda aquela ansiedade provocada pela espera de algo pelo qual eu não queria esperar, tivesse assentado no meu peito. Como se a resignação perante a notícia fosse ao mesmo tempo uma calmia. Dar paz a este meu coração sofrido com todas estas histórias de testes genéticos e possíveis tratamentos para ter um hipotético filho saudável... Tudo coisas que se prolongam no tempo, numa projecção difícil de conseguir calcular, numa linearidade que eu vejo sempre como distante, num futuro que se prolonga por demasiados meses, por demasiada espera, por demasiada angústia, às camadas, levando-me até ao limite... e logo eu, que nunca fui uma pessoa paciente! Porque para mim, não agir é sentir-me impotente, não fazer é sentir-me atada, não avançar é matarem-me aos poucos...
Por tudo isso, eu e o C., há muito que tínhamos tomado a decisão de que independentemente do resultado do teste genético, não iríamos fazer mais nenhum e que se o mesmo viesse negativo, então, pararíamos por aqui. E é isso que iremos fazer. E foi isso que comuniquei à técnica que me facultou a informação.
A ictiose é uma das doenças genéticas mais difícieis de diagnosticar. Não só por se subdividir em tantas variantes, como por o conhecimento da mesma ser quase nulo, principalmente no que toca à investigação científica e ao conhecimento genético. Estudar um gene, uma mutação, sem saber por onde começar, é como procurar uma agulha num palheiro e nem o resultado da biópsia ajudou a estreitar mais essa procura, ao ser-me diagnosticada 'ictiose bulhosa de siemens'. Nem isso pareceu ajudar. Existem mais dois outros testes - dentro da ictiose bulhosa de siemens - que eu ainda poderia fazer, mas depois de termos pago 1000 euros por este e de o resultado ter sido negativo e termos ficado exactamente no mesmo ponto onde estávamos, a ideia de gastar mais outros hipotéticos mil euros e eventualmente, mais outros mil euros, esgotando todas as nossas hipóteses, parece-nos um esforço descabido e inútil. Porque, mesmo que depois destes 3 testes feitos se encontrasse algo que me permitisse fazer tratamentos de fertilização in vitro através da técnica do embrião genéticamente modificado, com que dinheiro eu faria esses mesmos tratamentos? É que entretanto, ficaríamos depenadíssimos, tudo num esforço quase inglório de ter um filho. E que qualidade de vida lhe daríamos se o tivessemos? Pelo privado não teríamos dinheiro para suportar os tratamentos e pelo público esperaríamos anos, prolongaríamos a ansiedade e o sofrimento e levaríamos a nossa relação até ao limite, desgastando-a com este assunto.
Todos estes motivos pesaram na hora de decidir que este resultado negativo foi quase um presente. Um presente que veio sossegar o meu coração. Colocar uma pedra sobre o assunto.
Fiz tudo o que estava ao meu alcance. Sinto-me cansada desta luta. Dos contactos diários com médicos, dos emails trocados, deste esforço constante e solitário.
Resta-me a opção dos 50-50. Eu tenho 50% de hipóteses de ter um filho saudável. E vou-me agarrar a esses 50% com unhas e dentes.
Se a moeda cair para o lado errado, não será por isso que ele não será amado. Queremos acima de tudo constituir uma família e o C. sempre soube dos riscos que corríamos quando decidíssimos ter filhos por causa da minha doença. A minha pele nunca foi um problema entre nós. Ele nunca me viu como 'diferente', nem me tratou com tal. Sempre me fez sentir a mulher mais especial do mundo e eu sempre me senti abençoada por o ter na minha vida. Claro que quando falamos em filhos, queremos que eles nasçam saudáveis em tudo, perfeitos, evitar a todo o custo que passem pelo mesmo sofrimento que eu, por exemplo, passei. Mas eu fiz tudo aquilo que podia fazer e acho que chega. Por agora chega e eu não sinto, ou ache que deva sentir, remorsos por esta minha decisão.
Eu acredito que tudo na vida acontece por uma razão e que há coisas, que por mais que tentemos, não nos compete a nós decidir o que a mãe natureza pode ou não fazer.
E eu vou, a partir de hoje, deixá-la seguir o seu curso.


terça-feira, março 11, 2008

ken lee


Eu choro a rir a ver este vídeo!...

'Keeeennnn Leeeeeee. Tulibudi budi douchoooooooo'

domingo, março 09, 2008

bacalhau com broa e espinafres



















Esta receita de bacalhau com broa de milho e espinafres, é provavelmente a minha nova receita favorita! Fica sempre bem, faz um 'vistaço' e é super saborosa, embora seja um pouco trabalhosa.
Para quem, como eu, adora comer, é sem dúvida a escolha acertada para impressionar sogros, pais, e demais familiares.
Hoje foi o nosso almoço, mas apenas a dois.
Depois de uma semana de férias, preparo-me psicológicamente, para regressar à dureza do dia-a-dia.
É incrível como o tempo voa quando não estamos a trabalhar...

sábado, março 08, 2008

six feet under

Esta série mexe com alguns dos meus medos e sentimentos mais profundos...

Talvez seja por isso, que tenho cada vez mais consciente, o medo de perder quem amo.

domingo, março 02, 2008

making things happen


















Resolvi seguir à letra um dos conselhos do 'The Secret', de forma a atrair para a minha vida, as coisas que quero. Já há algum tempo que tínhamos o placar cá em casa, mas só hoje, com tempo e disposição, me atrevi a 'calcorrear' todas as revistas que tinha cá em casa a encherem-se de pó e recortar tudo aquilo que, de alguma forma, reflectisse os meus desejos. Diverti-me a fazê-lo, mas ainda não está completo (nem sequer vai em metade), mas sinto-me orgulhosa por tê-lo feito.
Neste momento, já se encontra no escritório, em sítio estratégico, de forma a poder vê-lo todos os dias, atraindo tudo isto, até mim.


'Your thoughts and your feelings
Create your life'
The Secret - 2007

cinco



















2 de Março...
Faz hoje 5 anos que eu e o C. começámos a namorar, na distante Madrid.
O tempo passa a correr...



domingo, fevereiro 24, 2008

Good vibes



















A semana tem sido pródiga em boas notícias, ou então sou eu, que tenho andado animada ao ponto de me sentir feliz e em harmonia com tudo o que me rodeia. (E há coisa melhor?)
Para começar, na sexta-feira, a minha chefe chamou-me, e em jeito de confidência, comunicou-me que serei uma das poucas pessoas a ser aumentada na agência! 'O quê? Desculpe, repita lá outra vez... Vou ser aumentada?!?' Só me apetecia gritar de tanta felicidade! Afinal, o meu desejo cumpriu-se, mas a verdade é que ainda nem acredito bem de que o mesmo se realizou! Acho que isso só irá acontecer quando vir o extracto do saldo bancário do ordenado do próximo mês. Não podia ter vindo em melhor altura.
Depois de saber que a Amy Winehouse vem ao Rock in Rio e de que actuará no mesmo dia que o Lenny Kravitzs a minha felicidade redobrou! O C. deve ser o maior fã de Lenny Kravitzs que conheço e já é antigo o nosso desejo de vê-lo ao vivo, em Portugal, e em conjunto. Quando soubemos que ele vinha cá para a edição deste ano, concordámos que iríamos vê-lo, mas saber que vai ser uma dobradinha, multiplica ainda mais o meu estado de excitação! Confesso que no dia em que ouvi a notícia (o C. ligou-me só para me dar em primeira mão), enviei sms para todos os 'Amy addicted' que conheço, e todos, sem excepção, tiveram uma semi 'paragem cardíaca' de excitação. Confesso que aos 29 anos, nunca pensei ter um comportamento tão adolescente em relação a uma cantora, mas a verdade é que a música da miúda me provoca taquicardias emocionais!! Dia 28 os bilhetes são postos à venda e eu quero garantir o meu lugar.
Por último, a minha querida R. está de volta! Tenho tantas, tantas, saudades daquela louca sonhadora inveterada! Estou desejosa de lhe dar um abraço enorme e bem apertado, de ficar fula com os atrasos dela ou com as perguntas inconvenientes que faz, com a análise justa com que me alerta sobre coisas que eu própria não consigo ver e com a forma como todos sentimos que o grupo agora volta a ficar completo com o seu regresso.
Acho que todos nós nos sentimos meio amputados com a sua ausência.
É bom ter-te de volta outra vez.*
(E esperemos que agora não fujas para o Cambodja!)

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

I´m addicted to Amy

Opá, opá, opá, ela vem cá!!! :)

É agora que vou ao Rock in Rio!!!

(Esta música não está no álbum, 'Valerie', e eu simplesmente, adoro-a!!)

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

eu tenho dois amores...


















Ter dois gatos não é tarefa fácil! Eles exigem atenções a dobrar, cuidados a dobrar, e paciência a dobrar, porque quando se lembram de desatar às corridas pela casa, empoleirando-se em tudo o que é sítio e fazendo-me perder a paciência, não há amor de 'dona' que resista! Nunca consigo ter nada devidamente estimado e muito menos no sítio, ou até mesmo 'limpo', porque os pêlos multiplicam-se a uma velocidade impressionante e por mais que tente ter tudo em ordem, não consigo! E para mim, que sou um pouco 'control freak', é um autêntico desafio, ficando a maior parte das vezes em estado de 'sítio', depois de me passarem as fúrias do primeiro impacto visual. Tudo isto para contar que agora, existem imensas pessoas que optam por ter dois gatos. Conheço várias. Com uma vida atarefada e ocupada com o trabalho a maior parte do tempo, o gato aparece como o animal mais 'óbvio' para quem vive sozinho, passa pouco tempo em casa e gosta de animais ao ponto de querer ter um. Eu, no entanto, sou suspeita, pois sempre gostei mais de gatos que de cães. São igualmente meigos, carinhosos, brincalhões, mas também são muito mais autónomos e independentes, faceta da sua personalidade que me agrada imenso. É que nunca gostei de pessoas e/ou animais extremamente carentes, não que eu seja uma pessoa fria - não é isso - mas gosto que até um simples animal não esteja completamente dependente de mim ao ponto de passar uma noite inteira a chorar - como acontece com um cão - se não o deixo dormir na minha cama, entrar para o quarto, ou ter de ficar sozinho em casa! Claro que deixar um animal sozinho é sempre difícil, seja ele um gato ou um cão, mas o gato, por saber lidar melhor com essa 'solidão' e por passar 90% do seu tempo a dormir, talvez não sofra tanto.

Quando decidimos ter um segundo gato, queríamos acima de tudo, dar um 'irmão' à Magali, alguém com quem ela pudesse brincar de forma a não se sentir tão sozinha. Eu notava no olhar dela, que por passar a maior parte do dia em casa, sem a minha companhia, andava deprimida (é verdade, os animais também sofrem). Foi mais ou menos nessa altura e depois dos meus sucessivos pedidos, que o C. trouxe para casa o Gaspar. Um presente de aniversário, que veio dentro de um caixote. O Gaspar era uma ternura em forma de bola de pêlo e com o tempo, transformou-se num enorme gatão, gordo e com uns irressístíveis olhos verdes. Mas sempre foi muito diferente da Magali, que apesar de brincalhona, sempre foi calma e sossegada, mas lá com o seu feitio 'especial'. Durante 4 anos foi a raínha e senhora da casa e de repente, eu coloquei cá dentro um 'intruso' para quem iam todas as atenções... durante uns tempos, a situação foi difícil de lidar e ainda hoje, continua a ser uma relação cheia de 'altos e baixos', consoante o humor da fêmea... (enfim, 'gajas'!!)

Hoje em dia as coisas acalmaram entre eles, se bem que ela de vez em quando tem ataques de fúria e ataca-o, mas ele nunca se dá por vencido durante muito tempo. É daqueles que não desistem e que chegam mesmo a tornar-se 'irritantes' por serem tão persistentes. Sempre de volta dela, prestando-lhe uma idolação cega, o Gaspar dá-lhe beijos, lambe-a, desafia-a para a brincadeira e acima de tudo, irrita-a! E ela gosta. Eu sei que gosta. Mas nunca se manifesta nesse sentido. Faz-se de difícil (como uma verdadeira senhora) e impõe o respeito, mas quando menos esperamos, é ela que o provoca, completamente excitada com as corridas loucas dele pela casa e com a sua personalidade 'spidada' e energia inesgotável.

Continua apesar de tudo, a reclamar imensa atenção. Adora festas, enroscar-se no meu colo, dar miados pieguinhas a pedir atenção, dormir aninhada num cobertor, ou sentar-se na mesa onde tenho o computador simplesmente ao meu lado (como está neste preciso momento). Eu sei que sou a sua 'mãe' e que ela me adora. A minha 'preta', como carinhosamente a chamo, foi o meu primeiro animal de estimação mesmo 'meu', quando tive a minha primeira casa 'mesmo minha'. O Gaspar é o oposto. Meigo, carinhoso, mas igualmente dependente e muito, muito enérgico (às vezes demais) é de uma vivacidade enlouquecedora e nunca pára muito tempo quieto no mesmo sítio. Adora andar debaixo dos nossos pés, entrar à socapa no nosso quarto, roer todas as minhas plantas, espalhar a água da tijela pelo chão fora e enrolar todos os tapetes, mas quando se enrosca e se sente confortável, agarra na cauda e chucha nela, como um verdadeiro bebé, até a mesma ficar completamente empapada em baba...

A vida nunca mais foi a mesma a partir do momento em que tivemos dois gatos. Claro que há coisas que se complicaram, como por exemplo, as férias, mas tudo se tem resolvido. A Magali adaptou-se à presença de outro elemento felino no apartamento, apesar de nem sempre continuar a lidar com isso da melhor forma, mas acho que até ela, mesmo não querendo dar a mão à palmatória, se sente feliz por tê-lo por cá.

domingo, fevereiro 17, 2008

coração alentejano


















Eram tantos os recantos românticos, os majestosos e convidativos alpendres, as cores fortes e apaixonantes, a beleza do tradicional revisitado, o romantismo e a paixão de cada detalhe, que sinceramente, nem sei por onde começar. A máquina (renovada e completamente operacional), disparou em todos os sentidos, tentando reter em imagens, aquilo que as pulilas dilatavam perante a beleza de semelhante local. O laranja forte entranháva-se na pele e a tranquilidade do sítio inspira-nos a relaxar e a apreciar a beleza da paisagem, a calmia e a paz de espírito destas planícies. A 'riscas', a carinhosa gatinha que percorria todo o monte com a certeza de que tudo quanto pisava lhe pertencia, vinha todos os dias dar-nos os bons dias, com um miado frenético e umas breves corridas, deleitando-se por fim com as festas que lhe fazíamos e sentando-se ao nosso lado, com aquela confiança e certeza de quem já é nosso amigo. O quarto em tons de azul, 'vêdere', proporcionou-nos sonos tranquilos e momentos românticos, onde nem a chuva e o vento que se fizeram sentir hoje pela manhã, quando acordámos, nos preocupou. Foram três dias magníficos, num sítio igualmente belo, que me fez sem dúvida ter a certeza de que há momentos de pura felicidade. Este fim-de-semana foi um deles.
Mais fotos, aqui.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

celebrate!


Dia muito positivo, a destacar:
- O ramo de flores silvestres - em tons verde e lilás - com que o C. fez questão de me presentear. (entre muitos outros mimos)
-Muito trabalho, mas igualmente boa disposição e bom ambiente. (mais dias destes é que é preciso)
- Véspera de fim-de-semana prolongado no Alentejo. (é já amanhã que partimos!!)
- Encontrei a minha velhinha câmara fotográfica no dia anterior a ir buscar a actual que já se encontra arranjada! (pelo menos ainda deu para tirar algumas fotos apesar de não terem ficado grande coisa. ando a perder o jeito)
- Jantar com os amigos, na comemoração dos 31 anos da L. (muito riso e histeria de grupo em uníssono)
- Confirmação médica de que estou oficialmente 'curada' do meu problema no cólo do útero! (a alegria do peso tirado de cima dos ombros)

Hoje, foi portanto, a comemoração de muitas coisas boas...



Weeeeeeee!!!


quarta-feira, fevereiro 13, 2008

one more day

A semana tem passado a um ritmo frenético e eu confesso que até gosto, pois prefiro mil vezes estar ocupada e mal ter tempo para me coçar, do que andar a inventar o que fazer. E esta semana com produções, making-offs, reuniões e afins, tem passado a voar! As notícias têm sido boas, pelo menos no que diz respeito ao meu trabalho, e ao que tudo parece, ganhámos mais uma conta onde fomos a concurso com mais outras agências. Ora, a particularidade de eu estar tão entusiasmada com a dita conta, deve-se ao facto de ser a account que irá trabalhá-la e isso confesso, motivou-me! entretanto, não sei se já tinha referido aqui, houve reestruturações internas ao nível das equipas e com as mudanças feitas, foi-me atribuída outra conta: de Spas! (fiquei maravilhada!) Por isso, até ver, as coisas têm estado favoráveis para os meus lados. Acho que para colmatar o aumento do volume de trabalho, e proporcionar uma motivação extra, um aumentozinho é que vinha mesmo a calhar! (nunca estiquei tanto o ordenado como actualmente... mas isso é outra história.)
Entretanto a minha chefe lá me deixou tirar a sexta-feira e a reserva na Herdade do Reguenguinho já está feita, pelo que se adivinham 3 dias de 'mini-férias' no Alentejo, apesar de as previsões meteorológicas preverem chuva... mas nem quero saber, quero apenas ir e descansar, passear, comer bem e namorar muito.
Entretanto amanhã, dia dos 'namorados', vamos comemorá-lo com um grupo de amigos. A L. faz anos e vamos todos conviver, no que promete ser um serão bem animado.
(e como sexta-feira não se trabalha, a noite promete!)

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Herdade do Reguenguinho















Pois é, já está marcada e eu comecei a bendita contagem decrescente! A nossa escapadinha romântica de 3 dias para celebrar a semana dita dos 'namorados' será para aqui.
A Herdade do Reguenguinho é em pleno Alentejo, perto da costa vicentina - como nós gostamos - e promete ser um local óptimo para retemperar forças e apreciar a calmia e a paz de espírito próprias da paisagem. Nós, somos suspeitos, pois amamos o Alentejo. Por nossa vontade já nos tínhamos mudado de malas e bagagens para estas planícies a perder de vista e feito algo do género: recuperar um monte e transformá-lo em turismo rural, mas vamos sempre adiando o sonho, demasiado presos que estamos à vida na cidade... quem sabe, um dia.
Por isso já sei que no próximo fim-de-semana (que para mim à partida, será de 3 dias pois já pedi a sexta-feira), o C. passará o tempo todo a suspirar com o coração meio apertado, por ver o sonho dele bem diante do olhos, mas a nossa vez parecer nunca mais chegar. Para mim, esta escapadinha terá cheiro a férias. É que ainda chegámos a fazer simulações para ir a Londres - que me anda atravessada na garganta há muito tempo - mas neste momento não podemos fazer grandes loucuras financeiras... e ir a Londres, mesmo que por 3 dias, significava gastar muito dinheiro. Por isso, ficamo-nos por Portugal, em ambientes de deleite como este, onde impera a beleza do natural e a política da tranquilidade e retemperamos forças, a dois.
Espero que a minha máquina já esteja 100% operacional, pois estou cheia de vontade de fotografar tudo o que mexe e o que não mexe.
O quarto também já está escolhido, será o vedere, em tons de azul marinho e inspirações árabes - a verdade é que já era dos poucos disponíveis tirando as suites - e eu, apesar de não ter no azul a minha cor favorita, terei certamente sonhos azuis e perfumados, debaixo do céu estrelado alentejano, onde as estrelas cadentes caem às dezenas por noite, sem pedir licença e onde eu me perco nos desejos pedidos.
Acho mesmo, que até já comecei a sonhar...




quinta-feira, fevereiro 07, 2008

pieces of me

Pois bem, a máquina digital continua avariada e eu continuo sem ter o meu 'apêndice' operacional. Confesso que acho um pouco estranho actualizar o blogue apenas com texto, sem ter nada de imagens para colocar, mas infelizmente, o tempo tem sido tão pouco, que nem tenho podido actualizar isto por aqui, por isso, durante uns tempos terá de continuar a ser assim, somente palavras. A verdade é que não sei onde coloquei a antiga e por isso, não a encontro e não tenho fotografado absolutamente nada. Entretanto fomos ao El Corte Inglés na segunda-feira, véspera de feriado, para irmos ao cinema, mas como chegámos cedo e ainda jantámos por lá, levámos a máquina para mostrar o que tinha acontecido e perguntar se a mesma tinha arranjo. Disseram-nos que à partida sim tinha, porque na realidade tinha sido apenas os cristais do ecrã que tinham partido, talvez devido a uma pressão qualquer (é o que faz andar com ela sempre na mala), mas que o arranjo da mesma se calhar iria custar tanto como comprar uma nova... vamos ver! De qualquer forma, teremos de a levar a outro sítio, ou seja, mesmo à marca, por isso espero que o C. a leve lá amanhã e que afinal as coisas se resolvam mais facilmente do que o previsto.
Entretanto, os contactos feitos com pessoas com ictiose vão de vento em poupa! Tanto, que amanhã, sexta-feira à noite, iremos todos jantar - pelo menos as pessoas que moram em Lisboa e arredores - para nos conhecermos. Confesso que estou um pouco ansiosa, mas também, receosa. Acho que amanhã seremos apenas umas quatro pessoas (realmente com a doença), mas acompanhadas pelos respectivos maridos e namorados. O C. vai comigo, nestas coisas, tenho um marido que gosta muito de conviver e que até acha piada a estas novas experiências em que o vou colocando. Eu confesso que acho piada e gosto que ele reaja assim, tão 'easy-going' e que isso também acaba por funcionar como um incentivo para continuar. A ideia do jantar surgiu um pouco de repente, de forma quase meio espontânea. Estava a falar na net com a C., uma rapariga praticamente da minha idade e que tem uma menina de 3 anos com o meu nome, quando ela disse:'gostava tanto de te conhecer. Temos de combinar qualquer coisa um dia destes' e como houve uma empatia tão grande entre nós, eu sugeri o jantar assim de forma meio louca e ela concordou logo! A partir daí foi enviar emails a todos os outros e perguntar se queriam estar presentes. As respostas não demoraram e toda a gente parece ter aderido à ideia, tirando uma ou outra pessoa que não pode estar presente por já ter planos feitos e por termos tido a ideia louca de combinar tudo assim em cima do joelho. Por isso, amanhã, lá nos vamos encontrar, na Pizzaria Capricciosa em Alcântara, para conviver, conhecermo-nos e trocar experiências de vida. Tem sido muito proveitoso falar com estas pessoas online. Não só porque falo com pessoas mais velhas que eu e com vidas diferentes da minha, como descubro que apesar de não as conhecer de lado nenhum, conseguimos ter conversas muito agradáveis e realmente úteis no que diz respeito ao assunto que nos une: a nossa pele.
Uma coisa que constato em relação às pessoas que tenho conhecido, é que aquelas que têm filhos, quase todas tiveram filhos saudáveis. A C. por exemplo, que é mãe de uma menina de 3 anos, tem uma filha perfeitamente saudável, e a A. que já é mãe de um rapaz de 23, idem... O que me faz constatar que no que diz respeito aos tais '50/50' de hipóteses de vir 'com' ou 'sem' a doença, é mesmo uma questão de sorte e de lotaria genética... mas pronto, não querendo ainda atirar-me de cabeça e pensar que há sempre essa boa possibilidade, irei tentar fazer até onde conseguir para tentar de futuro, conseguir garantir e salvaguardar a outra parte menos boa de ocorrer.
Outra novidade, é que hoje fui à médica da Cuf que me fez o exame do cólo do útero. Não pude ser examinada porque estou 'periódica', mas a consulta ficou marcada e adiada para a próxima semana. Entretanto, fiquei a saber os resultados da tipagem do vírus do HPV e infelizmente, eu tenho os piores e os mais perigosos de todos... apesar de à partida agora estar tudo bem, eles continuam cá no meu organismo e se não for regularmente vigiada corro sérios riscos de futuro de desenvolver um cancro do cólo do útero... mas pronto, confesso que neste momento não quero nem pensar nisso. Na próxima semana a médica irá examinar-me e provavelmente falaremos com mais calma sobre este assunto. Espero ficar esclarecida e ter boas notícias, mas sei que deste problema já não me consigo livrar até ao resto da minha vida... e pensar que andei durante anos a ser vigiada e a ir à médica ginecologista regularmente, a fazer papa-nicolaus que afinal, os resultados deram todos 'falsos negativos' e que o problema estava cá, mas que nenhum exame de rotina conseguiu descobrir... O que me vale é que tudo ainda foi descoberto e tratado a tempo e aparentemente, conseguimos livrarmo-nos do problema. Mas só na próxima semana saberemos se está mesmo tudo bem e se posso dormir tranquila durante uns tempos. Provavelmente esperam-me exames de rotina todos os 6 meses e uma vigilância apertada - um pouco à semelhança do que faço com o peito - mas isso é outra história... O que me faz constatar que para quem, como eu, ainda nem tem 30 anos, já começo a ficar com demasiados problemas de saúde para carregar pela vida fora...
De resto, no trabalho, tenho tido: muito trabalho! Parece uma contradição, mas as coisas têm andado agitadas e eu começo a ter mais responsabilidades, coisa que me agrada como é lógico e me dá um novo incentivo e estímulo, mas há dias que me apetece implodir o prédio todo e certas pessoas em particular.. ehehehe (eu e este meu mau feitio).
Ando cansada e a precisar de férias, mas espero na próxima semana conseguir fazer uma escapadinha de 3 dias com o C. e comemorar com mais calma a semana dita 'dos namorados', indo ou até à serra da Estrela, ou até ao Alentejo. Tudo irá depender da disponibilidade e de se ainda vamos a tempo de fazer reservas...

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

www.ictiose.blogspot.com

Tem acontecido algo maravilhoso nestas últimas semanas. Através do meu outro blogue, este, tenho conseguido dinamizar, escrever e até, informar um pouco sobre esta doença da qual eu sou portadora, e de que já por algumas vezes falei aqui, a Ictiose. Mas para além de tudo isso, tenho conseguido conhecer pessoas portuguesas que possuem o mesmo problema e que, tal como eu, anseiam por conhecer e partilhar experiências, vivências e trocar informação, de encontrar um espaço ou um grupo de outras pessoas, que saibam exactamente aquilo que elas estão a sentir sem de, para isso, terem de dar mais explicações... e a verdade é que já são várias as pessoas portuguesas que têm convergido até mim, dando-me ânimo para continuar com o blogue e entre muitas outras coisas, manifestando de que, finalmente encontraram alguém, que possui o mesmo problema que elas e sobre o qual podem falar. Confesso que nunca pensei que ao criar um simples blogue para falar de uma doença, conseguisse chamar a atenção de outros doentes que afinal, sentem exactamente o mesmo que eu! E tem sido maravilhoso constatar que tanto recebo emails de raparigas da minha idade ou mais novas, como de homens e de senhoras já mais velhas, mães de filhos quase com a minha idade, que me dão os parabéns e que mostram todo o interesse em continuar esta comunicação. Constato que sou uma espécie de 'bóia de salvação' para muitos, como se finalmente tivessem conseguido encontrar alguém que o compreende (e compreendo de facto), porque durante toda a vida nunca conheceram outra pessoa com o mesmo problema. Eu compreendo essas vivências todas. Muito bem mesmo, e sei que em cada pessoa há uma alegria autêntica em finalmente conhecer/falar com alguém 'semelhante'. Pode parecer quase irreal, mas é extremamente importante, tanto para eles, como para mim, estabelecer este contacto. Sinto-me verdadeiramente feliz de cada vez que recebo um novo email. Como se sentisse que este 'movimento' se expandisse, como se fosse algo que eu ansiei durante tanto tempo e que finalmente se revela. Que não estou só. Que somos muitos. Que sentimos e queremos todos o mesmo. Que temos todos histórias de vida diferentes mas que convergem todas no mesmo ponto.
Noto inclusive de que, de todas as pessoas que me têm contactado - algumas até do Brasil - possuo um conhecimento profundo da doença comparada com a maior parte. Existem muitas pessoas, principalmente portuguesas, que não chegam a saber sequer, que tipo de ictiose possuem, e que fogem a sete pés de ir ao médico. Eu compreendo e não julgo, pois sei bem o que é lidar com a ignorância médica neste assunto, tendo eu própria uns quantos episódios menos agradáveis para contar, mas noto que a maior parte se resigna, se deixa ficar, conformados com o destino que é ter de carregar esta doença no corpo. Eu confesso que não me conformo, nunca me conformei e talvez por isso, chegue à conclusão, que acabo por ser aos olhos de terceiros, esta tal 'bóia de salvação' de que falava atrás... O que não deixa de ser bom, mas que me deixa terrivelmente assustada.
À mais de uma semana recebi um mail de um senhor de 52 anos portador de Ictiose lamelar. Extremamente simpático e muito bem disposto, o 'Zé' como gosta de ser tratado, foi muito cordial na abordagem e pareceu-me de imediato uma pessoa muito positiva e dinâmica! Ele anda de bicicleta, ele pinta, ele toca guitarra, enfim, um verdadeiro homem dos sete ofícios. Mandou-me vários emails, quase todos seguidos, com fotos, falou-me da vida dele, da mulher, e mostrou-se bastante contente por finalmente ter encontrado uma pessoa com ictiose. Eu gostei de tudo o que li, mas no fundo, assustei-me! Gostei de receber os mails, ter o feedback, saber que existem pessoas com uma forma de ictiose bastante grave que conseguem ter uma vida normal e bastante preenchida, mas quando noto que a outra pessoa está a ir depressa demais, quase ansiando por mim, fico meio retraída e assustada, porque a verdade é que nunca sabemos quem é que está do outro lado quando o assunto é internet. De qualquer forma, respondi-lhe passados uns dias e fiquei a aguardar resposta. Ela não chegava, então hoje, decidi-me a anexá-lo no meu messenger e ver se ele aparecia online. À tarde ligou-se e meteu conversa, mas não sabia quem eu era. Quando finalmente lhe expliquei quem era, ficou tão feliz, que me confessou que quase teve vontade de chorar. Eu achei aquilo demasiado, mas depois penso: 'Será que estou preparada?' Bom, a verdade é que falámos um bocadinho no msg, eu sempre a tentar ser cordialmente simpática e ele sempre muito expansivo, muito 'prá frente', com uma confiança que quase me pareceu despropositada, mas depois penso: 'Calma, tudo vai correr bem, dá desconto, compreende o outro lado'. E lá me mentalizo de que, para alguém que teve 52 anos sem notícias de outro 'semelhante', é normal que essa alegria seja efusiva, autêntica, sentida.
Tem sido muito compensador trocar experiências de vida com todas estas pessoas, ver que aquilo que confiamos uns aos outros é não só, algo que nos une, como também uma forma de nos sentir vivos, de chegar à conclusão de que afinal, tudo isto faz sentido.
O mais fantástico no meio de tudo, tem sido constatar que a maior parte das pessoas mais velhas que possuem a doença e que já têm filhos, nenhum veio com a doença, algo que me intriga, devido às características da passagem genética e à forma como a mesma se manifesta. Quase todas as pessoas que me contactaram dizem não ter mais casos de ictiose na família, são portanto, casos 'unicos' de mutação genética e nem mesmo os descendentes são abrangidos pela mesma... Talvez isso signifique que nesta questão que é a 'lotaria genética', eu, caso não tenha oportunidade de fazer qualquer tipo de tratamentos, consiga ter à mesma o tão desejado filho saudável... mas pelo sim pelo não, e porque nunca tive muita sorte ao jogo, mais vale não remediar e jogar pelo seguro, mesmo que isso signifique ficarmos completamente desfalcados na nossa poupança...
O resultado do meu teste genético deverá estar pronto em inícios de Março e se formos a ver bem as coisas, já estamos em Fevereiro (é incrível como o tempo corre)... pode ser que a minha sorte esteja realmente a mudar... e mesmo que não esteja, acho que neste momento, já poucas coisas me assustam verdadeiramente.
Porque a verdade é que a vida tem-se encarregado de me mostrar que para onde quer que me vire, tenho imensas coisas boas em meu redor.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

The same, as usual...

Continuo engripada.
Continuo sem máquina fotográfica digital.
Continuo com um humor canino.

Como podem ver, não há novidades de interesse a relatar da última semana.
Continua tudo na mesma. Nada mudou.
Pode ser que o fds de Carnaval inverta esta tendência.

domingo, janeiro 27, 2008

adeus

A minha máquina digital continua morta e eu continuo com uma gripe 'daquelas', com o corpo dorido, a gargante cheia de dores, entupida em comprimidos... enfim, uma lástima. Passei o fds todo de 'molho', em casa, pois a saída de sexta-feira à noite para comemorar os anos do R. deixou-me assim, péssima! Foi giro, diverti-me muito, ri-me mais ainda, comi maravilhosamente bem num restaurante alentejano, desfrutei do novíssimo e fashion bar 'Manga Rosa' em Almada, mas ia mal agasalhada, e esqueci-me que estamos em Janeiro e que mesmo que os dias já cheirem a Primavera, as noites são frias e estamos no Inverno. Resultado? uma mega gripe, que me parece ainda não ter passado ao segundo e pior grau.
Ainda não tinha contado aqui a continuidade da história Diane. Não percebo o que se passou com ela e fico extremamente triste por ver que este silêncio dela é propositado. A semana passada apanhei-a ligada no messenger. Depois de lhe ter enviado 3 emails a perguntar se estava tudo bem e de não obter uma única resposta, decidi enviar-lhe um sms para o telefone. O silêncio continuou a ser sepulcral e eu fiquei ainda mais baralhada com a atitude dela. Decidi então bloqueá-la no messenger e ver se desta forma, aparecendo eu offline na lista de contactos dela, ela se manteria ligada. E para meu espanto, assim foi. Enquanto que antes a Diane aparecia e rapidamente se colocava offline, a partir do momento em que eu a bloqueei e aparecia como desligada, ela passava horas na net. Tive aí a prova de que ela não queria mesmo falar comigo. De qualquer forma decidi confrontá-la com o assunto e num desses dias, em que ela estava online na net e eu a vê-la, desbloqueei-a e meti conversa com ela. Falei, falei, falei, perguntei se estava tudo bem, porque motivo é que ela não falava comigo, o que eu é que tinha feito para ela me evitar daquela maneira? porque é que ela estava a agir assim? E ela nada. Nem uma única vez me respondeu. E agora pergunto-me eu, porquê? se nem eu sei a resposta!!! A última vez que falámos estava tudo bem! lembro-me perfeitamente! Cheguei mesmo a pensar se algo de mau lhe teria acontecido, a pensar se teria perdido o bebé, se estava num momento de reclusão em que não queria falar com ninguém, mas quando vi a foto dela no msg, percebi que não era esse o motivo, pois a barriga dela estava enorme, o que me faz imaginar que estará no 6º ou 7º mês de gestação.
Perante o silêncio dela, decidi despedir-me. Não vou andar atrás de uma pessoa que se fez passar por amiga, mas que afinal se revelou uma desilusão, principalmente quando deixa de me falar sem me dar uma justificação. Porra, eu recebia-a em minha casa! Andei a passeá-la por Lisboa durante dois dias, pagámos-lhe jantares, entrou no meu espaço mais privado e agora, só porque conseguiu engravidar, deixa de me falar? Sinto-me profundamente magoada. A sério que fico. Até porque, o comportamento 'incómodo' em relação a esse assunto, partiu sempre dela, nunca de mim! Quantas vezes lhe disse que estava feliz por ela e que queria saber mais coisas da gravidez dela, viver com ela esse momento?! Mas afinal constato que as minhas suspeitas estavam certas, que ela apenas se socorreu da minha pessoa enquanto isso não acontecia, que eu fui apenas e só uma amizade de 'encosta o ombro e chora as tuas mágoas' enquanto ela passava pelos tratamentos e lidava com as respostas negativas, porque a partir do momento em que isso deixou de acontecer, ela desprezou-me, como o faz e como continua a fazer. E isso, magoou-me profundamente. Por isso, nas mensagens que lhe deixei no msg aproveitei para me despedir e desejar boa sorte, para ela, para o Tom e para a bebé que vem a caminho e que eu nem sei quando é suposto nascer.
Dizem que perdoar e querer bem ao próximo, é a maior prova de maturidade e de crescimento pessoal enquanto ser humano. Eu não desejo mal à Diane, mas sinto-me profundamente magoada e triste. Porque sei que se fosse ao contrário, nunca lhe faria algo semelhante. Nunca deixaria de lhe falar sem um motivo, sem lhe dar uma simples explicação. Esse tipo de coisas é o pior que me podem fazer, mas volta e meia, acontece-me. Confesso que tento relativizar as coisas e pensar que a entrada da Diane na minha vida teve um propósito - tento desesperadamente encontrar uma explicação mais racional - de que a presença dela serviu para que eu própria encontrasse o meu caminho, seguisse o meu rumo, e isso já aconteceu. Ela seguiu o dela, eu sigo o meu, separadas, a muitos quilómetros de distância. Com a interrogação a perseguir-me de se ela alguma vez foi realmente minha amiga...

sábado, janeiro 26, 2008

perda

A minha máquina digital morreu. Assim, sem pré-aviso, e sem chegar a ter, sequer, dois anos de idade. Ontem, quando me preparava para fotografar momentos felizes, entre amigos, deparei-me com um ecrã negro - mesmo quando ligada - queera trespassado a meio com um traço, cuja continuidade se traduzia em riscas e cores tutti-fruti que não auguravam nada de bom.
Sinto-me perdida sem a minha máquina fotográfica. É como se me tivessem levado parte de mim.

domingo, janeiro 20, 2008

retalhos de um fds e dos idos anos 90...

Outro fds que passou demasiado rápido... principalmente quando sexta-feira estive a trabalhar até às 22h30, num evento da marca. Cheguei a casa estafadíssima, com o polegar cortado e enrolado num penso já empapado em sangue, e os pés inchados e em forma de 'batata' - por causa dos sapatos de salto que me complementavam a indumentária - desejosa por um fds que tardava em chegar. O C. teve a delicadeza de encomendar uma pizza para eu ter o que comer quando chegasse a casa, mas confesso que vinha tão cansada e desejosa pela minha cama, que até o apetite perdi. Esparramei-me no sofá, bufando de cansaço e apregoando a minha sorte, aspirando por um descanso merecido que tardava em chegar, ou uma vida idílica de paz e sossego que não possuo. Começava o meu desejado descanso de dois dias.
Dois dias em que não tenho de conviver com as pessoas com quem trabalho, em que não tenho de aturar neuras, nóias, fobias, faltas de formação, ou sequer, ser simpática ou educada com quem não o merece. Dois dias em que abrando o ritmo e me deixo invadir pelo doce sabor da preguiça e da letargia. (como ando necessitada de férias, é só o que eu penso...)
No sábado decidimos aproveitar o sol quase primaveril que se fazia sentir e ir até à beira-rio. Adoramos comprar o jornal e ficar numa esplanada a beber o primeiro café do dia, comendo tostas mistas e sumos de laranja. É um ritual que nos dá imenso prazer.Vagueámos por Lisboa, entretidos entre coisas que tínhamos para fazer até à hora do jantar, altura em que decidimos experimentar o New Wok no Chiado. Um espaço de cozinha de fusão, com apontamentos de comida japonesa, tailandesa e vietnamita, num espaço minimalista mas confortável, ao som de Moby (pelo menos foi o que tocou enquanto lá estivemos). Há quem o compare com o Nood, mas eu, muito sinceramente, acho que não tem comparação possível. O Nood é barulhento, demasiado amplo, demasiado exposto, sentamo-nos no meio de outras pessoas com uma sensação de desconforto, de 'desculpe por estar a incomodá-lo', só queremos é sair dali, comer o mais rápido possível e desaparecer daquele ruído de fundo que transporta dezenas de conversas, de risos, de música, ou desviar o olhar das paredes de cimento e dos ténis expostos. Ansiamos por paz visual e auditiva e isso, eu acho que conseguimos no 'New Wok'. Um ambiente sereno, mais pequeno e acolhedor, uma montra que nos mostra a rua cálida àquela hora da noite, a beleza do Chiado escondida por entre prédios abandonados. Os raviolis ou (gyoza) são excelentes - atrevo-me a dizer que melhores mesmo que os do Assuka - com uma massa super tenra e fofa e as espetadas de camarão com molho de mel também não ficaram atrás. Experimentámos ainda os noodles e o chá verde. Foi bom, foi rápido, voltaremos certamente.
A melhor experiência do dia, foi sem dúvida, nas compras - aproveitando ainda o resto da temporada de saldos enquanto ela dura - onde, numa loja, quando ia pagar uma mala que decidi comprar, a vendedora - uma miúda nos seus 'quase vintes', muito gira, alta, magra como uma gazela e de longos cabelos escuros - me diz em tom extasiado: 'Ai a sua carteira é tão gira! Eu queria uma igual mas já não consegui comprar! E que bem estimada está!' Ao vê-la tão efusiva, decidi meter conversa, sorrir-lhe e desabafar uma insegurança feminina, dando a entender que adorava a mala que ia comprar, mas que tinha receio quanto à cor, pois não tinha muita roupa que condizesse com a dita. Ela sorriu-me, tranquilizou-me - dizendo que ia comprar uma também para si - e falou dos avanços de temporada que tinham acabado de chegar à loja. 'Este ano é tudo grande, demasiado grande, até os anéis. Eu não sou capaz de andar com uma coisa destas.' E, dito isto, sacou de um enorme anel azul marinho que estava num expositor e colocou-o em cima do balcão. Ao ver aquele objecto saltou-me imediatamente à memória a minha juventude, em que usei anéis exactamente como aquele, que agora via em cima do balcão. Aquele anel não me era estranho, tive um assim, em transparente, outro de cores, havia-os para todos os gostos, formas e tamanhos. Lembro-me de ter um em forma de laço. Sorri-lhe, aproveitando aquela cumplicidade feminina - enquanto o C. permanecia calado, a observar toda aquela cena de histerismo feminino perante acessórios, que o deixa sempre severamente intrigado - e desabafei: 'Estes aneís já foram grande moda nos anos noventa! Houve uma altura em que toda a gente tinha pelo menos um. Havia destes anéis em todas as cores e assim, igualmente grandes.' Pronto, com este meu comentário, estraguei tudo. A rapariga, outrora tão simpática, tão prestável, tão sorridente, fechou-se. Olhou-me de uma forma estranha e apenas emitiu um: 'Ai foi?' Como se os 'anos 90' fossem uma coisa que aconteceu há muito tempo, há muitos anos, era ela ainda uma criança...
E com este comentário, paguei a mala e fui embora, enquanto ela arrumava o grande anel de acrílico azul, dizendo, 'Sabe como é, este mundo da moda é sempre um revivalismo' e o C. me dizia:'Bela maneira de te chamar velha'.
Não me ofendeu nadinha, antes pelo contrário, achei piada dizer com um saber de experiência feito, sem ser ofensivo ou provocador, dar uma de 'guru' da moda que já viu muita coisa.
Afinal, dez anos, são uma vida. (para muitos)

quinta-feira, janeiro 17, 2008

conto VII

Ele dera-lhe o canivete para a mão como quem entrega um brinquedo. ‘Toma, é para ti’ - dissera-lhe - e ela contemplou aquele objecto metálico, pequeno e aguçado com espanto e ignorância. Não sabia muito bem o que aquilo significava nem o que fazer com ele. Chegou mesmo a sentir-se indignada, como se fosse um despropósito tal oferta. ‘O que faço com um canivete?’, pensou para com os seus botões. O pai, que estava ao seu lado e tinha presenciado a cena, explicara-lhe que era um canivete ‘suíço’, enfatizando esta última parte, como se tal informação fosse uma mais valia, como se isso contribuísse para aumentar a importância da oferta e da atenção que era suposto ela lhe dar.
Guardou-o, fechando-o na palma da mão pequena, remetendo-o para o fundo do bolso do casaco, cheia de dúvidas e indagações sem resposta. Sorriu para não parecer tão incomodada com a situação, ou ingrata. Receber um canivete ia contra tudo o que lhe tinham ensinado, ‘Não se brinca com instrumentos cortantes’, ‘Não mexas em facas’, ‘Não passes os dedos pelas lâminas’, ‘Olha que te cortas e faz sangue’ e por isso, todos aqueles cenários, embora imaginários, lhe pareciam demasiado horríficos, demasiado perigosos, demasiado tentadores para serem sequer, desafiados. E agora, assim do nada, ser ele a dar-lhe um canivete, que ainda para mais tinha, não só uma, mas várias lâminas, algumas finas, aguçadas como escarpas, outra em forma de espiral que ela desconhecia para o que servia, uma tesoura, uma lima e um abre-caricas, deixou-a severamente intrigada. Para que servia tudo isso se, supostamente, lhe era proibido brincar com ele? Não compreendia como o poderia incluir nos seus cozinhados fictícios com tachinhos de plástico e panelas de alumínio, que transportavam inofensivamente, pedras, terra, água e até, legumes e vegetais que ela sorrapiava à socapa da cozinha da mãe, como preciosidades únicas para preparados que roçavam a genialidade. No entanto, o pai nada dissera e até, consentira o gesto, partilhando uma cumplicidade que se espera óbvia, mas que ela não conseguia perceber na sua totalidade. Pensou por breves momentos, se seria um daqueles rituais de iniciação que ela já tinha lido no Atlas lá de casa e que sabia existirem em algumas tribos do Pacífico e da África Equatorial. Estaria ela preparada para semelhante prova? Qual seria a próxima etapa? E porquê um canivete? Porquê? Quando na realidade ela preferia que ele lhe tivesse oferecido uma boneca, onde ela pudesse fazer longos e prolongados penteados, ou até, um relógio de pulso e a pilhas, daqueles como tinha visto recentemente na irmã da Paula, que emitiam sons estridentes e que ela punha propositadamente a tocar deixando-a lívida de inveja. Mas um canivete? Para que lhe servia um canivete? Se ainda tivesse nascido rapaz, talvez achasse alguma graça à oferta, conseguindo imaginar as demonstrações audazes de poder que um canivete – ainda para mais suíço – conferia, mas assim, menina, coquete e semi-feminina, não conseguia entender o motivo.
Do bolso do casaco, colocou o canivete na gaveta da sapateira da entrada, um móvel de mogno escuro, pesado, maciço, que tinha como função ser o fiel depositário de tudo aquilo que, à primeira vista, não fosse substancialmente importante. Achou que seria o lugar mais adequado a um objecto que, no seu entender, não podia augurar coisa boa. Mesmo que tivesse o consentimento e a aprovação do pai, ela não queria tê-lo por perto, nem incluí-lo nas suas brincadeiras, mesmo quando andava que nem um cavalo bravo pelos bosques durante horas a fio. Colocou-o ali e esqueceu-se dele. Não perdeu mais tempo a pensar no assunto. Não queria entender o porquê de um canivete - embora no fundo se questionasse - mas por agora, naquele instante, só lhe apetecia abandoná-lo, livrar-se do perigo que ele lhe transmitia, das lâminas cortantes e duplas, do medo que sentia ao sabê-lo ali, tão perto da carne. O canivete ficou esquecido, refundido na gaveta do móvel da entrada que continuava impenetrável à passagem do tempo, ao ritmo das horas e das emoções que abalavam e percorriam a casa, desamparado entre os demais objectos igualmente inúteis e dispensáveis às necessidades vigentes. Passaram-se dias, meses e anos, que trouxeram consigo as mudanças físicas próprias da idade, mas também da evolução natural das coisas. Tinha chegado a hora de partir para algo melhor, de abandonar aquele lar que durante anos a acolhera, sendo necessário todo o trabalho de empacotar, seleccionar, escolher, arrumar, levar, fechar. Por entre o pó dos livros que retirava das estantes, ou da roupa que se acumulava em quantidades dignas de loja em época de saldos em cima da cama, lembrou-se do móvel da entrada, da tralha e bugigangas que durante anos ali colocara como um eterno guardião do templo. Apetecia-lhe vê-las, mexê-las, recordá-las, torná-las visíveis aos olhos e claras à mente. Correu a abrir a velha gaveta que se encontrava agora emperrada, dificultando a tarefa de chegar ao objectivo pretendido. Foi então que o viu, ao canivete, esquecido e embrulhado entre fios que passaram de moda, lenços com desenhos de cavalos que a mãe nunca mais se atreveu a pôr ao pescoço, ou porta-chaves enferrujados que jaziam como um espólio adormecido. Foi então que percebeu no mais intímo do seu ser e sorriu, dizendo baixinho, ‘Obrigado avô’.

terça-feira, janeiro 15, 2008

love is a losing game

Não tenho actualizado o meu blogue com muita frequência, porque na realidade, ando sem vontade de o fazer. Às vezes tenho destes momentos. Em que prefiro guardar para mim tudo aquilo que me preocupa do que colocá-las aqui, como se o simples facto de as mencionar fosse uma espécie de infortúnio que pode desencadear a maior reacção de azar em cadeia. Como se o simples facto de partilhá-las com terceiros as tornasse vulneráveis. Como já referi o início do ano começou logo cheio de novidades, com a ida ao centro de genética clínica para nova recolha de sangue/extracção de ADN. Pagámos bastante por um simples frasquinho de sangue. Nele vão parte das nossas magras economias e grande parte das minhas esperanças. Deposito nele todas as frustrações, mágoas, tristezas, renovações de esperanças, confianças e alegrias pelo qual lutei neste último ano, mas que sei serem tão vãs e pouco palpáveis, quanto os sonhos e objectivos que idealizo. Mesmo havendo uma pontinha do meu peito, lá num cantinho refundido, que me diz que tudo vai correr bem, percorre-me um medo terrível, maior que eu mesma, de que afinal, tudo corra mal outra vez e de já não ter muitas forças para me voltar a erguer ou sequer, acreditar. Toda a gente me diz que não vale a pena sofer por antecipação mas eu não consigo fazer esse exercício de personalidade. Bem tento, mas sofro mais em ‘tentar não ser assim’, do que efectivamente, em sê-lo.
Outra coisa que também tem contribuído para uma certa inquietação é o comportamento da Diane. A verdade é que a Diane desde que descobriu que está grávida se afastou. E por mais que eu tente que isso não aconteça, noto que ela quer que assim seja, como se a minha presença a incomodasse, ou, como se a minha presença ou passagem pela vida dela, apenas fosse isso mesmo: uma passagem. Confesso que este comportamento dela me entristece profundamente. Mas cheguei à conclusão de que não vale continuar a procurar respostas a uma pessoa que não as quer dar. A última vez que falei com ela foi antes do Natal. Na altura, já não falávamos há uns bons tempos e eu notei que ela me evitava. Quando finalmente a ‘apanhei’ no messenger sem que ela se colocasse offline, confrontei-a com o assunto. Disse-lhe que notava que ela me andava a evitar e que isso me deixava magoada. Perguntei-lhe inclusive se tinha feito ou dito algo que a tivesse chateado. Disse-me que não, mas que não andava a saber lidar com o facto de estar grávida e de eu não estar, e que evitava falar nesse assunto para, segundo ela, me poupar a ‘tristeza’. (o que eu odeio que as pessoas me subestimem…) Na altura disse-lhe que para mim, era mais dificil saber que ela me evitava e não partilhava nada comigo da sua gravidez – que eu tinha acompanhado o quanto ela tinha batalhado para conseguir esse objectivo – do que colocar-me de parte agora, que efectivamente, o tinha conseguido alcançar. Na altura disse-lhe mesmo que sentia que apenas tinha servido para ser ‘companheira de mágoas’ e agora, que ela tinha conseguido aquilo que desejava há longos anos, eu tinha deixado de fazer sentido na vida dela. Ela disse-me que não, de maneira nenhuma, mas afinal, depois dessa conversa, constato que é mesmo disso que se trata. A verdade é que já enviei 3 emails à Diane, um deles contando-lhe o resultado da minha biópsia à pele e do novo diagnóstico, de ictiose bulhosa, tal como ela e que isso significava novo teste genético, novas esperanças e novas possibilidades no meu caso… mas ela, nada… também lhe enviei um email a desejar Feliz Natal, outro a perguntar se ela estava bem… e ela nada… já tentei meter conversa com ela no messenger, mesmo que offline – porque noto que ela todos os dias se liga e imediatamente se coloca offline – e ela nada… por isso, desisto. Desisto de tentar chamar a atenção dela, de lhe demonstrar que a amizade dela é-me importante, de que me preocupo, de que quero continuar a tê-la presente na minha vida. Sinto-me muito farta de dar sempre mais de mim aos outros do que os outros me dão a mim, como se tivesse de andar a mendigar atenções, ou a demonstrar a todos e a rodos, o quão gosto deles, o quanto me preocupo. Geralmente quando dou um voto de confiança às pessoas, espero que elas retribuam. Já nem digo na mesma medida, pois tenho consciência de que tenho tendência a ser bastante absorvente, mas quando me desiludem, sinto-me tão atraiçoada e retraio-me de tal forma, que me é muito difícil voltar a ser a mesma. Nisso sou muito escorpiana não posso negar. Eu dou tudo, mas assim como dou, também tiro. Até já pensei se estaria a fazer juízos de valor errados em relação à rapariga – o que me faz sentir uns certos remorsos de consciência confesso – mas, tal como diz uma amiga minha, o que quer que seja que se esteja a passar, não é motivo (acho eu), para ela me ignorar desta forma. Principalmente quando se trata de uma pessoa que não trabalha e passa o dia em casa…
Por isso, sinto-me profundamente triste com esta atitude dela e prometi a mim mesma que não enviarei mais nenhum email, nem direi mais nada enquanto não obtiver um sinal. Nem que para isso tenha de a bloquear no messenger – coisa que já fiz – só para ter a certeza de que quando ela me quiser falar, me envia um mail. Mais não seja em resposta aos vários que ela vai acumulando na sua caixa postal e que esperam por um ‘reply’.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

back to black

O meu recente e último vício é ouvir Amy Winehouse até à exaustão. O cd desta miúda de 24 anos, com um corpo cheio de tatuagens de mau gosto e a roçar a anorexia, com nuca cheia de postiços que desafiam as leis da gravidade, voz rouca e poderosa a fazer lembrar as grandes divas da soul, é simplesmente genial. Não me ocorre mais nenhuma outra palavra para descrever. E desde que o C. mo ofereceu que não oiço outra coisa. Desenvolvi aquilo que uma amiga minha descreveu como uma ‘Amy Winehousite aguda’, porque oiço a rapariga no trabalho, no ipod, no carro, em casa, vejo o dvd do concerto em Londres e faço buscas na net e no You Tube. A verdade é que as vozes negras me fascinam. Mas a miúda é branca. E a sua atitude em palco e perante a vida, está mais perto do estilo punk e drug addict dos anos 90, do que propriamente das divas da Motown dos anos 50. No entanto, é lá que ela vai ‘beber’ a inspiração das músicas que se revelam neste segundo álbum. Amy tem aquela característica do ‘dont´give a shit’, mas com talento maior que a própria vida. Uma voz forte e demasiado poderosa para se ficar indiferente, mesmo que em palco vejamos uma Amy que mal se aguenta em pé, com um discurso desarticulado em que predomina a palavra ‘fuck’, ou de olhar completamente vidrado. Às grandes estrelas tudo é permitido? Bom, eu não partilho totalmente dessa opinião, mas confesso que ela me atrai tanto quanto me repugna. Aquela voz de bagaço misturada com um ar de decadência total, fascina-me. Invejo talentos naturais. Invejo mesmo e não tenho qualquer pudor em afirmá-lo. Se fosse música queria escrever e cantar assim. Queria aquela voz imparável, cheia de requebres, que lhe sai com tanta naturalidade como a bebida que ela ingere em tragos generosos e que parece ser a única coisa que a liga a este ou outro mundo.
A continuar assim, está a meio caminho de se tornar imortal, mesmo que seja pelos piores motivos.
Mas eu continuo que nem uma viciada a ouvi-la.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

my new orange couch



















Este fds não saí de casa. Depois de ter tirado o dia de sexta de folga para ir tirar sangue ao centro genético da parte da manhã – onde paguei 1120 euros – só pela realização do estudo e envio para Antuérpia, (buáááááá) e de à tarde, ter ido a uma entrevista, o Sábado e o Domingo foram para a mais pura ronha. Ainda saímos na sexta à noite, para ir ao cinema ver o segundo filme ‘O tesouro – o livro dos segredos’, mas o restante fim-de-semana, foi passado no mais puro conforto do lar. Tudo porque recebemos o nosso novíssimo sofá cor de laranja com chaise long – aquele que já aqui tinha falado, do Ikea – e portanto, passámos boa parte do Sábado a desmontá-lo dos caixotes onde vinha e a montá-lo no novo espaço. O problema começou quando retirámos o estrado da chaise long do caixote e reparámos que o tecido que forrava a mesma, estava rasgado e que, para além disso, faltava uma das molas. Tal incidente levou-nos logo a ligar para o serviço de apoio a clientes da loja a reclamar da situação. Tínhamos acabado de pagar o transporte para nos virem entregar o sofá a casa e assim que o desempacotámos, ele apresentava defeito. Ao telefone disseram-nos que a entrega de substituição de um novo estrado ficaria restringida a um novo dia, mas que se quisessemos ir à loja, seria efectuada na hora. Lá foi o C. no meu carro para o Ikea, com os bancos rebatidos e debaixo de chuva, para chegar lá e constatar que afinal, o sofá, assim como o respectivo estrado, estavam esgotadíssimos, pelo que só nos resta aguardar que nos comuniquem quando é que terão novos estrados. Veremos como é que esta história se desenvolverá. Pelo sim pelo não, tirámos fotos do estado da coisa, para provar a nossa reclamação.
No entanto e como não há data prevista à vista de quando teremos novo estrado, montámos o sofá com aquele que tínhamos. O resultado é uma sala com uma percepção completamente diferente da anterior, devido à ligeira distribuição das coisas. O espaço de sofá é gigantesco – comparado com o que tínhamos – e os gatos adoram – quem os quer ver agora é a apanhar banhos de sol vindos directamente da janela. Acabaram-se por isso as ‘discussões’ territoriais pelo maior quinhão de sofá, já que no novo, ficamos tão distantes um do outro e com um espaço tão grande no intermédio, que é quase como se estivessemos em ilhas diferentes. À tarde, tive a visita da minha amiga G., que eu já não via há meses, e que apareceu lá em casa de surpresa e ontem, Domingo, dia em que o C. foi trabalhar, refastelei-me no dito sofá laranja, rodeada pelo Gaspar e pela Magali e vi assim, de uma vez só, cerca de dez episódios seguidos da primeira temporada dos Sete Palmos de Terra – série que só agora comecei a ver - e que me fez apaixonar logo pelo conceito.
Agora resta-me aguardar notícias – porque a vida é feita de expectativas, de renovações e de esperanças - e neste momento sinto-me como se estivesse com formigueiro nos pés - mas nos entretantos, lá me vou alegrando com o universo em meu redor.

ps- A 'mancha' preta na segunda foto, é mesmo a minha gata 'tartaruga', de seu nome Magali. Tão linda, de olhos cor de coruja, que já elegeu aquele, como o seu novíssimo sítio preferido.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

I'm a Superwoman...




...sou, eu sei que sou... e a prova disso, é ir, amanhã, logo bem cedinho, fazer nova recolha de ADN para novo estudo genético, tendo desta vez como diagnóstico base a Ictiose Bulhosa. Se não fosse a minha investigação incansável sobre o assunto, a minha acesa troca de emails com médicos estrangeiros, a minha insistência, a minha perseverança, a minha casmurrice, a minha teimosia, nada disto seria possível. O resultado só será conhecido em Março, mas pode ser que desta vez - só para conseguir dar descanso a este meu coração sobressaltado - corra tudo bem.

Desculpem-me a falta de modéstia, mas confesso sentir-me bastante orgulhosa de mim mesma, por ter conseguido alcançar esta etapa tão importante e fundamental de um longo e moroso processo. Nada é garantido é certo, e o resultado genético pode voltar a ser negativo e a mutação não ser encontrada, mas só o facto de ter conseguido provar que sempre me fizeram diagnósticos errados e ter esta nova oportunidade, só me enche de mais coragem para continuar.

Eu canto com a Alicia, porque eu sei que sou uma 'Superwoman. Yes I am.'

terça-feira, janeiro 01, 2008

de 2007


















2007 não foi um ano fácil, pelos muitos episódios que já aqui relatei e pelas desilusões a que fui posta à prova. Talvez, por isso, não espere demasiado de 2008, apenas o suficiente para me sentir bem e feliz. Não nego que tenho planos e sonhos e desejos para 2008, mas a euforia que me invadiu o ano passado por esta altura não existe. Existe apenas e só, uma confiança meio parva, meio tonta, quase naïf, feita de ingenuidade e esperanças vãs, que ainda me fazem acreditar que no final, e como diz a minha amiga M., 'corre sempre tudo bem'.




quinta-feira, dezembro 27, 2007

nepalês - jantar de Natal

Para aliviar um pouco a pressão natalícia e porque os amigos, os verdadeiros, são como se fossem família, decidimos juntarmo-nos ontem, no rescaldo da festa, para um jantar convívio seguido de troca de prendas e amigo secreto. O local escolhido foi um nepalês que costumamos frequentar pelo menos uma vez por ano – o ano passado celebrei lá o meu aniversário – em Alcântara. O ambiente é pequeno mas acolhedor, o senhor nepalês (julgo eu que seja nepalês) que nos serve, é sempre bastante simpático e extremamente prestável e a mesa que nos calha, é quase sempre a mesma, por ser precisamente a mais comprida e aquela que fica próximo do balcão e de passagem para as casas de banho lá do sítio. Geralmente deliciamo-nos todos com as chamuças e o cheese nan que pedimos nas entradas. Para mim, é mesmo o melhor do jantar, se bem que o batido de manga também não estava nada mal. Já o R. é fã dos cigarros indiano/nepaleses com que nos brindam no final da refeição – perante recusa de todos, que simplesmente os abominam – a mim então dão-me uma azia que nem a digestão faço direito. Já ele, contente e satisfeito, aproveita para comprar logo dois ‘packs’, a um euro cada, que lhe duram uma eternidade. O restaurante abarrotava de gente, o que me faz deduzir, que todos devem ter tido a mesma ideia que nós e procurado algo exótico que fizesse esquecer as calorias e fritos dos últimos dias. (a minha cara é bem mostra disso, com borbulhas gigantes a quererem mostrar toda a sua força e pujança!) Falámos sobre o Natal e o Ano Novo, com algumas sugestões que não me agradaram, pelo que, suponho que, ou ficarei por casa, ou adquiri gostos demasiado requintados (e burgueses) que já não acompanham os demais. Também há a hipótese de estar demasiado cansada para grandes festanças – acho que é mesmo mais isso…
Recebi um livro de máximas, para ler com calma e reflectir sobre uma série de coisas, já eu, dei ao meu amigo secreto, um conjunto de chávenas do Gato Preto, lindíssimas, com efeitos de art-deco, numa caixa preta com arabescos brancos, que me foram baratíssimas. Confesso que até eu gostava de ter umas para mim. Cheguei a casa passava da meia noite, cansada, com sono e desesperada por não encontrar lugar onde estacionar no bairro! (mas será que ninguém foi de férias nesta altura?) Hoje, ainda dei um pulinho ao shopping para ver se as lojas do costume já estavam de saldos, mas além de isso ainda não ter acontecido, tive o azar de, em todas as lojas que entrava, despertar os alarmes, fazendo com que fosse o centro dos olhares de toda a gente e corando de vergonha. Afinal, descobri que a razão de semelhante engano era um cachecol que ‘roubei’ ao C. hoje de manhã, e que pelos vistos, ainda deve ter um código de barras qualquer activado, apesar de já não ser novo. Resignada com a minha sorte, desisti da saga de ‘lamber lojas à hora do almoço’ e fui, juntamente com uma colega, tomar café à esplanada da rua e apanhar um pouco de sol. Ao menos ali, não tinha de abrir a mala para provar a minha inocência, nem disfarçar o rubor que me subia pelo rosto.
Máxima do dia: Roubar o que quer que seja - mesmo que do marido - dá sempre mal resultado.





quarta-feira, dezembro 26, 2007

espírito natalício


















O Natal acabou. Felizmente. Confesso que não sou uma pessoa que prima pelo espírito natalício, e perdoem-me os demais, que adoram esta altura do ano. Natal para mim é sempre sinónimo de grandes stresses, grandes fretes – só porque é Natal e tem de ser – de grandes despesas e de grandes canseiras. E este, mais uma vez, não foi excepção, com a agravante que tivemos de repartir a nossa presença por duas casas, duas viagens, e de tentar agradar a gregos e a troianos. Irrita-me tudo no Natal, o espírito consumista, a hipocrisia das pessoas, o ‘pseudo amor familiar’ - quando passam a maior parte do ano a cortar na casaca e a dizer mal uns dos outros - e os nervos que apanho para conseguir coordenar tudo, comprar tudo, fazer tudo…
Este Natal não tive a presença da minha família, apenas a dele, e talvez tenha sido por isso, que tudo me custou ainda mais. Na segunda-feira, quando parti de casa dos meus pais, seguindo direcção à terra, desatei num pranto como há muito tempo não tinha. Não consegui evitar. Ainda tentei pôr os óculos de sol, tentar que o C. não percebesse, mas nada feito. Fui apanhada em flagrante e não houve como disfarçar.
Estive o tempo todo quase sempre calada. Senti que estava ali por uma questão de obrigação familiar mais do que por vontade. Senti-me descontextualizada, saturada, cheia de vontade de regressar à minha casa, ao meu canto, ao meu sofá, à minha cama.
Ontem fizemos a viagem de regresso toda debaixo de uma chuva contínua, forte, grossa como bagos de uva. Chegámos ao final da tarde. Foi pouco o tempo para descansar e refazer das emoções dos últimos dias. Hoje quase ninguém veio trabalhar. A maior parte ficou em casa a empanturrar-se com os restos dos fritos, das fatias paridas, das filhozes, dos cuscurões. Deixei tudo em casa da minha sogra. Não quero resquícios do natal entranhados no corpo. Já chegou enquanto durou.






sexta-feira, dezembro 21, 2007

paranormal

Ontem fui ao teatro. Deram-nos bilhetes aqui na agência e eu aproveitei logo, porque neste momento, são raras as vezes que tenho oportunidade. A peça era ‘Paranormal’ do Joaquim Monchique, onde o mesmo interpreta sozinho, mais de 16 personagens. Foi engraçado, mas confesso que achei o texto demasiado longo e um pouco repetitivo. Eu, que fiquei sentada logo na primeira fila – lugar que devia de ser considerado um privilégio – já não tinha posição que me valesse e muito menos espaço para esticar as pernas. Mas ainda soltei umas boas gargalhadas, mais não fosse pela genialidade da interpretação, pela encarnação dos personagens sem mudança de indumentária e sem qualquer tipo de adereço, pelo monólogo vastíssimo, pela cumplicidade que muitas vezes sentimos perante o actor, ou as vezes em que o mesmo se ri de si próprio. Foi um serão bem passado, apesar do frio que se fazia na rua, do trânsito caótico - que me fez demorar mais de 40 minutos para chegar ao teatro Mundial – e o facto de, ter um senhor de idade sentado atrás de mim, que mandava piadas em voz alta e fazia comentários que o próprio julgava muito engraçados, para toda a plateia ouvir. (estava capaz de o linchar)
O que me leva a dizer que gosto do Monchique. Gosto mesmo.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Contos VI



















Era uma rapariga de ideias fixas. Pequena mas enérgica, nada escapava ao seu raciocínio rápido e certeiro. Durante o dia, corria desenfreadamente, dando liberdade à sua curiosidade quase felina, ao seu jeito natural de explorar o mundo que a rodeava. Gostava de sentir-se liberta, com o vento a bater-lhe na cara, os cabelos desgrenhados, as pernas expostas ao sentir dos elementos que, quase sempre, mostravam as mazelas física de uma natureza demasiado revolta, demasiado intensa. Via-se cristalinamente, como se numa gargalhada, transportasse retalhos fabulosos que, indefinidos, lhe saiam da garganta em forma de raios de luz, leves e soltos, bailando ao som da sua voz infantil. Possuía a doçura típica dos anos feitos da ingenuidade natural, o calor do sorriso exposto no olhar, transporto para o peito, aberto para a beleza dos dias que lhe corriam como o sangue nas veias. Era uma pequena menina feliz, de aspecto franzino mas de grandes e pronunciados olhos, não mais evidentes que a sua boca delicada e delineada, como um esboço de lápis de carvão, com leves toques fumados de ínfima irregularidade. Por detrás deste devaneio de pura beleza, escondia-se um apetite voraz que geralmente passava despercebido aos olhos de terceiros. O sabor do açúcar mascavado preenchia as suas delícias mais profundas, o motivo pelo qual todos os dias e sorrateiramente à noitinha, retirava da última prateleira do armário por cima do fogão, o pequeno e bojudo frasco de vidro onde, aquela areia dourada reluzia como ouro e, em sôfregas colheradas, a consumia à boca cheia, deixando apenas pequenas e furtivas migalhas pendentes sobre a bancada que denunciavam a sua presença. Quase sempre era apanhada. Não no momento, mas após a satisfação da gula, geralmente no dia seguinte, por uma mãe irritada que tentava a todo o custo não tornar a filha numa lontra faminta com apetite de predador. Ela escutava, indiferente, com olhos de pecadora e a língua fechada dentro da boca de porcelana, sentindo ainda os resquícios do açúcar a percorrerem-lhe o corpo.
Mas nada, nem o doce sabor amarelo, a fazia suspirar de tentação como a leve e proibida farinha láctea que a mãe raramente lhe dáva a provar. Esse manjar, requintado, quase profano, estava confinado a ocasiões especiais – que quase sempre – nunca estavam relacionadas com a sua pessoa. Nos breves momentos em que presenciava o cheiro, sentia que perdia o juízo, as forças fraquejavam, inebriada que ficava com semelhante odor, imaginando a riqueza da consistência, a mistura do leite quente com o toque molhado e macio daquela textura rugosa. A última vez que lhe sucedera semelhante episódio, foi quando receberam em sua casa, a visita tia Teresa e esta, acabada de ser mãe havia pouco mais de sete meses, levou consigo uma enorme caixa de farinha láctea que servia de alimento ao seu pequeno rebento chorão. Como o peito havia secado logo cedo, não restava outro remédio à tia Teresa, senão socorrer-se da sagrada farinha para alimentar o Manelinho como uma verdadeira e bem tratada criança merece: cheia de gordos refegos e pregas visíveis a olho nu, que encontravam contraste com a pele da barriga, macia e saliente, tal como um pequeno e estaladiço leitãozinho. A visita da tia Teresa durou dois dias, o espaço de um breve fim-de-semana, que para ela, lhe pareceu uma tortura maquiavélica, quando à hora da refeição, lhe presenteavam canja de galinha com massa e à sua frente, preparavam o repasto daquele minúsculo ser que ainda nem sabia dar valor ao verdadeiro néctar que lhe escorria garganta abaixo. Invejava-o. Queria voltar a ser pequenina para, só assim, poder desfrutar novamente daquele sabor celestial. Nada feito. Nunca, em situação alguma, a sua mãe e a sua tia, a deixaram sequer, aproximar-se do fumegante prato de papa, ou tão pouco, lamber o resto pendente da colher que, diariamente, ficava esquecida na pia e que ela, tentava desesperadamente esconder no bolso do bibe de padrão vichy azul escuro, que a mãe, em tempos, lhe tinha feito com restos de tecido de uma velha toalha.
A sorte pareceu mudar no final desses dois torturantes dias. A tia Teresa, agitada pelos inúmeros sacos e malas do Manelinho que tinha de transportar até à estação, arrumou tudo apressadamente, deixando a famigerada caixa de papa em cima da bancada da cozinha. Ela observava a tia e, entre si, rezava desesperada, para que a pressa se sobrepusesse ao esquecimento, fazendo com que o brilho metálico da embalagem da farinha láctea, acabasse por ficar ofuscado pelas fraldas, biberões e brinquedos do primo nas agitações próprias das partidas não programadas. Assim aconteceu, inundando-a da sensação triunfante que a vida nos revela nos pequenos momentos. Agora, podia calmamente delinear o seu plano e esperar, voltar a sentir, o prazer morno daquela desgustação quase imaginária.
Nos dias que se seguiram à partida da tia, tentou desesperadamente abrir a caixa metálica, que por ser nova e com pouco uso, possuía uma força anti-natura que exigia demasiado esforço do seu corpo lingrinhas e esgalgado. Todos os dias, à noitinha, passava horas a contemplá-la, esquecendo-se por completo do açúcar mascavado e imaginando o seu conteúdo, ou a forma como chuparia os dedos lambuzados, um por um, não desperdiçando nem uma única gota de leite. Tentou desesperadamente abri-la por todas as formas que conhecia. Socorreu-se das mãos, apertou-a, encaixou-a no corpo, debruçou-se sobre ela num verdadeiro esforço motriz, enquanto os seus pequenos e miúdos dedos a comprimiam e o rosto se contorcia numa expressão de dor. Nada feito. Imperceptível e inflexível, a caixa metálica continuava a deter a farinha láctea como um tesouro bem guardado só revelado a alguns merecedores.
Enlouquecida, farta, mas ainda não totalmente resignada, socorreu-se daquilo que de melhor tinha, o verdadeiro motivo de tamanha vontade, daquela gula sôfrega e ansiosa, daquele palpitar que já não conseguia controlar e, num acto de fúria quase animalesca, cravou a sua boca feita de traços vãs de artistas, na embalagem metálica que não acusou semelhante pressão.
Apenas os dentes se partiram, não aguentando a missão que os esperava.