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sábado, março 06, 2010

all that you can leave behind

Ontem, depois de uma tarde de maratona cinematográfica - mesmo no cinema!! - decidimos aproveitar o facto de ter deixado a Madalena com os meus pais até Domingo, para, em seguida, jantarmos pelo Bairro e comer um bife 'à bicha'.
Ontem também foi o dia em que uma amiga minha de longa data fez anos. E eu, que tenho andado arredia e magoada com todos eles, decidi pôr o meu orgulho de lado e ligar-lhe. Não falávamos desde Novembro embora eu vá sabendo uma ou outra coisa por terceiras pessoas ou por aquilo que consigo perceber pelo facebook onde a tenho adicionada.
Quando liguei a surpresa do outro lado foi sentida e imediatamente a resposta dada foi:
'Mafalda, nem acredito que me estás a ligar'.
Fui de poucas palavras porque estava emocionada. Faço-me sempre de durona mas depois sofro imenso e com coisa pouca ou nenhuma, os outros, conseguem desarmar-me sempre.
Lá acabámos por revelar que estávamos em Lisboa, que iríamos jantar ao Bairro e que, em seguida, íamos para os copos. Foi então que nos disse para aparecermos na Bica, onde iriam estar todos juntos a partir da meia-noite. Mais uma vez fiquei sentida. Se não fosse o facto de eu ligar, ninguém me diria nada. Combinam-se copos da Bica com quem é de Almada, mas Ericeira já são muitos quilómetros a mais da ponte sobre o Tejo.
O jantar entre nós dois correu bem. Bebemos martinis e vinho tinto, voltei a fumar uns cigarritos depois de uma longa semana de abstinência, como se quisesse descontrair da ansiedade que me dominava e, estava feliz, mas curiosa por ir revê-los a todos.
Chegámos à Bica antes de toda a gente e a mesma estava vazia. Decidimos ir até ao miradouro do Adamastor ver o Cristo-Rei, a ponte 25 de Abril e Santos ao fundo, entre ruelas e luzes foscas. O Noo-Bai já estava fechado e nós, depois de uns 20 minutos, voltámos a fazer o caminho inverso até ao sítio combinado. Quando chegámos demos de caras com todos, tinham igualmente, acabado de chegar. Não houve nenhum tipo de surpresa nem reacção na cara dos amigos que outrora considerei amigos. Cumprimentaram-me como se fosse uma estranha ou uma pessoa acabada de conhecer. Aliás, atrevo-me a dizer, que se fosse uma estranha acabada de conhecer, tinham sido mais simpáticos. Não falaram comigo uma única vez, não perguntaram pela Madalena em nenhum momento. Eu e o C. ficámos meio estupefactos e sem saber muito bem o que estávamos ali a fazer. As pessoas que estiveram no meu casamento, no baptizado da minha filha, que conhecem a minha família e eu conheço as suas, com quem passei férias e vivi no estrangeiro, com as quais estudei durante 4 anos, que conheço há perto de 15 anos, agiram como se fôssemos invisíveis. Ignoraram-nos e deixaram-nos meio de lado, enquanto conversavam em círculos de 3 e 4 deixando-nos automaticamente de fora.
Senti-me mal. Sentimo-nos mal, os dois.
A única que ainda se esforçava por nos 'encaixar' por assim dizer, e fazer algum tipo de conversa connosco, era a própria da aniversariante, mas até ela estava confusa e já sem assunto.
Foi tão triste de assistir quanto lamentável. Ao fim de 20 minutos, mais ou menos, decidimos que não estávamos para aturar aquilo e viemos embora. Dei um beijo nela e nem me despedi de mais ninguém. Acho, sinceramente, que ninguém se importou por irmos embora tão cedo ou lamentasse a nossa falta. Ontem, percebi, preto no branco, que os meus amigos já não são os meus amigos, que a minha vida já não se cruza com a deles, que eles não sentem a minha falta como eu, por vezes, sinto a deles, logo, não tenho de ficar magoada com as atitudes deles porque as atitudes deles são fiéis àquilo que eles se tornaram e que ontem pude observar.
Ñão vou negar que eu própria não tenha culpa na situação, mas ontem, aquilo que vi, a indiferença com que nos trataram, a forma como nos fizeram sentir, foi a gota de água. Foi como uma cena de um filme, nítida e em câmara lenta, quando a protagonista descobre que afinal estava errada e que acabou de perder o amor da sua vida.
Não sei quem está certo ou errado e, sinceramente, não quero perder tempo a tentar perceber. Desde que a minha filha nasceu e que saí de Lisboa que fui completamente excluída da maior parte dos jantares, das comemorações, das saídas, até de um simples telefonema. Posso-os ter a todos como friends no messenger, no gmail chat ou no FB, mas nem uma única vez aquelas almas se dignam a dizer-me um 'olá' ou a perguntar 'como estão'.
O C. ficou furioso apesar de não o manifestar verbalmente. Apenas deixou sair um 'serviu para abrir os olhos' e veio calado o resto do caminho. Eu, mesmo tendo vontade de chorar por dentro, não derramei uma única lágrima enquanto a rádio passava 'All that you can leave behind' dos U2.
As peças encaixavam-se todas. Era a vida a sorrir-me.
Preciso de levar estes coices duros para voltar a reagir.