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domingo, agosto 15, 2010

Fomos de férias e já viemos. Foram, chamemos-lhe, umas 'espécie' de férias, com Madalena a fazer birras por tudo e por nada: para andar nas maquinetas junto aos cafés, por querer andar na rua, por não querer estar sentada à mesa nos cafés e restaurantes, por não deixar os seus pais estarem sentados à mesa dos cafés e restaurantes, por não querer sair da água, por não querer sair da praia, por estar aborrecida, porque sim, porque não, por quase tudo e quase nada...
Foram 5 dias de 'stress', onde os nossos horários foram ditados por ela e em detrimento dela, onde as horas de lazer e descontracção foram poucas, onde as saídas estiveram quase sempre condicionadas pelos seus horários, pelo seu sono e pelo seu humor. Foram férias mas não souberam a férias, fizemos praia, mas ao mesmo tempo 'não fizemos' praia, estivemos no Algarve mas nem vi o Algarve, saímos à noite mas não saímos à noite.
Acho que quem tem filhos, em algum momento das suas vidas, acaba por ter este sentimento. Eu tenho-o, confesso, e de forma frequente. O sentimento de me sentir oprimida, oprime-me a maior parte do tempo, ou melhor, sufoca-me. Anda a sufocar-me e não devia. Até porque, como diz o pai desta casa, temos uma filha saudável que, apesar de nos dar muito trabalhinho, não deixa de ser uma criança, com todas as birras e desejos e vontades não compreendidas que lhe competem e próprias da idade.
O pior é que me sinto injusta e castradora a maior parte do tempo. Tempo esse que não volta atrás e um dia, vou acordar e pensar, nostalgicamente, que tenho saudades da minha menina pequenina, ou do tempo em que ir com ela de férias era um stress e uma pilha de nervos mas em que estávamos, efectivamente, todos juntos. Um dia, eu hei-de querer que ela vá de férias comigo e ela será a primeira a torcer o nariz e a sentir-se oprimida e, nessa altura, sentirei o vazio e a solidão a dizerem-me "olá" acenando-me o companheirismo.
Confesso que tenho inveja dos programas divertidos e glamourosos de quem não tem filhos, das saídas nocturna, dos jantares e das conversas fora de horas, das decisões ao sabor da vontade, sem limitações de qualquer espécie, mas também me tento lembrar daquela altura em que olhava os jovens pais de primeira viagem e me sentia num planeta à parte, como se ser mãe fosse algo me que estava vedado. E é nesse sentimento que tenho de me lembrar e é nesse desejo, que foi tanto, de ser mãe e de ter um filho que me tenho de centrar.
Porque como diz um provérbio chinês: "Cuidado com aquilo que desejas. Pode tornar-se realidade."
O meu tornou e agora, cabe-me a mim saber viver e lidar com ele, não como um entrave, mas como uma mais valia na minha vida.
Ser mãe mudou radicalmente a minha vida, impôs-me uma paragem própria, em termos pessoais e profissionais, deu-lhe um novo rumo e direcção, mas também me fez ficar mais perdida no meu 'eu', desejos e vontades. Apesar de aos poucos as coisas começarem a entrar nos eixos, eu ainda não me sinto alinhada, nem tão pouco convencida, mas vou aprendendo a viver com isso da melhor maneira que sei e posso, mesmo que haja muitos dias em que me sinta uma verdadeira besta.

quarta-feira, julho 07, 2010

Dor

Tenho pensado muito nas pessoas que passaram e andam pela minha vida. Falo de amizades, sim, mais uma vez. Isto tudo porque ando a sentir-me sozinha e meio vazia.
Posso ter o meu marido e a minha filha - e eles são tudo para mim - mas também sinto muita falta de ter amigos por perto, de sentir que, de uma forma ou de outra, sou importante para eles, que lhes faço falta. E, neste momento, não tenho ninguém. Sinto falta de tudo e de todos, sinto que não sou verdadeiramente importante para ninguém e questiono-me, muito, se o erro é meu, se tenho as atitudes certas, se sou demasiado intransigente ou egoísta - onde a única prejudicada sou apenas eu - se sei manter uma amizade.
Não sei onde errei, ou o que aconteceu, mas nunca me senti tão só de pessoas, de amigos. Na realidade, os dedos de uma mão chegam para contar o número dos que, de momento, se consideram MESMO amigos e com os quais posso contar. Sejam amizades recentes, antigas ou casuais, o sentimento generalizado que tenho é dúbio: ou não sei ser amiga, ou não me sei dar aos outros.
Durante anos tive amigos que julguei serem verdadeiros amigos e hoje, vejo fotos deles todos juntos e eu não estou, ninguém me disse, ninguém me contou... e sinto uma tristeza tão grande cá dentro, mesmo daquelas de provocar dores fininhas que nos corroem e minam a alma de ciúmes que prefiro não ver, não saber.
Posso até ter 'amigos' novos, mas questiono-me muitas vezes se essas novas pessoas, - que passam pela minha vida - poderão ser consideradas de 'amigas', ou se é, apenas e só, o meu desejo de sentir que pertenço a algo, - nem que seja pouco palpável, irreal e mais inseguro que um baralho de cartas suspenso - a falar.
Sinto-me só, muito só e dói.

segunda-feira, maio 24, 2010

diz que vão acabar com os portageiros...

...já a partir de Junho! E agora, como é? Se a Brisa vai rescindir contrato com 1200 trabalhadores/portageiros e substituir os mesmos por máquinas, como é que eu vou arregalar os olhinhos a caminho de casa, depois de um dia de trabalho, se não vejo o ' meu Adónis' que todas as semanas recebe o ticket e me deseja 'Boa viagem'? Humm?!?
Está mal!! Está muito mal! Acho que vou escrever uma carta à Brisa a queixar-me que nos habituam a um serviço de 'qualidade' e que depois, não basta já a malta pagar todos os dias a chulice de 4,20€ só para fazer uns míseros 20 kms (de ida e volta), como ainda nos tiram o único 'bombom' associado ao mesmo...
Mais 1200 pessoas para o desemprego, é o que é... Este país vai de mal a pior.
Outra coisa que ultimamente me fez ficar fula da vida é a questão do IRS ir aumentar já a partir do mês de Junho... Ora, se aquando da minha contratação me engaram em relação ao meu ordenado e eu já ganho menos do que aquilo que esperava (bem menos) e se, a partir de Junho, o valor que desconto para o IRS ainda será maior... bom, não tarda nada, mais vale ficar quietinha em casa e não gastar perto de 500 euros por mês em portagens e gasolina para ir e vir trabalhar, porque senão, qualquer dia, ainda tenho é de pagar para trabalhar! E dar graças a Deus por isso...
E depois aumenta tudo: a creche da miúda, a renda da casa, a água, a luz, o gás, o telefone, o pão, os bens mais essenciais, mas os ordenados estão cada vez mais magros, mais reduzidos e exigem à classe mais desprovida de poder de compra os maiores sacrifícios, retiram-nos o 13º mês, comem-nos parte das regalias, não usufruímos de nada: temos um serviço de saúde de merda, um abono de merda, creches de merda, regalias do estado de merda...
Confesso que nunca pensei ver Portugal assim e digo, com a reinvindicalista que há dentro de mim, que tenho medo, mesmo muito medo de onde isto vai parar. Assusta-me a ideia de uma guerra a nível europeu, por exemplo - num cenário mais extremista e fantasioso - e assusta-me ainda mais ter uma filha pequena a crescer num ambiente incerto, onde a mãe possui um trabalho precário sem qualquer tipo de salvaguarda e o pai, apesar de fixo, não pode dizer que de hoje para amanhã não será demitido. Porque já não há empregos seguros e porque sem um nome de família sonante, uma herança que nos garanta cunhas e um lugar confortável resultante do status adquirido, somos uns 'zés ninguéns', povo esquecido e resignado à sua condição mais insignificante.
Sim, tenho uma alma esquerdista muito forte dentro de mim. Cada vez mais.

quinta-feira, maio 20, 2010

curtas

  • O tempo tem sido pouco porque ando absorvida por trabalho e quando não ando, estou tão cansada que nem me apetece vir aqui escrever o que quer que seja. À noite, quando chego a casa e já depois de ter deitado a miúda, só quero a minha cama e dormir, nem ligo o computador. Acabaram-se os serões em redor do portátil e as horas intermináveis no facebook até às tantas da madrugada. Não dá, não consigo, basta-me fechar os olhos que adormeço em segundos.
  • O ambiente na agência tem dias, mas é, de um modo geral: MAU. A semana passada o senhor director regressou do estrangeiro - depois de um mês quase de ausência - e colocou logo a casa toda em rebuliço. A gritaria era tanta, que andava tudo à beira de um ataque de nervos. Em dois dias, duas megas discussões com dois colegas, mas mesmo daquelas baixo nível onde, entre outras pérolas, apelidou as pessoas de 'deficientes' e mandou-as para 'o raio que as parta'. É bonito de se ouvir, não é? (NOT) Eu fico sempre chocada com estes actos e gestos, principalmente por parte de quem chefia uma casa. Acho de uma prepotência sem limites, de uma falta de respeito pelos colaboradores, pela equipa que afinal, mete todo o seu negócio de pé, mas isso de nada parece valer sobre quem tem de ter sempre a última palavra mesmo que seja pelos piores motivos. Só digo isto: se fosse comigo, não teria a passividade que os meus colegas tiveram. Acho que me passava e rodava a baiana da mesma maneira histérica e descontrolada com que ele o faz. Podia ser despedida na hora, (era-o de certeza absoluta), mas vinha de alma lavada, porque mesmo sendo patrão, não tolero faltas de respeito. Que critiquem o meu trabalho, que digam cobras e lagartos sobre a minha competência, mas o insulto puro e duro, só porque 'acha que pode', comigo não resulta.
  • Por causa disso, tive dias em que só me apetecia dizer que me ia embora e que não estava para tolerar isto. Aliás, estou aqui há quase 2 meses e já foram despedidas umas 4 pessoas, além da rodagem de entra e sai - algumas pessoas nem 2 semanas cá estiveram - nos entretantos... Por isso, 2 meses meus aqui, uau, já está a ser a loucura! Mas pronto, há dias melhores e outros piores e nada que uma boa noite de sono não resolva. Há dias em que faço um esforço tremendo para estar aqui e outros em que penso: 'olha, ao menos estás a trabalhar, vai aguentando'. E pronto, assim se vão passando as horas.
  • Apesar de tudo ando a mandar cv´s e a tentar fazer contactos, mas isto está tudo menos fácil e as respostas não têm sido positivas, mas a esperança é a última a morrer.
  • As colegas são estranhas, pouco simpáticas e algumas um pouco falsas... Já começo a perceber quem é que empurra sempre trabalho para quem, quem se descarta e quem só é simpático comigo quando lhe é conveniente, além dos 'lambe-botismos' típicos de qualquer organização que se preze.
  • Tenho saudades de trabalhar em bons ambientes, de ter colegas porreiros, de saber que fora do trabalho posso, por exemplo, ir beber uns copos com eles, como acontecia nos meus primeiros anos de trabalho... queria muito regressar à imprensa e tenho feito contactos nesse sentido. Não tem dado em nada, mas acredito que vou conseguir! O pensamento positivo faz maravilhas... (ou assim espero).
  • E pronto, com estas me fico, que já devia de estar a caminho de casa - ou melhor, entalada no trânsito infernal com que me deparo todo o santo dia - para ir ter com a minha 'ferinha' júnior e tentar encontrar um pouco de paz longe daqui...

quarta-feira, maio 12, 2010

desabafo curtinho

Acho que envelheci uns dez anos (no mínimo) em mês e meio de trabalho.

Depois aprofundo, porque o tempo é-me cada vez mais escasso.

sábado, março 06, 2010

all that you can leave behind

Ontem, depois de uma tarde de maratona cinematográfica - mesmo no cinema!! - decidimos aproveitar o facto de ter deixado a Madalena com os meus pais até Domingo, para, em seguida, jantarmos pelo Bairro e comer um bife 'à bicha'.
Ontem também foi o dia em que uma amiga minha de longa data fez anos. E eu, que tenho andado arredia e magoada com todos eles, decidi pôr o meu orgulho de lado e ligar-lhe. Não falávamos desde Novembro embora eu vá sabendo uma ou outra coisa por terceiras pessoas ou por aquilo que consigo perceber pelo facebook onde a tenho adicionada.
Quando liguei a surpresa do outro lado foi sentida e imediatamente a resposta dada foi:
'Mafalda, nem acredito que me estás a ligar'.
Fui de poucas palavras porque estava emocionada. Faço-me sempre de durona mas depois sofro imenso e com coisa pouca ou nenhuma, os outros, conseguem desarmar-me sempre.
Lá acabámos por revelar que estávamos em Lisboa, que iríamos jantar ao Bairro e que, em seguida, íamos para os copos. Foi então que nos disse para aparecermos na Bica, onde iriam estar todos juntos a partir da meia-noite. Mais uma vez fiquei sentida. Se não fosse o facto de eu ligar, ninguém me diria nada. Combinam-se copos da Bica com quem é de Almada, mas Ericeira já são muitos quilómetros a mais da ponte sobre o Tejo.
O jantar entre nós dois correu bem. Bebemos martinis e vinho tinto, voltei a fumar uns cigarritos depois de uma longa semana de abstinência, como se quisesse descontrair da ansiedade que me dominava e, estava feliz, mas curiosa por ir revê-los a todos.
Chegámos à Bica antes de toda a gente e a mesma estava vazia. Decidimos ir até ao miradouro do Adamastor ver o Cristo-Rei, a ponte 25 de Abril e Santos ao fundo, entre ruelas e luzes foscas. O Noo-Bai já estava fechado e nós, depois de uns 20 minutos, voltámos a fazer o caminho inverso até ao sítio combinado. Quando chegámos demos de caras com todos, tinham igualmente, acabado de chegar. Não houve nenhum tipo de surpresa nem reacção na cara dos amigos que outrora considerei amigos. Cumprimentaram-me como se fosse uma estranha ou uma pessoa acabada de conhecer. Aliás, atrevo-me a dizer, que se fosse uma estranha acabada de conhecer, tinham sido mais simpáticos. Não falaram comigo uma única vez, não perguntaram pela Madalena em nenhum momento. Eu e o C. ficámos meio estupefactos e sem saber muito bem o que estávamos ali a fazer. As pessoas que estiveram no meu casamento, no baptizado da minha filha, que conhecem a minha família e eu conheço as suas, com quem passei férias e vivi no estrangeiro, com as quais estudei durante 4 anos, que conheço há perto de 15 anos, agiram como se fôssemos invisíveis. Ignoraram-nos e deixaram-nos meio de lado, enquanto conversavam em círculos de 3 e 4 deixando-nos automaticamente de fora.
Senti-me mal. Sentimo-nos mal, os dois.
A única que ainda se esforçava por nos 'encaixar' por assim dizer, e fazer algum tipo de conversa connosco, era a própria da aniversariante, mas até ela estava confusa e já sem assunto.
Foi tão triste de assistir quanto lamentável. Ao fim de 20 minutos, mais ou menos, decidimos que não estávamos para aturar aquilo e viemos embora. Dei um beijo nela e nem me despedi de mais ninguém. Acho, sinceramente, que ninguém se importou por irmos embora tão cedo ou lamentasse a nossa falta. Ontem, percebi, preto no branco, que os meus amigos já não são os meus amigos, que a minha vida já não se cruza com a deles, que eles não sentem a minha falta como eu, por vezes, sinto a deles, logo, não tenho de ficar magoada com as atitudes deles porque as atitudes deles são fiéis àquilo que eles se tornaram e que ontem pude observar.
Ñão vou negar que eu própria não tenha culpa na situação, mas ontem, aquilo que vi, a indiferença com que nos trataram, a forma como nos fizeram sentir, foi a gota de água. Foi como uma cena de um filme, nítida e em câmara lenta, quando a protagonista descobre que afinal estava errada e que acabou de perder o amor da sua vida.
Não sei quem está certo ou errado e, sinceramente, não quero perder tempo a tentar perceber. Desde que a minha filha nasceu e que saí de Lisboa que fui completamente excluída da maior parte dos jantares, das comemorações, das saídas, até de um simples telefonema. Posso-os ter a todos como friends no messenger, no gmail chat ou no FB, mas nem uma única vez aquelas almas se dignam a dizer-me um 'olá' ou a perguntar 'como estão'.
O C. ficou furioso apesar de não o manifestar verbalmente. Apenas deixou sair um 'serviu para abrir os olhos' e veio calado o resto do caminho. Eu, mesmo tendo vontade de chorar por dentro, não derramei uma única lágrima enquanto a rádio passava 'All that you can leave behind' dos U2.
As peças encaixavam-se todas. Era a vida a sorrir-me.
Preciso de levar estes coices duros para voltar a reagir.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

"when you try your best but you don´t succed"

E ao fim de duas semanas veio a resposta.

Negativa.

E com ela se foi a pouca auto-estima residente e a esperança de começar a trabalhar no início de Março.

domingo, janeiro 31, 2010

da entrevista

Correu bem. Foi muito descontraída, cumprimentaram-me como se fosse da casa, com dois beijos na face - algo que me deixou logo desconsertada confesso, não estou habituada a tanta intimidade com a entidade patronal - fizeram piadas e trataram-me por 'tu', eu tratei-os igualmente por 'tu', apesar de muitas vezes me saltar um 'você' e utilizar a terceira pessoa com mais frequência do que aquilo que devia. Andei ali numa indefinição verbal enquanto tentava aparentar um ar calmo e descontraído. A primeira parte correu muito bem, falei do meu percurso profissional, das escolhas, onde estive, o que fazia, por onde passei, porque saí, a segunda parte correu nem sei bem como, quer dizer, não correu mal de todo, mas as perguntas começaram a ser mais pessoais, a irem para o âmbito dos gostos, das leituras, dos filmes que via, das coisas que me despertavam a atenção, do que gostava e a cada pergunta uma branca invadia a minha mente, como se eu fosse um poço sem fundo e sem nada de revelante para, de repente, lá me lembrar de qualquer coisa e dizer, não muito convicta, levando-me novamente a outro extenso e árido deserto.
"Que livros tens como referências?"
E eu a agonizar, sem me lembrar de uma única referência, para de repente, me sair da boca como uma seta o nome: "Miguel Torga. Adoro Miguel Torga, tanto em poesia como em prosa. É uma grande referência minha enquanto escritor e Saramago, embora não goste de todas as obras, mas é um escritor que aprecio. Da juventude destaco a poesia de Florbela Espanca, que foi sem dúvida uma referência importante para mim numa determinada altura da minha vida, Eça de Queirós e Marion Zimmer Bradley, pelas histórias fantásticas que escrevia." - E depois fiquei a pensar, mas quem é que dá o nome da Marion Zimmer Bradley como referência de juventude?! Ninguém!! Burra! Mil vezes burra! Não me lembrei de escritores tão importantes como um Gabriel Garcia Marquez, ou o Mário de Sá Carneiro, nem nada de nada. Nop. Só disse clichés! Só dei respostas que qualquer pessoa podia dar, como se viessem servidos em latas de fast-food. Confesso que só me apetecia cortar os pulsos de tanta vergonha.
"Muito bem... então e filmes? Que filmes gostas de ver e/ou são referência para ti?" - E novamente outro deserto, este ainda pior que o anterior, uma branca gigantesca que me turpava até a vista, as mãos a suarem e embargadas uma na outra e eu sem me lembrar de nada para de repente, desta boquinha, sair apenas isto:
"The Motorcycle Diaries é uma referência para mim... o Orgulho e Preconceito... os filmes do Quentin Tarantino... os do Woody Allen... algum cinema alternativo" - e ali fiquei, a agonizar, sem me conseguir lembrar de filmes que me tenham marcado, quando tenho alguns que para mim são, APENAS e SÓ, os filmes mais importantes da minha vida! Não mencionei o 'Little Miss Sunshine', que é simplesmente genial e 'O' meu filme favorito, nem sequer o 'Eternal Sunshine of the Spotless Mind', que é outro que está no 'Top 5', ou o 'Fabuloso Destino de Amélie Poulin', não fiz referência aos filmes do Almodovar, de quem eu sou fanzérrima, com as suas cores, mulheres e gritarias de alguidar, ou sequer e mais recentemente, o 'Julie & Julia'...
Sou tão estúpida senhores, tão estúpida.
E ele, olhava para mim meio desconcertado, esfregava as mãos na cara e com um ar gozão voltava à carga: "Muito bem, então agora dá-me seis ideias para reportagens/matérias diferentes das demais".
E lá começava o meu coração outra vez a bater que nem um cavalo desenfreado e desvairado, a névoa branca a apoderar-se novamente do meu cérebro do tamanho de um amendoím, a tensão arterial a subir a pique e o 'Tico' e o 'Teco', cá dentro, a perguntarem um ao outro, 'então e agora, o que é que a gente diz?'.
Lá me consegui safar, é certo, embora não estivesse muito convicta de que as ideias dadas eram grande coisa, mas pronto, conseguir lembrar-me de algumas - mesmo que eles pensem que são uma grande bosta - para mim, já é uma vitória.
E quando tudo parecia estar a caminhar para o fim, quando as perguntas difíceis já pareciam ter acabado e eu começava a descomprimir e a voltar lentamente à minha pessoa normal, eis que o cabrão me faz a derradeira pergunta do 'entale':
"Diz-me o nome do Ministro das Finanças".
E pronto, nessa altura, senti-me morrer. Há uma imagem da antiguinha série Ally Mcbeal que elucida muito bem como me senti na altura - senti-me desfazer em água -, como se todo o meu corpo se transformasse em gotas e eu fosse por ali abaixo que nem uma enxurrada.
Eu lembráva-me da cara do homem, eu sabia que sabia o nome do homem, a imagem do estupor do ministro aparecia-me clara e nítida à minha frente, o nariz abatatado, os cabelos grisalhos, os lábios grossos, eu sabia que tinha entregue o orçamento de estado dois dias antes às 3 da manhã numa estúpida pen-drive e que não tinha cumprido o prazo imposto, eu sabia que tinha estado em directo no jornal da noite da Sic - porque o vi - a ser entrevistado pela Clara de Sousa, mas não fui capaz de me lembrar e dizer o nome do sacana do TEIXEIRA DOS SANTOS, acabando por ter de admitir que não sabia. (Mesmo tendo dado esta explicação toda - que era para ele não pensar que eu ando cá neste mundo para ver andar os outros).
Mesmo assim, acho que não me safei... quando ele olhou para mim, vi a desilusão estampada no seu rosto e eu senti-me uma mentecapta.
E de facto sou. Além de ter respondido uma data de clichés, nem sequer sei o nome do nosso Ministro das Finanças. Sou uma merda de jornalista, é verdade, mas pá, isso não se faz ó grandesíssimo filho da mãe!
Agora resta-me fazer figas e pensar que ainda posso ter sorte. Mesmo assim, até estou meio confiante.
SOU MESMO ESTÚPIDA!

quinta-feira, janeiro 28, 2010

auto-análise

Não tenho actualizado este canto porque ando sem computador e não por falta de vontade. Quer dizer, explicando-me melhor, eu computador continuo a ter, mas está tão marado que não me deixa escrever NADA no que quer que seja. Quero actualizar o meu estado no facebook e o gajo (computador) não deixa. Quero abrir emails e responder às pessoas e o gajo (novamente computador) não deixa. Quero vir actualizar o blogue e o gajo (pois, esse...) não deixa!!
Ai senhores, haja paciência para pc's! Tão cheios de 'não-me-toques-que-fico-cheio-de-vírus' que já estive mais perto de me mudar para desertos desconhecidos (traduzindo; ambientes mac)...
Por isso, não pensem que entrei em depressão total. Nop. Not yet. Ando apenas ocupada e sem máquina para dar voz a tudo o que me tem acontecido e me vai na alma.
E só para finalizar este desabafo sobre computadores e a minha respectiva ausência, é de um 'mac' que vos escrevo - o do gajo, pois claro (sim, desta vez é mesmo o 'gajo') - que por não estar em casa tenho-o só para mim, caso contrário, é para esquecer, que ele é um picuínhas com a sua máquina e detesta que eu me ponha a 'inventar' (citando-o), naquilo que é dele.
Pronto. Introdução concluída.

Monólogo 1
Ando a tirar um curso. O tal que falei no post anterior de que não tinha bem a certeza se deveria de fazer, não por falta de interesse ou vontade, mas por questões de timming - de faltar um mês para o meu subsídio de desemprego terminar, de andar desesperada por arranjar qualquer coisa, por achar que me ia roubar tempo para a procura activa de trabalho, por ir e vir todos os dias da Ericeira para Lisboa levando-me a gastar uma pequena 'fortuna' em gasolina e portagens... Enfim, tudo isso pesava na decisão final de ir fazer um curso que me iria roubar e ocupar o tempo todo - das 9h30 às 18h00 - quase todos os dias da semana.
Após conversa com o gajo, achei que o melhor era mesmo ir. Estava ocupada, conhecia pessoas novas e aprendia coisas que me poderiam vir a ser úteis. E como ele me deu tanto apoio para o fazer - e como eu no fundo, no fundo, também queria - fui.
Faltei no primeiro dia tomada por todas estas dúvidas existenciais que me assolavam a alma, mas no segundo apareci à hora marcada.
Convém igualmente dizer que este curso, não é bem um curso como os que tenho tirado até agora na minha vida profissional. Não é sobre escrita, imprensa, rádio ou televisão, não é de línguas, excel ou powerpoint, não me dá habilitações para vir a dar formação na minha área, ou competências para pintar um quadro, mas é um curso que visa o futuro e, como tal, é orientado para conseguirmos obter na nossa vida profissional as ferramentas e mecanismos para arranjar trabalho, mas também - e principalmente - trabalharmos naquilo que realmente gostamos/gostaríamos de fazer.
E vou ser muito sincera, se ao início quando olhava para os módulos achava apenas aquilo interessante, hoje, acho que tomar, efectivamente, a decisão de ir fazer este curso, foi das melhores decisões que fiz nos últimos tempos.

Monólogo 2
E porque é que o curso é assim tão bom? Ou melhor, porque é que é das decisões mais acertadas que já tive nos últimos tempos? Bom... porque o curso não é só aquele carácter prático e atípico do: vamos lá refazer o vosso CV, como ter noções de empreendedorismo, ou ensinar o que é uma boa rede de contactos e como a utilizar. Para mim, pessoalmente, está a ser muito mais do que isso. Está a ser uma terapia e quando digo terapia não tem apenas a ver com o facto de ter uma rotina, levantar-me todos os dias de manhã e chegar a casa como se estivesse a trabalhar, conhecer pessoas novas, ter conversas enriquecedoras, despertar interesse no outro, ou deixar de ter o pijama como principal indumentária. Claro que tudo isso ajuda na 'terapia', mas o curso está a ter a mais valia preciosa de me fazer olhar para mim própria e saber 'ver-me' com olhos de gente. De deixar de me sentir a desgraçadinha sem controle nos acontecimentos que luta contra o infortúnio e o azar e à qual ninguém dá trabalho, para os saber analisar de forma coerente e racional - que é coisa que eu muitas vezes não sou, porque fico completamente abalrroada pela avalanche de emoções que me atingem - para deixar de estar tão centrada no meu próprio umbigo e perceber que, infelizmente, existem dezenas, centenas de outros 'jovens' igualmente competentes, igualmente qualificados e igualmente talentosos na mesma situação que eu, de saber conhecer e identificar onde erro, como sou perante os outros, como me comporto, o que é que a minha atitude diz de mim e, muito principalmente, de ter o benefício de me ajudar a ser uma pessoa melhor.
Tenho inúmeros defeitos. Tenho tantos, mas tantos, que muitas vezes, quem me conhece, não imagina que os tenho. Mas tenho e admito-os, todos. E o que aconteceu de fantástico nestes últimos 3 dias, foi que consegui identificar mais falhas e defeitos em mim, pontos negativos e coisas a melhorar, do que em dez anos de trabalho.
Tenho noção de que a minha situação actual também se deve em grande parte à minha atitude. Tenho noção de que fervo em pouca água, que sou mandona, respondona e muitas vezes, um bocadinho arrogante. Não o faço de propósito, faço-o porque sou mesmo assim, mas isso não é desculpa, nem deve servir de justificação consentida. Nem para com quem me rodeia na esfera pessoal, nem para quem me contrata no âmbito profissional. E apesar de eu, em parte, já saber interiormente estas coisas todas, estes últimos dias fizeram-me pensar que não posso continuar a ser assim. Mais do que isso: não posso permitir! Porque senão, qualquer dia, corro o risco de ninguém me aturar, de ninguém ter paciência.
O meu marido não tem culpa de estar desempregada, logo, não tenho de descarregar nele as minhas frustrações.
Os meus amigos não têm culpa por terem vida profissional e eu não, logo, não deve ser por isso que eu me devo afastar.
O mercado tem lugar para mim, é só acreditar e fazer para com que as coisas melhorem.
Tenho ainda muito para dar e vou conseguir, basta persistência, determinação, paciência e empenho.
E, acima de tudo, a minha filha será certamente uma criança mais feliz e realizada se a mãe dela também o for.

Por tudo isto, por me fazer pensar, por me fazer ver que ando a ir pelo caminho errado, por me abrir os olhos com um grande estalo de 'acorda para a vida', este curso, esta 'terapia', está a valer por mil consultas no divã do psicólogo.
E como na vida as coisas boas vêm por arrasto, amanhã tenho uma entrevista de emprego marcada.

My fingers are crossed. :)

terça-feira, janeiro 12, 2010

ainda sobre o assunto do post anterior...

...sobre o qual eu não estou a conseguir desligar-me, confesso, convém adiantar, que esta minha 'amiga' em questão - para além de estar grávida quase em final de tempo - ir ficar de licença de maternidade durante 6 meses, ainda ter direito a um ano inteiro de subsídio de desemprego (sim, está desempregada também) - quando eu dentro de um mês fico a ver navios - não ser da mesma área profissional que eu apesar de ambas se tocarem, como se tudo isso não fosse suficiente para ter cinco dedos de testa antes de me vir pedir uma coisa destas, tem ainda uma empregada a tempo inteiro em casa que lhe vai pôr e buscar o filho mais velho à escola, lhe faz o almoço e o jantar, passa a ferro, arruma e limpa...
E a gaja ainda tem a lata de pedir os meus contactos para enviar o seu próprio CV, argumentando que 'lhe dá muito trabalho preencher os formulários online"?!?!
A mim também me dá trabalho e eu ODEIO fazê-lo, mas faço-o!
E se está desempregada, com a criança mais velha na escola e a outra ainda dentro da barriga, tem tanto tempo para se dedicar à procura activa de emprego quanto EU!
Por isso, faz-te à vida!!

sexta-feira, janeiro 08, 2010

filhos a correr

Numa curta ronda pelos babyblogues que costumava visitar e comentar pela internet, apercebo-me de que existe uma série de mães, com filhos da idade da Madalena e pouco mais velhos, que já estão grávidas e bem adiantadas do segundo. Fiquei estupefacta! Como deixei de actualizar o blogue da Madalena, raramente lá vou e raramente leio os blogues que costumava visitar. Acho que ganhei uma aversão a babyblogues e por isso, passam-se dias sem ir ver as actualizações.
Às vezes bate a saudade de lá escrever, principalmente porque me obrigava a fazer um registo activo e diário da evolução dela que agora se perdeu. Já quase nem a fotografo e ainda ontem, dei por mim a pensar que desde o Ano Novo que não a fotografava e mesmo essa data, as fotos que tirei, foram poucas ou nenhumas, assim como o Natal, onde a máquina ficou sem bateria e nunca mais me lembrei de a pôr a carregar.
Mas voltando ao ponto inicial e motivo pelo qual escrevo este post, as segundas gravidezes, quando ainda se tem um filho tão pequeno, confesso que me atrofiam o cérebro. Claro que muitas vezes isso acontece por descuido, porque no pós-parto estamos a amamentar e não temos período e pensamos que isso basta e depois, 'ups-jesus-maria-josé', lá vem mais outro a caminho, mas nestes casos que vi e leio, são todas por vontade própria, porque querem engravidar, porque querem outro filho.
O gesto é bonito, sim senhora, não o nego. E corajoso! Eu seria incapaz de ter outro filho agora, principalmente quando acho que a Madalena, apesar de já ter um ano, ainda depende, tanto, mas tanto de mim. Apesar de já não ser propriamente um bebé de cólo, de já andar e de ser um pouco mais autónoma, não deixa de ser um bebé. É cada vez menos bebé e mais menina é certo, mas ainda é um bebé e como tal, precisa de uma atenção constante, de ser acompanhada, de ser estimulada, precisa do pai e da mãe a 100% e não apenas pela metade, repartindo essa metade entre o trabalho dos pais e a presença de um recém-nascido que nos ocupa o tempo todo com mamadas de 3 em 3 horas, fraldas, cólicas, crises de choro, noites mal dormidas and so on.
Não consigo deixar de pensar que mães que optam por engravidar, por vontade própria, de um segundo filho quando o primeiro ainda é um bebé, o fazem por puro egoísmo. É que uma pessoa quando está grávida é apaparicada até à exaustão, toda a gente nos dá lugares nas filas para passar à frente, toda a gente nos faz festas na barriga, toda a gente pergunta como estamos, preocupam-se connosco, dão-nos presentes, dedicam-nos atenção e depois, o bebé nasce e puff... tudo isso desaparece como que por magia e aquela sensação da barriga, de termos um ser a crescer dentro de nós, de sermos um só e não dois, acaba e fica uma espécie de vazio que nos deixa muitas saudades. De objecto de atenção a sermos criticadas é um passo... e dos curtos! Seja porque a criança não mama correctamente, seja porque chora, seja pelo que for, os motivos para toda a gente abrir a boca e mandar bitaites sobre maternidade são tantos que nem adianta aqui falar deles.
Claro que eu gostaria muito de dar, um dia mais tarde, um irmão(ã) à Madalena. Não queria que ela, há semelhança de mim e do pai, fosse filha única. Eu gostava de ter tido irmãos, nem que fosse para andar à porrada com eles, pois acho que isso, certamente, faria de mim uma pessoa mais tolerante e melhor do que aquilo que sou. Acho, mas não tenho a certeza. Mas não gostaria neste momento de estar grávida, nem de descobrir que estava grávida, pois isso seria a antítese daquilo que senti quando descobri que estava grávida da Madalena e que foi, felicidade pura.
E um filho deve vir assim, num acto de pura felicidade, por isso, eu nem devia de estar aqui a 'julgar' quem engravida de um segundo porque quer. No fundo, nem se trata de julgar, é apenas um desabafo, um comentário, porque comigo, que abdiquei de tudo por ela, agora é hora de retomar a vida que tinha antes e voltar a sentir-me a 'Mafalda' e não apenas a 'mãe'. Para mim, essa é a minha prioridade do momento, e ela, claro. Além do mais, a Madalena, depois de uma fase muito complicada de se lidar entre os 6 e o 12 meses, agora está simplesmente DE-LI-CI-O-SA! Confesso que tive muitas alturas em que perguntei a mim mesma: 'onde é que estava com a cabeça quando decidi ter um filho' e se ela foi desejada e se eu pensava que estava preparada...
Mas descobri que nada nem ninguém nos prepara para a chegada de um bebé que é tão surpreendente quanto assustador. Há dias maravilhosos e em que tudo corre bem e há dias em que parece um inferno, em que duvidamos das nossas capacidades, em que nos sentimos deprimidas, mentecaptas e incapazes. E eu, que não tive nenhuma depressão pós-parto porque andava nas nuvens nos primeiros 6 meses, confesso que nos seguintes bati no fundo. A Madalena berrava a maior parte do dia, não estava bem de maneira nenhuma, eu não tinha ninguém com quem a deixar, nem pais, nem sogros, nem ama, nem uma simples empregada doméstica ou mulher a dias que viesse cá a casa passar as pilhas de roupa que acumulam sem dó nem piedade e senti-me cada vez mais sufocada, cada vez mais sozinha, cada vez menos eu, sem ninguém a quem recorrer.
Só agora, que ela está mais calma, cheia de graças, que nos dá boas e completas noites de sono, que fala e interage comigo, que a consigo perceber, que me faz rir e que foi para a escolinha, dando-me tempo e espaço para eu própria respirar, é que consigo voltar a sentir as delícias da maternidade em pleno e, talvez por isso, não consiga compreender a vontade e o desejo de certas mulheres em engravidarem logo após o nascimento de um filho.
Mas isso sou eu, que sou um ser complicado por natureza.

terça-feira, dezembro 29, 2009

running in heels

Sabem aquele programa que dá no canal 'E entertainment' da Zon sobre 3 estagiárias numa revista de moda, mais propriamente, a 'Marie Claire'?

Pois bem, ADORO!!


É que quando vejo aquilo, apesar da realidade editorial portuguesa ser assim um 'tanto-ou-quanto-muuuuiiiiiiitttttto' diferente, lembro-me de quando era jornalista e apesar de passar a vida a queixar-me, hoje, 3 anos depois de ter deixado de parte a profissão para a qual me formei, sei com toda a certeza de que é o jornalismo a minha grande paixão.
Jornalismo e revistas... femininas, de preferência.

E depois, vejo programas destes e bate uma saudade cá dentro, uma nostalgia tão grande, o de fazer parte de uma redacção, o de entrevistar pessoas, de saber as suas histórias, fazer produções, entrar nos estúdios, rever fotos e ozalides, procurar erros nas páginas, sublinhar gralhas...
Tenho saudades de tudo, até das coisas más. (é sempre assim não é? até numa relação passada temos tendência a lembrar-nos apenas das coisas boas e a 'esquecer' as más...)
E mesmo sabendo que actualmente só com um verdadeiro golpe de solpe e intervenção divina eu conseguiria fazer parte de uma revista feminina, ainda continuo a achar que um dia serei parte integrante da redacção da Glamour quando a mesma for editada em Portugal. (o que não deixa de ser um contra-senso, porque nunca me senti tão feia, velha, gasta, gorda, inútil, ultrapassada e sopeira, como agora...)




Coisas minhas, o que é que se há-de fazer?...




segunda-feira, dezembro 28, 2009

o espírito do Natal passado...


É um conto, eu sei, mas achei que serviria perfeitamente para explicar o que me aconteceu na noite de 24 para 25 de Dezembro.

Sonhei com o meu avô paterno, que já morreu há 16 anos.
Nunca me tinha acontecido, sonhar com o meu avô, ainda para mais na noite de Natal.

O meu avô só tinha uma neta, eu. Para ele eu era a 'menina' e apesar de não ser uma pessoa que verbalizasse aquilo que sentia ou o manifestasse fisicamente através de beijos e abraços, sei que tinha um lugar mais do que especial no seu coração. O meu pai, seu filho, é igual. Não é à toa que têm o mesmo nome.
O meu avô era apicultor. Criava abelhas e bicharada, tinha patos, pavões e perus a deambular pelo quintal. Vendia no mercado da fruta nas Caldas e aquilo para mim era motivo de orgulho. Qual era a criança que se podia gabar de comer fios de pinhões todos os dias? Nenhuma que eu conhecesse. Por isso, sempre que ia visitar o meu avô à praça, toda eu rejubilava com aquela parafernália de coisas onde a vista se perdia e a alegria se multiplicava. Ora era a balança de pesos que nunca consegui entender como funcionava, ora eram os canários amarelinhos, presos nas gaiolas, que cantavam à desgarrada como se a felicidade estivesse ali prestes a sair-lhes dos bicos em forma de melodia, ora eram os frutos secos que eu penicava à socapa, as caixinhas de framboesas que ele me mandava para casa porque sabia que delas fazia batidos, a moeda que me passava para a mão, ou o simple nogat de caramelo e pinhão que me adoçava a boca e acalmava a gulodice.

Era assim que o meu avô me mimava. Não era por palavras, nem por gestos carinhosos. Para ele, o carinho traduzia-se assim, na preocupação das pequenas coisas em me fazer feliz. Por me mostrar os animais, por me pôr em contacto com a natureza das coisas, por me mostrar como a vida, para além da nossa, tem multiplicações de formas, cores e feitios e que todos sentem, todos têm uma função, um papel a desempenhar.

Quando o meu avô morreu eu tinha 15 anos. Andava aluada com as hormonas da adolescência e apanhou-me em plenas férias de verão em casa de uma tia durante as festas de S. Pedro. No meio de tamanha excitação que eram aqueles dias, em que os rapazes eram a minha única preocupação, o meu avô decide morrer, assim, sem pré-aviso, sem dar sinais. Deitou-se bem de noite, já não acordou de manhã. O meu pai, seu único filho, ligou à hora do almoço para casa dos meus tios e disse-me que tinha de regressar.

'Porquê?' - perguntei eu contrariada - 'Porque o avô morreu' - disse do outro lado e desatou num pranto.

Foi a primeira e única vez que vi/ouvi o meu pai chorar.

Eu não chorei. Não chorei nada, nem uma lágrima verti. Lembro-me que a sensação que predominou em mim foi o aborrecimento por ter de me ir embora, por deixar aquele ambiente de festa, de carrinhos de choque, de primeiros beijos escondidos na calada da noite, para me enfiar em casa para chorar uma morte, - algo com o qual eu nunca tinha tido contacto na vida - e onde as lágrimas e a tristeza predominavam.

Fui contrariada, mas fui. Os meus tios enfiaram-me no carro deles e juntos fizemos a viagem de regresso, tendo os mesmos permanecido para assistir ao funeral.

Lembro-me também que não me vesti de preto e que choquei umas tias por levar uma camisa aos quadrados azuis e brancos com umas aplicações vermelhas em certas partes. (a moda na altura era terrível!)
'Qual é o problema?' - pensava eu - 'não estou aqui? não chega?' - e contrariando tudo e todos não a despi. Não bastava já cortarem-me as férias de verão na melhor parte, ainda queriam vestir-me? E, fazendo justiça à rebeldia típica destes anos, levei-a em jeito de afirmação.
Quando o funeral acabou implorei aos meus pais que me deixassem regressar com os meus tios. Eu queria era a feira, o voltar para o centro da alegria, para junto do rapaz que me interessava, o prolongamento da promessa de dias felizes. Queria lá saber de desgostos, de lágrimas vertidas, de mortes.
A minha mãe bracejava, revoltada que estava comigo.
' - Onde é que já se viu? O teu avô acabou de morrer e tu queres é festa? Nem pensar, nem pensar! Não vais nada, não vais nada! Ficas em casa' - e foi o meu pai, solidário com a minha juventude, com a inconsciência dos meus actos, com o facto de nem ter ficado abalada com a morte do meu próprio avô, que deu a palavra de ordem - 'Podes ir. É melhor ires mesmo.'
E foi assim, que eu, no dia em que o meu próprio avô foi a enterrar, regressei à feira de S. Pedro, às férias do Verão, aos rapazes e aos carrinhos de choque, ao ponto onde tinha deixado a minha diversão, para agir como se a morte do meu avô tivesse sido apenas um percalço no meio de tudo, algo sem importância.
Até hoje não me perdoo.
Hoje, com 31 anos, penso muitas vezes nisto.
Como fui capaz de fazer o que fiz? Como fui capaz de agir tão tolamente?
Devaneios da idade? Sim, é verdade, mas mesmo assim, a imaturidade foi tanta que não me consigo perdoar.
É por isso que, nesta noite de Natal, quando o meu avô me apareceu em sonhos pela primeira vez na vida, eu senti que ele, esteja onde estiver, me mandou uma mensagem, como se me dissesse: 'eu continuo aqui, eu gosto de ti'.
E se na altura não verti uma única lágrima, hoje, sempre que penso nisso, esvaio-me em água.









Desculpa.

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Julie & Julia

Finalmente consegui ver. Finalmente, o filme pirateado que tínhamos cá em casa e que não tinha som nem legendas, foi substituído por outro que um amigo nos presenteou e ontem, só ontem, consegui estar perto de duas horas absorvida pela história.
Confesso que não sabia nada, absolutamente nada sobre o filme. Apenas que tinha a maravilhosa e inigualável Meryl Streep e para mim, isso já era motivo de sobra. Adoro-a, acho-a fantástica, queria ser amiga dela. É, sem dúvida, a minha actriz de eleição. É monstruosa a Meryl, tão boa que até dá arrepios.
Mas o filme, o filme tocou-me muito, muito mesmo. Às vezes há filmes assim, que sem motivo aparente me fazem chorar e eu ando ali, a lutar com as lágrimas, para que ele não perceba que me deixei levar pelas emoções e me goze como se fosse uma Madalena arrependida. Ontem consegui disfarçar bem. Ele não percebeu que aquilo que via projectado no ecrã, é, em parte, aquilo que gostaria que sucedesse comigo, num outro contexto, sem necessariamente envolver comida.
Com 31 anos sinto-me perdida. Sem rumo. Se os 30 são os novos 20, os meus estão a ser de fugir. Se esperei tanto pelos 30 para ser mãe, então, a dádiva da maternidade, estou a pagá-la bem caro. Se aos 30 era suposto já sabermos o que queremos, então eu sou a excepção que comprova a regra, porque sinto-me como uma criança acabada de nascer. Eu já não sou eu. Não me sinto segura como me senti com 20, nem certa do meu valor como me senti com 20, nem sei se realmente sei fazer alguma coisa. Duvido de tudo, até das minhas capacidades.
Tento continuamente motivar-me. Tenho dias em que acordo esperançosa, em que sinto que algo de bom vai acontecer nesse dia, em que esta fase está a chegar ao fim. Abro o email 500 mil vezes ao dia à espera de notícias boas, de surpresas, de algo que me faça dar pulos de alegria.

Nunca chega.

Tento ter iniciativa para as mais variadas coisas: entregar cv´s pessoalmente, tentar marcar reuniões, enviar sinopses dos meus livros, disparo em todas as direcções. Não acerto em lado nenhum. Ando sempre aos tiros no escuro.
Ver o filme de ontem foi confrontar os meus próprios fantasmas. Foi sentir-me frustrada comigo mesma. Foi uma dualidade interior.
Resta-me a esperança, como diz a minha Marlene, de saber que Saramago só publicou o seu primeiro livro com 40 anos.

Tenho 9 anos para não me considerar uma verdadeira falhada.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

A minha mãe

A minha mãe tem o dom de me desatinar. De me azucrinar a paciência. De me pôr descontrolada como mais ninguém consegue. De me tirar do sério.
Não me interpretem mal, eu adoro-a, mas pá... ela desatina-me! Porque a minha mãe, apesar dos seus 53 anos de idade, anda a passar uma fase em que se comporta como... uma MIÚDA!!! E eu não tenho paciência para a aturar, porque já me bastam os meus problemas, a minha vida, o meu desemprego, a minha filha e marido para tratar e cuidar e ainda tenho de 'levar' com as nóias dela, as 'merdas' dela, os desatinos dela, as exigências em querer que eu seja a 'dona de casa perfeita', aquela ideologia e educação de vassalagem ao marido sobre todas as formas e que ela quer, à força, incutir-me. Hoje, a conversa descambou por causa da 'merda' do Natal. (perdoem-me as asneiras, mas quando estou assim, como estou hoje, com o estado de espírito de hoje, só me apetece dizer asneiras, porque só assim parece que alivío o peso que trago cá dentro).
Tal como esperava, o Natal será na minha casa. Não o queria, confesso. Não me apetece ter trabalho com sogras e sogros, com pais e afins, ter chatices e confusões para que tudo e todos, 'aparentemente' estejam bem. Isto porque se fosse na casa dos meus sogros, os meus pais não queriam ir, logo, tem de ser aqui a 'je', a que apanha dos dois lados, a que leva por tabela, a aparar os golpes. E claro, já suspeitava, que por causa da porcaria do Natal, eu terei de me desdobrar em mil, de andar aqui a fuçar como uma escrava do século passado, armada em sopeira e em gata borralheira, a tentar agradar a gregos e a troianos. Já sabia que por causa do Natal viriam as conversas da treta de 'limpar a casa', do 'cozinhar', do ter 'isto e aquilo feito para que a tua sogra não critique', como se eu fosse uma desorganizada, como se a casa não estivesse limpa ou arrumada SEMPRE, como se eu fosse uma adolescente que deixa roupa espalhada pelo quarto ou por onde passa, como se não soubesse gerir as coisas ou a minha vida fosse caótica. Não imaginam o que ela me abrasou a cabeça com o baptizado, as chatices que me deu, os nervos que me fez, e agora vem o Natal, pois claro, porque já se passou mês e meio sem andar a chatear-me a sério e isso já é muito tempo!
Fod***, passei-me! Tive mesmo de lhe desligar o telefone! Ela nunca mais aprende que eu já não tenho 15 anos, que não manda em mim, que eu tenho a minha própria casa para cuidar, que ela tem a dela e na minha não manda, que temos vidas separadas, que é minha mãe e não minha amiga intíma a quem eu conto os meus problemas sentimentais.
Se não é o baptizado, a casa, ou o Natal, é outra merda qualquer, é o estar desempregada, é o 'isto está muito mau', é 'não podes gastar dinheiro', é 'tens de ser meiga para o teu marido', é o 'tens de fazer assim como a mãe te diz'....
ÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ
Há dias, como hoje, que só me apetece dar um berro bem alto e mandar todos dar uma curva ao bilhar grande!
É o que dá ser filha única. Se não é ela a abrasar-me a cabeça é o meu pai. Se não são os meus pais, são os meus sogros. Porra, às vezes acho que por mais que me esforce, por mais que até seja uma 'mulher convencional', que faz tudo 'by the rules', que tenho de andar continuamente a provar aos outros que eu 'sou a melhor escolha que o vosso filho podia ter feito', ou 'que sou a filha que vocês queriam ter'.
Às vezes, para não dizer, quase sempre, sinto-me sufocada. Deve ser por isso que tenho cada vez menos paciência. É por isso que o Natal me deixa sempre frustrada, que acabo por achar tudo uma grande fantochada. É a altura da família e da paz e do amor e a mim só me provoca é stress e ansiedade.
Não vejo a hora que esta altura passe. Chiça!

encontros com o passado

Ontem, enquanto fazia compras de Natal no Toys R´Us, e quando estava na caixa, eis que me deparo com a minha ex-patroa. A directora da agência onde trabalhei, que se encontrava na caixa ao lado, já a pagar e de repente, se virou para trás e dá de caras comigo. Sorriu muito e disse-me 'Olá Mafalda', cmo se tivesse tido um prazer sentido em ver-me, como se até fosse uma pessoa simpática e preocupada. Eu também sorri, embora amareladamente e perguntei: 'está tudo bem?', como mandam as leis e os protocolos da boa educação.
Não esboçei mais nenhum sorriso, não tentei fazer conversa, não perguntei como vão as coisas.
Não me apetece falar da minha filha a quem nunca sequer, teve a decência de me ligar a dizer que não me iam renovar o contrato, quando foi ela que assinou a folha. Não me apetece dar justificações da minha vida, se já estou ou não a trabalhar, a quem só o quer saber para seu próprio conforto pessoal, tendo a satisfação de confirmar que continuo na merda. Não me apetece ser cínica ou mentirosa e fingir que está tudo bem quando não está. Não me apetece saber se a outra já pariu o Sebastião, se têm mais clientes, se houve aumentos ou se as intrigas continuam na ordem do dia.
Não me apetece nada, por isso nem me mexi. Fiquei ali, na caixa, ao lado do meu marido, enquanto ela empatava na caixa ao lado a ver se à saída ainda nos cruzávamos.
Felizmente não aconteceu.
Isto de estar tanto tempo em casa, sozinha, enclausurada e fechada na minha própria concha, faz-me ter cada vez menos paciência para os outros, principalmente para quem não merece.
O que era o caso.

sábado, dezembro 12, 2009

sei que estou a ficar velha...

... quando estas descidas bruscas de temperaturas se avizinham e me provocam dores nos ossos e no corpo como se fosse uma entrevada com 75 anos! Ontem, quando andáva às compras de Natal e me baixei para apanhar um artigo, tive perto de dar um gritinho lancinante em pleno shopping, mas lá me consegui controlar, cerrando os dentes bem forte e inspirando fundo. Mas hoje, em que o joelho latejava e a anca me provocava ferroadelas, já só me apetecia dizer asneiras e blasfemar a minha triste sina... Arreeee!

quinta-feira, dezembro 10, 2009

nem sei que título dar a isto...

Digam-me que sou doida, que não tenho mais nada em que pensar, que isto de estar desocupada me dá cabo do cérebro, que ando toda tostadinha, torradinha das ideias, ou que bati com a moleirinha quando era pequenina e nunca mais recuperei a tempo de ser uma pessoa normal... mas pá, esta semana, estava eu a tratar da miúda quando, de repente, lhe olho para a palma das mãos e reparei - assim com olhos de ver - o quanto ela tem uma linha da vida curta!
Aquilo até me deixou a bater mal, com o coração a bater acelerado, acho mesmo que tive um pico de stress emocional/adrenalina assim em 3 segundos com princípios de taquicardia. Não é que eu acredite muito nestas merdas, mas pronto, fiquei assim, a modos que, APAVORADA! Acagaçada de medo, MESMO!
E depois, queria olhar outra vez para a palma da mão dela e não tinha coragem e pensei cá para mim mesma: 'ah e tal, deves ter visto mal', mas aquilo não me saiu da cabeça e mesmo quando podia ter olhado novamente não o fiz, não olhei. Mas ontem, ontem estava eu e o pai a dar-lhe jantar e eu comentei isto com ele, mostrando-lhe as minhas suspeitas e lá estava ela, a linha da vida, curta e grossa, naquela mão pequenina. Ele claro, como homem que é, pragmático e racional (pelo menos bem mais do que eu), disse logo para eu parar com a porcaria da conversa.
Porque é isso mesmo, uma porcaria de conversa, mas não consigo deixar de pensar naquilo.
Mas, mas... e se algo acontece à minha garota?
(acho que, pelo sim pelo não, lhe vou tracejar a linha a marcador e fingir que afinal tive uma ilusão de óptica só para me mentalizar de que não devia de ler/acreditar/ficar impressionada com coisas estúpidas e sem qualquer critério científico!!)

quinta-feira, dezembro 03, 2009

estado de espírito

Hoje sinto-me terrivelmente deprimida.
Porque ontem tive uma entrevista de emprego, onde tiveram a lata de me chamar e perguntar se estava disposta a vender equipamento da Zon de porta a porta!!
EU?!? A vender equipamento da ZON?!? De tão deprimente só me dá vontade de rir (para não chorar!)
E ainda me disseram que o meu CV era adequado e aquilo que eles ambicionavam na pessoa que desempenhasse semelhante função...

sexta-feira, novembro 27, 2009

ele há coisas...

Hoje, estava eu sentada numa esplanada, na converseta com a comadre, quando uma jovem ciganita a vender pensos rápidos se aproxima de nós e com aquele ar de 'compra-me-lá-qualquer-coisinha-que-sou-uma-desgraçada-pobrezinha-cigana-miserável', pergunta se queremos comprar algo do que ela tem para vender.
Acenei com a cabeça em forma de não, mas a rapariga não arredava pé e ali ficou, a fazer pressão psicológica, a olhar para nós como se fossemos umas cabras cheias de dinheiro que não ajudam um pobre coitado. Perante a nossa firmeza na resposta começou então a ladaínha do peditório.
'-Dá-me uma moeda, tenho fome, quero qualquer coisa para comer'.
E eu, peremptóriamente, sem arredar pé da minha negação, continuei a abanar a cabeça. Mas ela insistia:
'-Dá-me uma moeda, quero comer.'
E eu voltei a abanar a cabeça em forma de não.
'-Então dá-me um cigarro'
E eu, que estava a mexer no maço de tabaco na altura, tirei um cigarro do mesmo, estendi-lhe a mão e dei-lho. Assim como o fiz, assim me largou. Nem um obrigado, nem um agradecimento. Antes pelo contrário, pediu-me lume, sempre com os olhos postos em mim, a intimidar-me, a fixar-me com desdém, como se fosse a maior puta ao cimo da terra.
E agora perguntam vocês, mas porque é que deste um cigarro a quem te pedia comida?
Pois é... dei um cigarro, porque aquela 'pobre ciganita miserável que vendia pensos rápidos', de 'miserável' propriamente dito, não tinha nada. Estava limpa, bem vestida e apresentável. Cara de passar fome tinha tanta quanto eu, por isso, neguei-lhe sempre a 'moeda'.
Mais, quando me pediu o cigarro e me estendeu a mão, qual não é o meu espanto e me deparo com unhas de gel, impecavelmente arranjadas e com brilhantes colados nas pontas.
Ah pois é, 'dá-me uma moeda, tenho fome, quero comer', mas com unhas daquelas, nem eu ando, que as minhas estão cortadas rente e pintadas de verniz vermelho comprado no chinês...
Por isso, bem posso ir pedir também, que de certeza até tirava mais ao final do mês do que aquilo que recebo do estado.