sexta-feira, novembro 23, 2007

Contos I



















Ela sabia, no mais íntimo do seu ser, que ia conseguir. Era um longo caminho tortuoso, cheio de cascalho, que a fazia derrapar e esfolar os joelhos. Mas ela levantáva-se. Sempre. E prosseguia, com a certeza de que nada nem ninguém a poderia demover do contrário. Um dia, cansada pelo calor e inchaço dos pés, sentou-se na beirinha de uma pedra que lhe pareceu cómoda. Deixou-se ali ficar, dormente pelo sol que lhe cobria o rosto e a tapava, como um cobertor faz a um corpo frio, enquanto tombou lentamente a cabeça para trás e fechou os olhos. Nos seu cabelos, a brisa da serra tocava de fininho, fazendo-os ondular suavemente, como se de fios de ouro se tratassem, espreitando entre o lenço de chita que lhe emoldurava o rosto cansado. As mãos entrelaçadas apertaram-se. Contraiu-as no peito, evitando que toda a sua temperatura evaporasse. Lembrou-se da mãe e da sua voz doce quando a embalava à noitinha. Era tão pequena nessa altura. Mas a voz da mãe aparecia-lhe nítida, cristalina, como se estivesse junto dela naquele instante, a cantar-lhe ao ouvido. Ajeitou o xaile que trazia sobre os ombros. Tinha-o tricotado nos tempos livres, quando a lavoura e os animais o permitiam. Tudo isso consome muito tempo na vida de uma mulher. Expressou um sorriso, calmo e tranquilo. Queria adormecer com aquele conforto na alma. Sabia que não ia sair daquela rocha fria e dura tão cedo. As pernas tinham fraquejado pelo caminho e pediam benesses. O sol ameno que ainda à instantes a embalava, rapidamente deu lugar a uma chuva miudinha que rapidamente se tornou desconfortável. Pareciam bicos de facas que se cravavam na pele, recordando-a a cada gota, do quanto era frágil. No alto daquela serra, sentada naquela rocha, o caminho de cascalho pareceu-lhe muito longo para ser percorrido por uma velha cansada. Pensou desistir, contraiu as mãos mais uma vez, apertou o lenço que trazia na cabeça fazendo com que o mesmo lhe tapasse as orelhas, ajeitou o xaile de lã, obrigou as pernas a obedecer e sem demoras, voltou a pôr-se a caminho.

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